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Por que informatizar a escola?

Leonardo Soares Quirino da Silva

Quais os objetivos em se informatizar a educação? Será que basta distribuir computadores?

Os autores de ficção-científica sempre tentaram imaginar como seria a sociedade do futuro com base em suas percepções das possibilidades de seu presente. Volta e meia lembro-me de um repórter que, num dos contos de Isaac Asimov, usava um taquígrafo de bolso em suas entrevistas.

Depois de ouvir vários falsos oráculos e falsas Cassandras, o que se pode ter certeza é que nos próximos cinco ou dez anos e além, os computadores e as redes vão continuar sendo uma realidade. Mas como eles - redes e computadores - serão no futuro, não temos como saber.

O que podemos intuir de antemão é que, como em outros momentos da história, os países que saírem na frente da difusão desses recursos terão, naturalmente, uma vantagem. Essa percepção hoje, revelam pesquisas como a de Julie Remold, é difundida entre todas as classes sociais, profissionais, gêneros e etnias.

Pode se dizer que, para os economistas de uma maneira geral, a familiarização ou a capacitação das pessoas com as novas tecnologias é importante para aumentar a competitividade das empresas brasileiras. Para a população, também em termos genéricos, saber usar um computador representa uma chave que abre novas oportunidades no mercado de trabalho.

Não se pode afirmar o quanto as pessoas estão conscientes das possibilidades dos computadores e, principalmente, das redes em seu cotidiano, mas ambos, com certeza, apresentam grandes vantagens. Uma delas é a expansão das redes de relacionamento para além de suas comunidades geograficamente localizadas. Outra, é a difusão de informações de forma mais rápida e confiável. Por fim, ampliar o acesso a dados que antes não estavam disponíveis em função da distância.

Sem uma política de integração digital, cria-se uma nova dicotomia: a dos incluídos e a dos excluídos da sociedade da informação. Quem tem um computador ligado em rede consegue, por exemplo, realizar operações bancárias, manifestar-se mais rapidamente sobre os problemas de sua comunidade, trabalhar em rede com pessoas que estão em outros locais da cidade, do país e do planeta. Os que não têm um computador, ou estão fora ou contam com a solidariedade dos que têm.

Dessa forma, a difusão dos computadores e do acesso às redes transforma-se automaticamente em um política de Estado que visa a inclusão social de partes expressivas da população. A esse tipo de inclusão, chama-se digital.

Se há um consenso em torno disso, o mesmo não é verdade sobre o como fazê-lo. Uma proposta em estudo - o programa Um Computador por Aluno (UCA) - visa a distribuição de laptops para todos os estudantes dos ensinos fundamental e médio da rede pública nos três níveis - Federal, Estadual e Municipal. Ainda se estuda a maneira como isto será feito e qual a metodologia pedagógica será aplicada. O que há de certo, contudo, é que será realizado por meio da escola.

Aí começam as divergências, menos sobre a necessidade de se informatizar a escola e mais sobre os ganhos reais desse tipo de iniciativa. O professor Naércio de Menezes Filho (USP), por exemplo, defende que a distribuição de computadores para os alunos só trará resultados efetivos na redução da pobreza se houver melhora na qualidade do ensino que estes alunos recebem.

Com base nos dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), Menezes Filho realizou análises econométricas, que utilizam ferramentas estatísticas para analisar fenômenos econômicos. A revelação foi que os benefícios do computador na escola não necessariamente se traduzem em resultados melhores no Saeb.

Ainda segundo as analises, as vantagens só são percebidas quando os alunos têm acesso à internet em casa. Os mesmos estudos revelam que as condições oferecidas na escola respondem por cerca de 15% a 30% do resultado. O restante depende do contexto familiar dos jovens.

Em entrevista sobre o assunto para a Folha de São Paulo, o professor da USP advertiu, porém, que os dados do Saeb não revelam qual o uso que os professores estão fazendo dos computadores em suas aulas.

Com essa voltamos mais uma vez ao agente do processo, o professor. Para Menezes Filho, está claro que os professores conseguiriam "suprir a deficiência dos alunos mais pobres no uso do computador". O problema, ele segue, é que há evidências que sugerem a pouca motivação profissional na rede pública. Assim, "enquanto não houver políticas de remuneração e promoção que incentivem e retenham os melhores professores na rede pública, há pouca esperança de que os laptops tenham algum efeito sobre o desempenho dos alunos mais pobres".

Numa aparente contradição, contudo, no mesmo parágrafo, o economista da USP afirmou que o desempenho dos alunos não tem relação com a qualificação, experiência, número de lugares em que trabalha e dos cursos de atualização que os professores fazem.

Menezes Filho vai além e recomendou a adoção de turmas maiores e permanência dos alunos por um período maior na escola. As análises mostraram-lhe que o número de alunos na turma não influencia de forma significativa os resultados no Saeb, bem como o tempo que ficam na escola parece servir para aumentar seu desempenho.

A socióloga Julie Remold aponta que justamente por ser a remuneração insuficiente, naturalmente ela obriga os professores a trabalharem em pelo menos mais uma escola, consequentemente alguns deles reclamaram não ter tempo para prepararem adequadamente suas aulas. Remold descobriu isso após entrevistar professores de escolas públicas e particulares para sua tese de doutorado.

No trabalho, a socióloga defende que as três condições iniciais para o sucesso da inclusão de tecnologias da informação na escola são o número de alunos por turma, o nível de alfabetização dos alunos e o grau de qualificação dos professores. Entre os fatores adicionais, ele destacou o envolvimento dos pais e a experiência prévia com computadores.

A leitura da tese de Remold deixou a impressão de que a integração do computador ao processo pedagógico implica em turmas menores. A socióloga conta que professores que facilmente controlavam turmas com 40 ou mais alunos usando os métodos tradicionais - cuspe e giz - ficavam perdidos com cerca de 20 alunos das séries iniciais em laboratório de informática. O motivo disso estava menos na falta de conhecimento por parte dos professores e mais pela excitação e falta de familiaridade por parte dos alunos.

Por isso, de um lado, ela observou a importância da origem social dos alunos. Alunos oriundos das classes sociais mais ricas teriam computadores em casa e, logo, teriam maior familiaridade, o que os permitiria tirar maior benefício da integração dessas máquinas ao processo pedagógico. Por outro lado, os alunos de classes menos favorecidas precisariam de suporte maior, justamente pela falta de familiaridade.

De outro, a necessidade de que se tenha sempre em mente que o objetivo é a integração da informática ao processo pedagógico e não habilitar os alunos no uso de aplicativos específicos. Apesar do uso de uma determinada tecnologia naturalmente pressupor a habilitação dos usuários e cursos de informática serem muito procurados pelas classes populares, a meta da escola seria utilizar esses recursos para elevar o nível de alfabetização. Quanto maior ele for, maior a capacidade dos estudantes tirarem proveito do acesso à informação oferecido pelas novas tecnologias.

Para isso, é preciso ter professores mais qualificados. Segundo Remold, as pesquisas mostram que o uso de tecnologia da informação tem maior sucesso quando os professores são mais preparados.

Logo, é preciso investimento em qualificação e em salários. A conta é aqui é simples. Quanto maior o salário pago aos professores das escolas públicas, maior será a disponibilidade deles tanto para realização de cursos de aperfeiçoamento quanto para o planejamento de aulas, o atendimento às demandas de seus alunos. Também, maior será o nível de cobrança por parte das autoridades sobre os profissionais de ensino. Ademais, vencimentos maiores dispensariam, voluntária ou legalmente, a dupla ou tripla jornada. Seriam ainda incentivo para que os melhores alunos dos cursos de graduação buscassem o magistério.

Portanto, a informatização do ensino visa preparar os alunos para a nova sociedade que ninguém sabe ao certo como será, mas que terá as vantagens da troca de informações via redes em seu centro. Para que os futuros cidadãos tirem melhor proveito das oportunidades oferecidas pelas novas tecnologias, é preciso a alfabetização em altos níveis. Isso depende de melhor qualificação dos professores, o que necessariamente implica maiores níveis também da remuneração.

Este artigo, contudo, pretende ser o início de uma discussão. Quem quiser participar, dar sua opinião, basta escrever para o Portal da Educação Pública. Os comentários serão publicados no dia 5 de junho.

22/5/2007

Publicado em 22 de maio de 2007