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Desconhecida íntima

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Crônicas filosóficas

Certa vez um professor que me deu aulas quando cursava a graduação em Filosofia me encontrou no Centro de Convivência do Campus da UFRN. Era um daqueles poucos dias chuvosos que de vez em quando insistem em quebrar a monotonia da luminosidade e do calor impiedoso, que tornam o clima de Natal tão sedutor para alguns e tão infernal para outros. Por causa da chuva, eu estava parado diante de uns 20 metros de lama que me separavam do meu Ford Fiesta. Pressionava a chave do carro no meu bolso, pensando se seria mais vantajoso atravessar aquela lama debaixo da chuva ou esperar que o céu abrisse um pouco mais. Foi quando o meu antigo professor aproximou-se e me disse: “Olá, Pablo. Como é que vai? Soube que você virou jornalista”. Até aquele dia eu não tinha notado, mas existe algo mal resolvido envolvendo jornalistas e filósofos.

Apesar de grandes pensadores terem dedicado boa parte de suas vidas produzindo textos na imprensa (alguns, inclusive, fundando jornais, como Hegel), há a crença de que o espaço do jornal não é um local apropriado, pela contenção das linhas e pela necessidade de textos curtos e “enxutos”, para se falar sobre algo tão profundo e complexo quanto a filosofia. Por isso, o meu antigo professor estava sendo um pouco irônico quando fez o comentário. Eu estava começando a escrever artigos e crônicas em jornais e isso poderia dar a impressão de que eu estivesse “trocando de time”. Optando por esquecer a advertência que Platão, o aluno de Sócrates, havia mandado gravar na entrada de sua escola de filósofos: “não entre aqui quem não souber geometria”. Na verdade, essa parece ser uma estratégia deliberada de alguns filósofos na história do pensamento ocidental. Camuflar seu discurso atrás de uma linguagem técnica, própria e intrincada, que serve muito mais como uma cortina de fumaça que esconde o pensamento do que algo necessário, quando se começa a filosofar. A história está cheia de casos trágicos de pensadores que se deram mal por tentar propalar abertamente suas ideias. Sócrates (o caso mais famoso); Giordano Bruno; Baruch Spinoza; Pedro Abelardo; todos dançaram feio quando resolveram sair da toca e esquecer o lema que René Descartes mandou gravar na sua tumba: “bem viveu, quem viveu oculto”.

Por isso, para uma certa categoria de professores universitários, tornar-se jornalista é algo a um só tempo vulgar e perigoso. Mas eu particularmente não pensava desse modo. Minha ideia era outra. Será possível falar sobre filosofia nas linhas de um jornal? Será digno, exato, profundo ou condizente com meu status de especialista em ciências mortas e línguas ocultas usar um espaço pequeno entre a página policial e o caderno de política para traçar, no ritmo da crônica, um painel acerca da evolução do pensamento ocidental? Meu professor era um sujeito bem humorado, que já havia me dado algumas das melhores aulas que eu já havia tido na minha vida; mas naquela tarde eu resolvi que iria assumir a provocação.

Fazer uma série de crônicas, curtas e certeiras, que dessem conta da filosofia –  essa desconhecida íntima de todos nós. Essa dama estranha, que vive na nossa casa, dorme na nossa cama e come do nosso prato, mas ama se esconder quando olhamos diretamente para ela. Naquela tarde, me despedi do meu antigo professor e meti o pé na lama debaixo da chuva para pegar meu carro e sair do campus universitário. Naquela tarde resolvi escrever a primeira crônica dessa série e topar o desafio de falar, na superfície da linguagem, de algo profundo; porque a única coisa que alguém que está procurando algo não pode fazer é se perder.

Publicado em 22/05/07

Publicado em 22 de maio de 2007