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Com Suassuna no Palácio

Leonardo Soares Quirino da Silva

Convidado para inaugurar o projeto Encontros com o Barão no Palácio Itamaraty, no dia 7 de maio último, o acadêmico Ariano Suassuna iniciou sua conferência Uma Visão de Brasil, prometendo à audiência falar especificamente sobre arquitetura. Contudo, como os personagens do Grande Sertão: Veredas, que entremeavam um causo no outro, Suassuna falou sobre globalização, língua, cultura, literatura, política nacional, internacional e até sobre arquitetura.

Globalização, língua, cultura

Declarando-se um pouco intimidado por estar se apresentando pela primeira vez em um palácio, o escritor paraibano afirmou ter como ideal a fraternidade universal, sendo, por outro lado, contrário ao cosmopolitismo e à uniformidade cultural. Para ele, "estão querendo nos condenar à uniformidade cultural, pois seremos mais facilmente absorvidos".

Esse tipo de política, segundo ele, tem antecedentes históricos. Citou Napoleão Bonaparte, cuja primeira medida era ensinar o francês nas escolas dos países conquistados com o objetivo de formar uma mentalidade pró-francesa nas novas gerações.

Com base nisso, ele chamou a atenção para a necessidade de preservarmos a língua portuguesa, pois "o primeiro bem de um povo é sua língua".

Suassuna denunciou o que chama de tentativas de transformar o português em língua de segunda classe sob o argumento de ser uma língua pobre.

O escritor defendeu que o idioma português é de primeira classe, riquíssimo, tendo sido chamado por Cervantes de "a doce língua". Aproveitando um copo que estava em cima da mesa, o acadêmico reforçou seu argumento ao fazer uma comparação com o inglês que usa a mesma palavra - glass - para vidro e para copo.

Apesar de o exemplo acima também ser válido para o francês, parece que a principal preocupação do escritor é com a maciça penetração da cultura americana no Brasil. Essa preocupação transpareceu na queixa que fez de uma reportagem sobre as pessoas e movimentos que fazem a fusão entre cultura popular e erudita. Mencionado no texto, ele ficou indignado pelo fato da matéria ter usado um trabalho de Roy Lichtenstein, um dos expoentes da Pop Art.

Em razão de sua defesa intransigente da língua e da cultura nacionais, Suassuna declarou que é acusado de ser arcaico, mas enquanto tiver força vai reagir e disse que "a juventude me ouve porque sabe que não estou mentindo".

Quanto às fontes da cultura nacional, o escritor identificou como sendo um eixo que vai da Amazônia ao Rio Grande do Sul.

Esse comentário foi, em parte, provocado pelo embaixador Jerônimo Moscardo, presidente da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag). No início do evento, ele citou Alceu Amoroso Lima, que afirmou existir um eixo que une Minas ao Nordeste e que equivale ao rio São Francisco. Para o pensador católico, "a esse eixo o Brasil tem de voltar de vez em quando, se não quiser se esquecer de que é Brasil".

O intelectual paraibano também observou que não há oposição entre cultura popular e erudita. Ele defendeu que o que de fato existe é a interpenetração dos dois estilos e que isso não vem de hoje. Como exemplo, ele citou a cantiga de mote e glosa. Criada na península ibérica no século XV, esse gênero é desenvolvido até hoje pelos cantadores no Nordeste. Os autores devem criar de improviso versos decassilábicos com base em uma tema (mote) dado pelo público, o que, ressaltou Suassuana, é bem difícil.

A posição e o exemplo dados pelo escritor são, naturalmente, coerentes com sua obra. Criador do Movimento Armorial e autor de obras como A Pedra do Reino e o Auto da Compadecida, Suassuna capta o que alguns estudiosos chamam de uma medievalidade própria do Brasil, que existiria de forma difusa.

Literatura

Ao falar sobre sua obra, Suassuna defendeu o caráter heroico de João Grilo, de o Auto da Compadecida. O escritor refutou primeiro a comparação desse com Macunaíma, que o próprio Mario de Andrade disse ser um herói sem nenhum caráter, e depois as alegações de que seu personagem seria um anti-herói.

Quanto a este ponto, o escritor paraibano ressaltou que João Grilo é um verdadeiro herói. Com sua astúcia, prosseguiu Suassuna, Grilo primeiro derrotou os grandes proprietários, na pessoa do major Antônio Moraes. Depois a pequena burguesia urbana, representada pelo padeiro e por sua mulher. Em seguida, o clero corrupto - o padre e o bispo. Por fim, o demônio em pessoa.

Para quem percebe os ardis empregados pela personagem como sinônimo de trambique, Suassuna lembra o dito popular que diz que a astúcia é a coragem do pobre. Dessa forma, ele a identifica como uma estratégia de sobrevivência ante a disparidade de forças.

Da mesma forma, para os que identificam João Grilo e Chicó com os políticos corruptos de hoje, o escritor defende que a astúcia é própria da política, sendo ainda mais necessária para os políticos honestos e decentes que para os desonestos. Armados com ela, os primeiros defenderiam mais facilmente os interesses da população das tentativas em sentido contrário, feita pelo segundo grupo.

Casa da Flor

Ao comentar a arquitetura nacional, Suassuna primeiro comentou que Brasília parecia uma cidade que tinha levado um susto e empalideceu. O escritor sente, na capital, a falta de cores vibrantes que marcam as construções Brasil afora. Como exemplo de uma anti-Brasília, ele apresentou fotos de Oeiras (PI) e suas casas coloridas.

Contudo, o escritor deteve-se mais tempo na Casa da Flor e em seu construtor, Gabriel Joaquim dos Santos. Com estrutura de pau-a-pique, a casa é decorada com restos de construções e de peças cerâmicas que o pedreiro semianalfabeto recolhia ou recebia de conhecidos.

O resultado, como observou o escritor, é um mosaico gigantesco, com um estilo próximo ao do arquiteto catalão Antoni Gaudí, mas construído por um homem do povo, sem instrução formal.

Suassuna manifestou identificar-se com Gabriel dos Santos. Primeiro, ao lembrar que o construtor chamava a estante da Casa da Flor de altar dos livros. Depois, ao declarar que ele está empreendendo uma obra semelhante em Recife.

Cada obra que faço é como um caco que vai se juntar a outros para erguerem uma nova Casa da Flor

15/5/2007

Publicado em 15 de maio de 2007