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Por um respeito especial...

Arleidimar Ramos dos Santos

Pedagoga

Durante algum tempo me perguntei se deveria relatar a experiência vivida por mim numa turma de educação especial, onde me ofereci para ensinar informática. Questionava se interessaria a alguém saber dessa minha aventura, vista por muitos na época como uma forma de passar o tempo e por outros como uma forma de “praticar o bem”.

Na época (ano passado, para ser mais exata) eu cursava o último ano da Faculdade de Pedagogia e por não ter experiência em salas de aula me ofereci como amiga da escola para desenvolver um projeto que envolvia inclusão digital para os alunos da educação especial, já que esta sempre foi minha área de interesse.

A aceitação do colégio foi imediata.

Disposição não me faltava. Para ser bem sincera, era só o que eu tinha!

Na faculdade, aprendi a não acreditar na educação como meio de caridade e sim como força na prática de liberdade e de igualdade. Por isso, em momento algum eu estava ali para práticas de bem-aventuranças, mas sim por acreditar que um bom trabalho poderia ser desenvolvido.

Resolvi aceitar o desafio, ou melhor, dois desafios: trabalhar ao mesmo tempo com alunos da educação especial e com a informática, já que para muitos educadores o computador ainda é um mito e sua utilização ainda é um tabu a ser quebrado.

Tirando às vezes que o programa não “rodava”, o computador não funcionava ou éramos incomodados pelo barulho infernal vindo da sala de vídeo anexa ao laboratório, a parte da informática não se apresentava como um problema.

A outra parte envolvida na história, ou seja, os alunos, essa sim era o que me assustava!

A turma era composta pelos mais variados tipos de deficientes: visual, mental, com dificuldades motoras, de aprendizagem, problemas com a fala, etc, etc, etc...

Para minha surpresa encontrei “crianças” que independentemente das idades cronológicas apresentadas, eram carinhosas, inteligentes e capazes de raciocínios que por vezes me surpreendiam.

Seus ditos problemas aos quais eu passo agora a chamar de pequenas limitações, não se apresentavam nunca como obstáculos para nosso relacionamento ou para o desenvolvimento de nosso trabalho.

Eu era esperada ansiosamente por todos para as nossas famosas “aulinhas de computador” e meus alunos nem se davam conta do quanto eu aprendia com eles. E o aprendizado foi enorme!

Aprendi que as limitações daqueles alunos não se comparavam com a força, coragem e inocência com que eles conduziam suas vidas, e que as minhas limitações materiais e pedagógicas eram, no mínimo, ridículas diante de tanta luz e determinação que vinham daqueles alunos.

Aprendi que, mais do que alunos, eu estava fazendo amigos. Amigos muito, muito especiais! Que na sinceridade de sorrisos, num biscoito oferecido, passaram a fazer parte da minha vida.

A solidariedade entre eles surpreendia e encantava. Muitas vezes nos intervalos do recreio eu os observava e via o quanto um cuidava do outro, enquanto as outras crianças ditas “normais” trocavam empurrões, chutes e gritos.

Realmente aqueles meus alunos eram especiais!

Hoje, depois de alguns meses do fim de nosso projeto, retornei a escola e encontrei lá aquela minha turminha especial.

Alguns rostos novos, outros rostos ausentes, mas fui recebida com muito carinho e ouvi de um dos meus alunos que ele está sentindo falta de nossas aulas de informática. Quer melhor resultado do que este?

Então, comecei a pensar em quantas outras pessoas estariam interessadas em desenvolver algum tipo de trabalho na educação especial e, pelas críticas e dificuldades,  seriam vencidas pelo desânimo, pela incerteza, pelo medo do que ainda para nós é tão pouco conhecido.

Por uma breve, mas muito proveitosa experiência,  posso afirmar com toda a certeza que, apesar de toda dificuldade, principalmente a material, podemos desenvolver grandes projetos e trabalhos com essas crianças e ainda recebermos um carinho incondicional, sem nenhum tipo de interesse.

Aquele pouco tempo que passamos juntos foi realmente importante para todos nós, não importando o que os outros possam ter falado, pensado... Não importando nem mesmo a falta de credibilidade que enfrentamos: eu como profissional, eles como seres humanos capazes.

Por isso, ao avaliar nossa história, vivida por tão pouco tempo, posso afirmar sem nenhuma dúvida de que valeu e sempre valerá a pena acreditar nas mudanças que possam surgir através da educação.

Assim banimos o medo, a insegurança e toda forma de obstáculo que preconceitos e desânimos insistem em trazer para nossas salas de aulas e escolas.

Acredite que é possível a realização de um bom trabalho, e um grande passo já vai ter sido dado em favor da educação desses jovens especiais, por vezes tão desacreditados e esquecidos, mas que trazem nos olhos os mesmos desejos de qualquer outra criança: carinho, atenção e respeito!

Publicado em 15 de maio de 2007

Publicado em 15 de maio de 2007