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Magreza, juventude e felicidade: as três moiras da modernidade

Mariana Cruz

Vida útil
Dicas para simplificar a vida

Se você é daqueles que ao levar uma cortada no trânsito chega em casa e briga com a esposa; acha que ter uma alimentação saudável é comer sanduíche natural feito com maionese industrializada, ketchup, frango com hormônio e milho enlatado; e pensa que combater os radicais livres é ir contra as ideias de Heloísa Helena ou do pessoal do PSTU, realmente está na hora de rever seus conceitos comportamentais, alimentares e salutares.

A princípio, é bom esclarecer uma pequena confusão: ser magro não é sinônimo de ser saudável, como tenta vender a anoréxica indústria da moda, que nas últimas décadas vem cada vez mais apertando os cintos e diminuído os números dos manequins. Afinal, ser esquelético virou in. Nada mais injusto, impositor, inaceitável. A exemplo das modeletes que, seguindo sem saber a sentença do grego Anaxímenes -  "tudo é ar" -, utilizam-se desse elemento como fonte de alimentação. E quando olham para si, ou para o que resta de si, muitas vezes os danos causados são irreversíveis.

Cheínhas, violões, grandalhonas, mignons atentem: ser saudável e sem estresse é o que nunca sai de moda.

Mas a cruel indústria fashion vai além: não basta sermos magros, temos que ser jovens, eternamente jovens. Músculos rijos, pele esticada e qualquer mínimo sinal que denuncie a distância dos anos dourados deve ser imediatamente combatido.

E para completar a tríade contemporânea, vem a obrigação de sermos felizes full time, qualquer chateaçãozinha já é motivo de vergonha. Como assim você não é feliz? Para evitar esse tipo de constrangimento, agora a felicidade é vendida em cápsulas. A tão cultivada e nobre eudaimonia -a vida feliz para os gregos - banalizou-se. Em qualquer farmácia da esquina, cada pessoa pode adquirir seu quinhão de felicidade mensal. Assim, estes três elementos - magreza, juventude e felicidade - compõem o coquetel pós-moderno e brindam a superficialidade do mundo. Unidos, como as três irmãs mitológicas, as moiras, vem traçar o infeliz destino do homem.

Mas acalmem-se, não pretendemos fazer aqui uma ode à gordura, ao envelhecimento e à tristeza. Apenas queremos mostrar que as coisas não precisam ser a ferro e fogo, como querem nos vender. Existe vida além de prozac, moderadic, botox, silicone e dos complexos vitamínicos antioxidantes. É possível termos tudo isso nos alimentos - um corpo legal, um aspecto jovial e uma mente sem estresse - sem que necessariamente viremos escravos disso. A fórmula não será mágica como a das poderosas drogas... por outro lado, o efeito poderá ser mais duradouro.

O poder dos alimentos

Como diz o, por vezes, sábio senso comum "a mudança tem que vir de dentro". Sendo assim, uma boa alimentação pode trazer benefícios em diversos aspectos e ao mesmo tempo a sensação de bem-estar poderá, ironicamente, nos libertar da obrigação de obtermos sucesso no trinômio magreza-juventude-felicidade a todo custo. Estar bem consigo mesmo talvez esteja no fato de saber conviver bem com uma gordurinha localizada, perceber a beleza de uma linha de expressão e entender a necessidade de que, por vezes em nossa vidas, temos que passar por momentos tristes. E cá entre nós, se não fossem as tristezas, teríamos conseguido dar o valor devido ao Édipo de Sófocles ou ao Hamlet de Shakespeare?

Sem estresse as frustrações diminuem e junto delas as cobranças diante das imperfeições que nós, graças a Deus, temos. Diga-me o que tu comes que te direi quem és, já dizia um sábio plagiador. Utilizemos tal frase como fio condutor da presente reflexão. Cito aqui o caso de duas pessoas que têm um pesada jornada de trabalho e da forma que encontraram para driblar o estresse cotidiano

Ele: cabelos precocemente grisalhos aos 27 anos, gengivas hipersensíveis pela força que emprega na escovação de dentes, trabalhador do mercado financeiro. Todos sabem que o lema lá é time is money. Competição, sabotagens, jogo de cintura...como dizia a música: um roteiro de intrigas para Fellini filmar. A branquidão capilar nem é o grande problema, nos homens invariavelmente cai bem, mas no caso dele é, segundo o próprio, um sinalizador de estresse. O rapaz normalmente trabalha de nove da manhã às dez...da noite, é claro. Nessas 11 horas, em média, que fica por lá, nem e-mail pessoal pode usar sob risco de ser rastreado. A todo e qualquer momento pode ser derrubado do cargo que ocupa. A ordem do dia é captar recursos, gerar lucro, bater cotas. Apesar da pressão diária que sofre, o jovem labutador é um exemplo de felicidade, bom astral, riso fácil.  Esse bom humor de onde vem? O rapaz segredou-me a receita do sucesso. Faz as três coisas que estão ao seu alcance. Primeiro de tudo: a comida. O rapaz foi criado por uma mãe que o usou de cobaia nas suas incursões na culinária natureba. Assim, gorduras, carne vermelha em excesso, frituras, nada disso entra na gastronomia do rapaz. Arroz integral, soja, legumes e verduras diariamente, frutas várias no café da manhã, muita água durante o dia. Agora já temos um sinalizador. Outra liçãozinha do rapaz: ele toca guitarra, tem uma banda de garagem e duas vezes por semana ensaia depois do trabalho (os estúdios ficam abertos até tarde) e senta a mão nas cordas de aço, é uma espécie de catarse pela arte (embora haja dúvidas sobre o conteúdo artístico do rockn´roll). E em terceiro, quando tem que fazer aquelas piores atividades do mundo, contas minuciosas, detalhadas e inacabáveis, ele aciona um dispositivo interno e transforma aquilo em um jogo no qual ele tem que fazer a tarefa maçante da forma mais caprichada e bem acabada que conseguir e, quando há as inevitáveis traições no competitivo mundo capitalista, ele enxuga com calma a peçonha que escorre no canto da boca de seus colegas, não se deixa levar pelas futricas, apenas ri, não fala mal de ninguém e nem gasta tempo observando a vida alheia.

Não quer dizer que para lidar com o estresse tenha que se entupir de brócolis e tofú, fazer intermináveis solos de guitarra (ou qualquer outro instrumento musical) e brincar do pollyanesco "jogo do contente". Mas foi a forma que o mocinho encontrou de não se deixar levar pela pesada rotina que vive. E lá se vão sete anos desse trabalho. Nem um sinalzinho de gastrite, como muitos de seus colegas com bem menos tempo de trabalho apresentam.

Ela: professora do Estado e do Município, da rede particular e de um curso pré-vestibular. Trabalha manhã, tarde, noite e sábados. Para se aliviar da pesada carga, usa receitas hídricas. Coincidências astrológicas à parte (o signo e ascendente são do elemento água), ela brinca chamando-se de ilha, pois está cercada de água por todos os lados. Enquanto suas colegas de magistério, que também cumprem essa carga excessiva de horas e escolas, perdem a voz, xingam os alunos, reclamam das escolas, faltam aulas e mais aulas por fadiga, rouquidão, estafa e outros motivos relacionados ao estresse, ela nada. Nada do verbo nadar. Três vezes por semana, às 6:00 da manhã, já está de touca e maiô preparando-se para seus 1.200m. Ao chegar em casa depois de um dia inteiro de trampo pesado, liberta os pés dos sapatos e faz escalda-pés, santo remédio do tempo do ronca, onde uma quantidade de água quente é jogada em uma bacia, e junto com sal grosso (ela diz que o sal grosso é necessário, mas vai saber) a pessoa fica lá com os pés relaxando, com água na altura dos tornozelos.

Nas suas aulas ela fala, fala, fala para seus mais de quarenta alunos por turma. Preparar textos, corrigir provas, trabalhos, redações e dá-lhe água, água e água. E frutas, muita fruta. Antes, porém, não era assim. Percebeu que estava perdendo a voz, chegava em casa à noite irritada, tinha insônias e seu corpo vinha se arredondando. Estava a ponto de desistir do magistério. Como última cartada, resolveu mudar seus hábitos alimentares, praticar esportes e beber bastante água (coisa que antes era substituída por café e refrigerante). Agora com sua vida insular, conta que, quando chega em casa depois de um exaustivo dia de trabalho, até seu suor já não é mais o mesmo: a consistência não é mais grudenta, parece que acabou de dar sua primeira aula do dia. Cotidianamente come maçã (fruta que nunca foi muito fã, e agora não passa um dia sem), cuja propriedade adstringente é grande auxiliadora na limpeza da boca e da faringe, excelente para quem trabalha com a voz. Será por isso que as professoras ganham maçã de presente dos alunos nas historinhas?

Dando rasteira no estresse

A exemplo dos nossos dois personagens, também podemos encontrar formas de lidar com o estresse. A proposta não é eliminá-lo por completo (alguém consegue?), afinal somos muitas vezes vítimas de situações enervantes sobre as quais muitas vezes não temos controle. Causas externas como violência, burocracia, trânsito, filas, contas etc, que se impõem a nós. Temos que aprender a conviver com essa situação da melhor forma, tal qual um jogo de capoeira: mandinga daqui, mandinga dali, às vezes somos surpreendidos por um golpe, não tem jeito, mas capoeira que cai, cai bem, então é só levantar e continuar, fintando.

Receitas para ficar bem

Após estes dois exemplos de mudança de postura no combate ao estresse, vejamos algumas dicas sobre alimentos e atitudes que podem nos auxiliar na obtenção de uma vida mais zen.

Alface acalma, banana deixa feliz, uva rejuvenesce, pois tem ação antioxidante, que diminui o colesterol ruim (LDL); abraço faz bem pra alma, ginástica para o corpo, leitura para a cabeça; cenoura é bom para pele e olhos, brincar com crianças, filhos, netos, irmãos, faz bem para tudo - além de gastar muitas calorias. Cantar músicas e contar histórias ativam a memória e ajudam na preservação da cultura; água de coco retarda o surgimento de rugas da pele, além de ser calmante, diurética e depurativa do sangue, também é ótima para a vista quando bebida de frente para o mar. Trocar a escada pelo elevador é bom para a natureza, desligar a água enquanto está ensaboando a louça, também. Dar uma boa gargalhada melhora a oxigenação dos tecidos e provoca queda no nível de cortisol e adrenalina, hormônios associados ao estresse. De vez em quando é bom ir a um parque ficar descalço, sentir o contato dos pés com a terra, pois o corpo humano capta as energias do ambiente e a energia telúrica. O pepino, junto com a beterraba, hidrata e deixa a pele mais uniforme. A pera é rica em fibras e ajuda a hidratar, o lêvedo de cerveja e a banana estimulam o bem-estar. O morango é calmante. Tomar suco de salsão com erva doce estimula o poder de transporte de oxigênio na corrente sanguínea transmitindo energia. Maracujá acalma, é sonífero, combate o estresse, histeria (quem não se lembra daquele comercial da maracujina, que deixa você calminho, calminho).

Outras dicas que são do conhecimento de quase todos, mas nunca é demais lembrar: ao comer, mastigue repetidas vezes, tente sentir o gosto dos alimentos, use os outros sentidos nas refeições. Olhe a comida, sinta seu cheiro e, principalmente, saboreie bem o que ingere.

Efeito dominó dos alimentos: bom para o corpo, o espírito e a pele

Alimentar-se bem pode tanto ser útil no combate ao estresse quanto no emagrecimento. O terceiro ponto vem de carona com os outros dois. A fonte da juventude também pode ser encontrada naquilo que comemos. Pois a maioria dos antioxidantes está presente nos alimentos saudáveis.

Os antioxidantes no combate aos radicais livres

Os antioxidantes são substâncias que combatem os radicais-livres que estão ligados a processos degenerativos, como o câncer e o envelhecimento. As células do nosso corpo necessitam constantemente de oxigênio para converter os nutrientes absorvidos dos alimentos em energia. Mas esta queima do oxigênio pelas células (oxidação) não sai de graça: libera moléculas de radicais livres que são instáveis e apresentam um elétron com carga negativa, que tende a se associar rapidamente a outras moléculas de carga positiva com as quais pode reagir ou oxidar, danificar as células sadias do nosso corpo. Alguns oxidantes são produzidos por nosso corpo, enquanto outros são encontrados nos alimentos.

Entre os alimentos ricos em antioxidantes, temos:

Vitamina C, encontrada em grande quantidade nas frutas cítricas e vegetais verde-escuros (laranja, limão, lima, acerola, caju, kiwi, morango, couve, brócolis, tomate)

Vitamina E, encontrada principalmente no germe de trigo (fonte mais importante), óleos de soja, arroz, algodão, milho e girassol, amêndoas, nozes, castanha do Pará, gema, vegetais folhosos e legumes;

Vitamina A, encontrada principalmente em alimentos como a cenoura, abóbora, fígado, batata doce, damasco seco, brócolis, melão.

Selênio, um mineral encontrado na castanha do pará, alimentos marinhos, fígado, carne e aves.

Zinco, outro mineral encontrado principalmente nas carnes, peixes (incluindo ostras e crustáceos), aves e leite. Cereais integrais, feijões e nozes são também boas fontes.

Bioflavonoides, substâncias ativas encontradas em frutas cítricas, uvas escuras ou vermelhas.

Licopeno, substância ativa encontrada principalmente no tomate.

Isoflavonas, substância ativa encontrada principalmente na soja.

Catequinas, substâncias ativas encontradas principalmente em frutas da família do morango, uva e chá verde (green tea).

Por onde andam os radicais livres?

Entre as causas externas que contribuem na formação de radicais livres em nosso corpo podemos apontar a poluição ambiental, os raios X e a radiação ultravioleta do sol, o consumo de cigarro e álcool, resíduos de pesticidas, aditivos químicos presentes em alimentos e bebidas, estresse e alto consumo de gorduras saturadas (frituras, embutidos, etc).

Apesar dos malefícios que podem nos causar, é importante saber que os radicais livres são essenciais para nós, como, por exemplo, nas defesas contra as infecções. O excesso deles é que pode ser prejudicial a nossa saúde.

Ser livre sem radicalismos.

Vimos que uma boa alimentação, o cultivo do bom humor e a prática de exercícios são fatores que vão muito além do trinômio da contemporaneidade: felicidade, magreza e juventude. Tem a ver com uma harmonia interna, algo que pode nos ajudar a ter uma vida livre, sem radicalismos.

Fontes:

Revistas eletrônicas:

Publicado em 15 de maio de 2007.

Publicado em 22 de maio de 2007