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Ser mãe

Rosemary dos Santos

A senhora apresenta ter uns 60 anos. Feições sofridas. As marcas de sua luta diária são visíveis em sua face. Roupas simples. Cabelos grisalhos, com alguns fios caindo em sua testa. Agarra-o com força tentando colocar em sua boca alguns goles de água. Está calor. Quase 38 graus. Ele, suado, desvia de suas mãos girando a cabeça em sinal de negativa. Entre um gole e outro ela passa em sua testa uma toalhinha surrada, tentando secar o suor que corria em seu rosto.

Pingos de água que caem do copo de plástico molham o chão e secam rapidamente. De repente, ele levanta e corre pelo corredor. Esbarra em mim. Sorri. Volta a correr, rodopia. Ela sai em sua direção, preocupada. Desculpa-se. Segura sua mão.Gesto de carinho. Afaga-o, abraça-o, tentando mantê-lo sentado.

Observo ao redor, vejo que as pessoas sentadas ali não percebem a beleza daquele momento. Mãe e filho, sincronia perfeita. Ele grita e ela balbucia algo ininteligível em seu ouvido.Ele se acalma. Joga-se em seu colo meio desajeitado. Passa as mãos em seus seios, despreocupado.Cena perfeita, harmoniosa. Mãe e filho num só corpo.

Ao seu lado, uma bolsa com alguns papéis. Ele olha sorrateiro. Arranca-os de sobressalto e os espalha pelo chão.Todos se abaixam para ajudá-la, inclusive eu. Tão calmamente como antes, ela faz um muxoxo e ele, como se lesse em seus olhos um pedido, senta-se e se volta para seu mundo. Dormita.

Começo a observá-lo. Rabisco algo num pedaço de papel. Ele abre os olhos devagar e olha para mim, como se não me enxergasse. Será que dormia? Sentada em sua direção eu acompanho cada gesto disfarçadamente.Ficamos assim por alguns minutos.

Professora Rosemary, a senhora precisa descansar. Estou doente, sinto dores nas costas, cansaço, vontade de desistir. Diagnóstico: estresse. Ajeito-me na cadeira dura. Por um instante sinto-me bem. Aquela mulher é capaz de me tornar também mãe de seu filho. Exemplo de perseverança. Seu rosto diz-me que meu cansaço é pequeno perto do dela e, mesmo assim, ela jamais desiste. Lembrei-me de Drummond no poema Para Sempre: " por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho."

Texto decorado. Recitei para a minha mãe quando tinha 11 anos. Você tem que decorar. Fale bem alto com a mão no peito. Decorei mesmo. Falo para a minha mãe todo ano.

Recito mais uma vez, baixinho. A senhora do meu lado olha-me zangada. Assiste ao programa de Ana Maria Braga na TV cheia de sombras penduradas no alto da parede. Atrapalho a hora da receita de...Não sei o quê.

Olho para ele e analiso-o lentamente. Apesar de seus gestos agitados, seu sorriso inquieto, a mão de sua mãe sobre a sua acalma-o, como se Deus se fizesse presente ali, pedindo-o um momento para que sua velha mãe pudesse descansar.

Tranquilamente ela o olha e beija-o sempre que ele permite. Alisa seus cabelos. Passa as mãos por sua testa. Murmura palavras de conforto. Compreende o que não precisa ser explicado.

Alguém no fundo do corredor grita um nome. A senhora levanta-se apressada. Ele dá um pulo, grita, segura em sua mão. Busca refúgio para o inesperado.Olha para ela, sente-se reconfortado. Seu nome: Marcelo. Deve ter uns 27 anos e aparenta ser autista. Os dois caminham harmoniosamente em direção a sala do médico...

Escrevi isso hoje às 8h no consultório de um médico onde fui queixa-me de cansaço. E aquela mãe mostrou-me o remédio.A perseverança com doses suaves de amor.

Pubicado em 7/5/2007

Publicado em 08 de maio de 2007