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E o rabo balançou o cachorro?!

Prof. Dr. Eduardo Marques da Silva

A crise de uma história de controle eficiente que educou um Brasil multicutural.

Introdução

É inexorável o avanço do conforto que a tecnologia apresenta e, brevemente, com fácil acesso a todos. Estamos caminhando para um urbano/urbano? Lidar com um universo de mundos sociais de interdiálogos complexos e, até ininteligíveis à lógica concreta que se nos apresenta a novidadeira e violenta realidade especial nos dias de hoje que se vive. Mas não podemos esquecer que ela nos desafiou, como desafia sempre. Estamos diante da imponderável e desafiadora tarefa de lê-los no tempo presente. Nossas lentes são limitadas ainda, mas, embora nossos movimentos também, prejudicando nossas observações e verificações mais detidas, não podemos recuar, sob pena de renunciarmos a todas as conquistas!

Somente nos resta preparar-nos e construir o novo para visualizar e operacionalizar a vida em um plano verdadeiramente superior?! Estamos diante do maior desafio apresentado ao exercício de liberdade de pensar e agir! O universo social no planeta já começou sua surda, egoísta e muda revolução na passagem do século XX/XXI. A única certeza é que não sabemos quantas vítimas perecerão ao final do processo! Como diz bem Richard Pipes, a tirania não é a principal ameaça à liberdade, ela provém da sonhada e acalentada igualdadeBibliografia.

"Cultura, Poder e Patrimonialismo gerararam e continuam a gerar reprodutivamente uma história de controle eficiente que educou um Brasil multicutural", sempre imaculado e talvez inerte ao aterrador quadro que se avizinha. Através do pacto das elites construiu-se nosso modelo de estado/nação. Vivenciado por nós, de caráter multifacetado, ele aí está reproduzindo quase sempre a mesma música! Países multiculturais como o nosso apresentaram dificuldades de acompanhar a velocidade das novidades recentes que a tecnologia, roupa nova da prática capitalista, imprimiu e imprime ao que chamamos de progresso do ocidente.

Não é por acaso que ainda nos pesam muito os quatro séculos de chicote e pelourinho da escravidão, sempre expressos na nossa moralidade comportamental. Que permanente sentimento de estigma nos acompanha? É certo que chegamos tardiamente, por razões variadas, ao grande baile da liberdade, às grandes conquistas sociais do homem no planeta. Contudo, mergulhar na melancolia que o velho continente europeu nos presenteou é um pouco demais.

Fomos assistentes quase passivos de uma peça que não foi protagonizada por nós? Não podemos nos comportar como autistas diante de tamanha violência aqui praticada pela escravidão, etc., etc,? A leitura clara e séria da nova lógica da complexidade que vivenciamos no social e cultural é nosso propósito aqui e carece de um resgate em seu tempo histórico contemporâneo de básicas e rudimentares inserções sociais.

Ler ou reler a verdadeira face de nossos mais candentes problemas é nosso propósito. O desconstrutivismoBibliografia encontrará aqui, dialeticamente, a árdua e desafiadora tarefa de agir no que preferimos chamar de ação decodificativista. A roda do tempo está girando veloz como me disse certa vez um ex-aluno. Parar é a saída? Que preço pode ter um mergulho em nosso passado diante das surpreendentes constatações que podem dela advir?

Atualmente o Brasil tem historiógrafos bastante conscientes do problema. A produção científica, principalmente a partir dos anos 70, tomou um curso bastante rico e variado.

O desafio de educar o Brasil para um surpreso e abalado mundo da ciência pela revolução do(s) paradigma(s) da complexidade (HOLISM), é gigantesco! Que história poderemos contar sobre tudo o que passamos? Jonathan Culler nos fala acerca do desconstrutivismo que nos parece a mais nova bengala dos que querem perpetuar o conservadorismo que discutiremos aqui.  Contudo, '... navegar é preciso, ...'

1- Uma história de controles e confrontos: novos paradigmas e sua inserção na realidade vivencianda da moderna multicultura brasileira.

La Nature est um temple ou de vivants piliers.
Latssent parfois sortir de confusos paroles (...)
Baudelaire
Bibliografia

Observando sob a ótica do professor Boaventura de Souza SantosBibliografia, podemos afirmar que os avanços apresentados na produção científica da história das humanidades, no tempo presente, significou um sério e explosivo processo de mutabilidade.

Os tempos modernos foram importantes testemunhos de rápidas e revolucionárias mudanças em todos os sentidos. Para alguns dos países do velho mundo, as mudanças ainda causam estranheza e eles sequer tomaram conhecimento da sua importância como participantes do convulcionado processo. A própria ciência e sua relação interior acostumada a conjugar criticamente produção/reprodução em um cauteloso olhar crítico sofreu graves alterações.

Muitas vezes o planeta foi envolvido em graves e atormentadoras descobertas, como nos revelaram os problemas do equilíbrio ecológico. A discussão alicerçada na metafísica da globalização que se solidificou e garantiu substância estranha e complexa para muitos. A nós todos, nos incluíamos no universo surpreendente da Revolução Tecnológica na virada do milênio.

As possibilidades crescentes de avanços garantidos pelas descobertas da infotecnologia comprometia e surpreendia velhas senhoras do universo conceitual como já tivemos oportunidade de dizer em outros artigos, sempre soberanas e alicerçadas no campo ciêntífico. Eram elas fruto do embate da física quântica e matemática aplicada. As luzes lançadas no século XVII entravam em processo de franco esgotamento, cedendo espaço a um novo modo de enfrentar a vida. Pensar a ciência e sua produção novamente exigia acontecimentos novos em  todos os sentidos.

As humanidades passaram a ser priorizadas como afirmou Isaiah BerlinBibliografia. A natureza em seus vários compartimentos e maneiras, talvez maneirismos irresponsáveis, de se perceber, marcada por modelos maniqueístas, começou a passar por um grave processo de revisão. Da Universidade de Coimbra se acenava para um novo paradigma insinuante e novidadeiro que fazia referência a necessária produção científica mundial. Da Universidade Portucalense e da Universidade do Minho o professor  Paulo Ferreira da Cunha com o livro Ponto de Arquimedes: natureza humana, direito natural, direitos humanosBibliografia punha à prova de maneira surpreendente a histórica opção por verificar a existência do embate: Natureza Humana versus Natureza Animal como já dissemos. Convidando-nos a refletir e discutir sobre uma questão nova, questionava se realmente havia uma natureza humana que pressupunha a admissão de sua existência. Definitivamente, entrava em questionamento o chamado 'pensamento único', garantido pela tirania de seu espírito. O "dique da anomia social" Bibliografia, ou cedia logo ao romântico apelo ecologista ou seria o fim!

O elogio do homem e a sua prevalência sobre o animal, com diferenças específicas como racionalidade, religiosidade, arte e a própria sociabilidade, encontrava-se em profunda crise.

As novidades nos apresentam quatro novos paradigmas que combinam, ou pelo menos tentam combinar, ciência e cultura na natureza no tempo presente, como podemos ver no organograma abaixo que montamos.

Nota-se que há um profundo esgotamento das reflexões em torno da questão. Os dois possuem identidade, que começa a se explicar por serem dentro ou fora da lei (biografia da sociedade paralela) e sociedade cidadã (oficial) do que se vive principalmente no Rio de Janeiro a partir da segunda metade do século XX. Acaba por fazer do político um mero produto de mercado. Com seu comportamento e movimento nos oferece como se estivessemos em um Mercado de Variedades. Por sua vez, também faz o político pensar primeiro em se eleger e somente depois pensar a melhor maneira de como governar a coisa pública.

2 - Tá cada vez mais "down" no "high society!" tudo aqui tem dono?!

Uma bi-duplicidade de poder nos campos de relacionamento entre Intelectualidade/Cultura Ciência/Sociedade no espaço da relação Estado/Nação brasileiro de hoje.

Nos meus comunistas ninguém mexe!...
(Dr. Roberto Marinho - Ex-presidente das organizações Globo de Televisão aos setores revolucionários de 1964)

Hoje, "cultura", de forma geral, pode ser definida como um todo unitário de integração de valores. Torna-se, entretanto, estranhamente difícil à prática de não buscar entendê-la também como um todo complexo, problematizado. Pressupostos teóricos sempre existiram vários, não nasceram ao sabor de comportamento irresponsável dos cientistas, ou por acaso. Porém, todos sempre estiveram excessivamente presos às práticas de percepção cartesiana da história. A frase acima representa sempre a postura proprietária que exercemos com habilidade na geografia do nosso poder, onde quer que seja instalado, ou se instale. Somos dominadores, predadores e praticamos de maneira contumaz o hábito do controle da razão (concreta).

Certamente, isso não nos tem feito muito bem. Quando soubermos lidar com componentes importantes do nosso viver como ceder, negociar, reconhecer, valorizar, selecionar, priorizar, dentre várias outras coisas que são imprescindíveis ao perfil incompleto que temos como sociedade, aí teremos mais calma para um caminhar seguro na construção de algo melhor para todos.

Poder-se-á inferir sempre que o universo forme um todo que só pode existir de maneira solidária e, também, com absoluta equivalência no que se refira e a sua esfera de existência histórico-cultural de cada lugar. Porém, sem exageros, é com base na observação dos descaminhos e do inusitado, que acreditamos habitar o campo da complexidade do mundo global. Não nos esqueçamos que a dialética já nos oferece oposições respeitáveis e sérias que merecem observânciaBibliografia. Lembra Passet, fazendo referência a todos os que chamam de poderosos deste mundo, um trecho de outro "Elogio...":

... Se pudésseis observar da Lua (...) as inúmeras agitações da Terra, julgaríeis estar vendo uma multidão de moscas ou mosquitos que brigam uns com os outros, lutam, preparam armadilhas, roubam, jogam, saltam, nascem, caem e morrem; e não é possível acreditar nos problemas, nas tragédias provocadas por um animal tão minúsculo destinado a perecer tão cedo.

A problemática metafórica da globalização é séria e deve ser compreendida com o devido cuidado que merece, definições fundamentais que Davos não expressou, talvez por estar presa a questões prático-materiais imediatas. Afinal, era o capitalismo que se achava em cheque, pois dele se exigia respostas imediatas para graves problemas. Certamente, a soberba lhe atingiu, contaminando o que poderia ser chamado de bom senso. Por outro lado, também as soluções de Porto Alegre têm nos parecido insatisfatórias para resolver tão grave problema, os equívocos também foram graves. Por exemplo, acreditamos ser exagerada a postura da cientista Hezel Henderson quando afirmou que a "Era da Luz" começaria ali e, teria o Brasil como modelo para o mundo. Ora, ela mostrava total desconhecimento da história de nossa formação.

Somente para contrapor a suas ideias, ou seja, desejos, no mesmo fórum uma delegação africana cantava o desejo de viver do continente, como se fosse possível, em um mundo marcado e abalado pela infomotricidade e infotecnologia passar despercebido. Desde 1950 que não somos e nem podemos ser mais uma ilha, sob pena de ficarmos na mais profunda exclusão social mundial. Claro que no espaço internacional isso se torna grave. Não somos mais objeto de pesquisa que não contamina, ou é contaminado. Somos infobjetos enquanto viventes e vivenciandos que têm desejos, vontades, sonhos e muitas realizações a cumprir. Não nos pertencemos mais. O tempo da invisibilidade acabou! Pelo menos, em nossa dimensão dominada por essa traquitana tecnológica que habita o universo de coisas materiais do entorno, tanto objetiva quanto subjetivamente.

Assim, a globalização exige de nós uma profunda reflexão. Ela implica em mundialização, tanto quanto em mundialismo. A primeira, segundo a Delta Larousse, é o fato de se tornar mundial, ou seja, de se disseminar por todo o mundo. A segunda constitui uma doutrina que visa realizar a unidade política do mundo como uma comunidade humana única, ou seja, segundo Larousse, um universalismo visando constituir a unidade da comunidade humanaBibliografia. Não há alternativa, a primeira, é sempre analisada no nível dos fatos concretos. Já a segunda, é uma ideologia baseada em valores socioculturais, uma concepção da vida e do mundo, e não uma lei natural inelutável como diz PassetBibliografia. E mais,

...tanto se aplica ao pseudomundialismo quanto ao antimundialismo, pois não existe uma única relação possível de causalidade que conduza da liberação das trocas à abertura do espaço mundial. A questão que se  nos apresenta hoje é ..., rigorosamente inversa:  a partir da ampliação do campo das tecnologias humanas para o espaço planetário (mundialização), é preciso que nos questionemos sobre a conduta a adotar: supressão de toda iniciativa de regulação política do fenômeno, para favorecer seu desdobramento com todas as consequências, ou pelo contrário, manutenção ou fortalecimento da regulação, em virtude de algumas dessas consequências para a comunidade humana?.

Ora, é portanto a mundialização algo concreto à qual se poderão conferir várias faces; é em relação à comunidade humana e não às coisas que ela exatamente se define. Assim, nem toda a mundialização é mundialismo, nem tampouco a configura. Fica claro que face ao inexorável que os caracteriza, a velha questão de presa/predador está novamente posta. Cabendo a todos o livre arbítrio. Porém, é bom que não nos esqueçamos novamente de Passet quando diz que:

... A porta do galinheiro, como se sabe, é a raposa que reivindica a derrubada dos obstáculos à livre circulação. Defrontada com o caçador, no entanto, ela abraça de uma hora para outra a causa da proteção dos parques naturais. Sempre foi assim.

Está posta a questão central do presente trabalho: qual é a certeza que nos municiará para o enfrentamento dos desafios sociais do tempo presente no Brasil moderno ou modernizado? Para, estudá-la em um mundo marcado pelas certezas absolutas, se é que existem, ou existiram algum dia, aconselha-se um mínimo de prudência, calma e paciência. A pressa leva sempre a se conceber o caráter holístico de sua existência configurativa de maneira errônea.

Na cultura conflitam-se infindáveis componentes, cujos meio apresentam vasos comunicantes, intercomunicantes e transcomunicantes, tanto quanto repulsores, que não conseguimos, até agora, ver claramente. Tampouco fomos suficientemente audaciosos para entendê-los plenamente em substância e matéria todo o tempo. Suas conexões nos são ainda muito turvas, embora existam.

Obviamente, para a compreensão dos sinais de sua existência sempre nos obrigamos a fazer indagações ônticas. A nossa cultura ainda guarda forte carga de mandonismo e patrimonialismo comportamental e, por conseguinte, um lento burocratismo alimentado por um declarado, velho e conhecido clientelismo em suas práticas sociais e econômicas.

Contudo, não podemos deixar de guardar espaço de observação para a surpreendente, novidadeira e quase sempre oculta história das mentalidades. Seja individual, ou mesmo habitante de seu imaginário coletivo, não podemos perder a visão da cultura como objeto fim. Sempre cumprindo um papel identitário, mas igualmente multifacetado, mutável e dinâmico, o nosso lado cultural se revela ainda um vitorioso e eficiente exemplo de empreendimento mimético lusófono na América Latina. Sabemos que a referida prática pseudolusitanista não tem um fim em si mesma. Além do mais, possui o permanente caráter de se irradiar e multiplicar em todos nós.

Mesmo que a observância científica se apresente presa a conhecidos e simples eixos temáticos de dualidades dialéticas, como: observador/observado, natureza/cultura, natural /artificial, vivo/morto, mente/matéria, subjetivo/objetivo, coletivo/individual, animado/inanimado, teremos que ficar sempre alertas. Ela é construída com base em projeções de práticas do exercício do volitivo sobre o fazer humano individual ou coletivo.

Sabemos que os estudos sobre a modernidade constituem o mais vasto legado da cultura ocidental que se reverbera pelo mundo ocidentalizado. Com claros reflexos identitários no Brasil Lusófono, envolve, ou pelo menos preocupa um continente de maioria hispanófona. Vivemos mergulhados em um universo de diferenças que precisam ser lidas com clareza, ou pelo menos, buscadas no movimento das relações que as conjugam.

Questões como o Estado de Direito; práticas de capitalismos e a tão decantada economia de mercado, envoltas num novo entendimento da razão no mundo científico moderno, vincula-nos definitivamente a uma ciência da nova razão, o que seria uma razão sensível, que nos parece surgir na pós-modernidade. Fazer funcionar tudo isso é, definitivamente, fundamental. Pois não haverá alternativas para o convívio se ficarmos apenas fustigando resistências que se explicam pelo localismo cultural. Não é prudente pretender tratar abertamente do fenômeno globalização sem ter claro que tudo voltará a ser questionado.

A única certeza é que a superação de velhas explicações que habitam nosso imaginário foi suficiente para elucidar a questão. Elas não nos tocaram devidamente. O velho rebento que somos do modelo oriundo do velho pacto colonial em nossa sociedade, refletido no até hoje atual Pacto das ElitesBibliografia, ainda permanece intacto no ethos de nossas sociedades americanas. O monopólio da colônia para a colônia permanece entre nós.

Já dura inclusive um longo tempo a espera por libertação dos velhos grilhões culturais que herdamos. Aqui, as elites - aristocracia territorial transferindo e contaminando a burguesia industrial - assimilaram de maneira até melancólica a prática de mimetizar tudo, do modelo e discurso à prática de controle e, inclusive, seus paradoxos. As várias faces do homem aqui sempre foram móveis de uma tipologia de ajuste social conhecido, teve a marca da república de estrangeiros que configuramos. Para entendermos melhor o desmoronar da velha visão de mundo construída aqui, basta verificar a existência dos recalques de colonizados que ainda apresentamos. Neles, dois pontos tornam-se relevantes: primeiro, a crença de que cabe a todos nós o esforço para compreensão no convívio cultural transnacional que nos impõe novidades, esbarra nos nossos localismos que agora se veem impositivamente obrigados a se globalizarem. Segundo, a necessidade de um novo viés que nos possibilite um urgente entendimento do nosso todo complexo, o qual ainda se não tem ferramentas capazes de decodificação.

Sem dúvida, uma nova racionalidade capaz de perceber a dinâmica existencial do mundo convulsionado que se vive é urgente. Fica muito difícil compreender como um mundo com poucos indicadores de direcionamento como o nosso tenha despertado aqui um desesperado grito de alerta como o da professora HezelBibliografia. Qual a melhor solução, ainda que emergencial, de nossos problemas mais preocupantes como exclusão social?

As relações meio-fim, orientadas por uma ação racional com respeito aos fins, passam, inexoravelmente, a constituir suporte racional de ação. Assim, ficam os mundos prático-moral e estético-expressivo e suas formas de ação relegadas ao plano da subjetividade. Fora do controle da velha racionalidade, típica da modernidade, a sociedade sofrerá algum tempo mais. Parece-nos ainda estarmos fadados a conviver sob o domínio de velhas novidades científicas. A dependência tecnológica, o sucateamento de nosso futuro e de nossas instituições de ensino e pesquisa definitivamente não pode acontecer. Tratar da questão da globalização com seriedade é, antes de tudo, impedir que nos derrotem e nos remetam para o mundo da barbárie.

Para a Empresa Capitalista e o Estado urge uma profunda revisão que começa pelo que se sedimentou mais no jogo do capitalismo entre nós. Entendendo-se que os modelos e mecanismos agora insuficientes que temos diante do novo somente serviram a inócuas tentativas de promover multiplicadamente a reprodução sem um objetivo e talvez até um objeto claro nos turvos sinais que se nos apresentam a modernidade. Alimentar verdadeiras "Fábricas de Desempregados"Bibliografia nas escolas, foi nossa prática.

Fomos braços mantenedores da ideologia de um poder cuja tipologia e mecânica de funcionamento encontram-se bastante superados. O perfil de nossa formação escolar não pode mais ser relegado ao desmazelo de tantos oportunistas e oportunismos políticos com seus miméticos seguidores, com projetos de políticas sempre contumazes e inoperantes.

O modelo de escola que temos serviu precariamente à sustentação de um poder que hoje luta para não se esfacelar exatamente por não ter lido com clareza o que se formava no social. Deixou escapar seu tempo e agora não tem mais forças para se manter. Sua produçãoBibliografia resume-se, em sua grande maioria, no mero esforço da velha reprodução. A forma de leitura de nossa estratificação social sucumbe e se rende ao que nos é enviado pelo novo que é marcado pela nova tecnologia, quase sempre urbana. Há muito que seu processo de (re) produção vem dando espaço a uma vida que podemos chamar de paralela, que nasce e se irradia a partir do moderno fenômeno da exclusão social. Sem perceber, esse novo modelo de sociedade se solidifica paulatinamente no assustador retrato da corporificação do que preferimos classificar de sociedade paralela: a ordem do diferente.

Sabemos que há necessidade de uma releitura imediata e urgente da relação Estado-sociedade. Definitivamente a sociedade, aqui, onde os movimentos sociais se multiplicam ameaçadoramente, é mais forte. Cabe ao Estado ouvi-la, percebê-la, entendê-la melhor em suas novas modalidades, mutabilidades, movimentos, comportamentos, modulações, desenhos e ações para que se possa filtrar melhor sua nova verdade.

A distinção entre potência e poder é necessária. Pois o poder, no nosso entendimento, representa toda a oportunidade de impor a própria vontade, todo o volitivo. Geralmente na intercomunicação de um novo e intrincado feixe de relações sociais, principalmente verificados na ótica intercultural, o poder concretiza vontades.

Sabemos, também, que ele sempre se mostrará contrário a qualquer forma de resistência, pouco importando onde a potência repouse. Essa é caracterizada por sinais de ordenamento, está presente no conceito de dominação, a qual consiste na probabilidade de uma ordem portadora de um determinado conteúdo específico, sendo seguida por um dado número de pessoas.

O poder legal, base fundamental de "Estados RegulacionistasBibliografia, estaria baseado na legitimidade com que determinado estatuto é colocado em vigor e submete sempre um conjunto de individualidades. O problema moderno é que não se consegue ainda desvencilhar das armadilhas que ele sempre preparou e prepara como, por exemplo, a viciosa inversão observacional de uma sociedade organizada pelo Estado e não o inverso.

Tal vício é garantido pela exacerbação da sua capacidade acumulada e escudada em força de lei e essa capacidade. Geralmente, essa força é usada como se fosse um instrumento de defesa dos mais beneficiados, privilegiados, ou seja, geralmente oriundos daqueles que construíram aqui o poder que preferimos ver como fruto de um Pacto das ElitesBibliografia. A capitalização de sua força configura no poder algo concreto que acaba geralmente capitalizando respeito pela prática de disseminar o medo. No Brasil, a história de punir é severa até com ela mesma! Ora, punir sempre seria, nesse particular, um melhor instrumento educativo?!

Pensadores como AdornoBibliografia e HorkheimerBibliografia procuraram questionar as amarras sociais que impediam o indivíduo de se tornar pleno. Fizeram exaustivas críticas ao pensamento do século XIX, particularmente ao evolucionismo. Disseram que aumentava a divisão social do trabalho e postulava a estandardização da cultura e dos hábitos, ou seja, provocava a inseparabilidade da apropriação da natureza e da subjugação do homem. Afirmavam eles que a técnica que tinha como fim tornar o mundo acessível através do domínio da natureza, mercadejar o homem, usar o humano como mercadoria de um hediondo comércio. A técnica operária, na concepção deles, não passaria de um instrumento de dominação do capitalismo.

Contudo, cabe lembrar que estes dois pensadores pensaram em um mundo onde o homem estava no centro do seu fazer, ainda apenas sob a sombra do domínio da máquina. Não nos esqueçamos que as palavras dos dois carecem de certo cuidado quanto ao reducionismo e ao contexto. Já se fazia sentir na humanidade os efeitos do explosivo fenômeno que representava o manomecanicismo da 2ª Revolução Industrial no fim do século XIX. O início do século XX presenciaria efeitos muito mais catastróficos e devastadores para a humanidade, em todos os campos de atuação do fazer humano, marcado pelo fenômeno da estagflação.

O perigo de vivenciarmos as já conhecidas crises da previsibilidade e calcularidade no século XX fervilha as mentes inquietas de muitos intelectuais. O comprometimento com a seriedade da produção acadêmica de qualidade é condição sine qua non para reconhecimento público e respeitabilidade.

A necessária e audaciosa investida na construção de um saber pautado pela razão indolenteBibliografia, impregnava os anseios de muitos, ávidos de novos sabores no campo do conhecimento. Impassível aqui, grande parte da nossa intelectualidade ainda permanecia presa a velhos conceitos e velhos maneirismos de ação e pensamento. Até meados dos anos cinquenta, a razão do século das luzes, modulada no ocidente europeu, contribuiu bravamente para a dominação eficiente de um tipo de homem, assim como de um saber humano. Embora tudo sempre marcado por uma relação extremamente clara, porém raramente eficaz entre a sociedade e o Estado, pairava-nos dúvidas. Cegos, talvez nosso erro maior fora acreditar que tudo mudaria quando fosse atingido o propósito final das ações políticas em nosso país: a transformação dos controladores.

Não se pode negar que esse processo contribuiu, a sua maneira, para um acréscimo de liberdade, desprovida de emancipação compatível. Nela o paradoxo entre o liberalismo e o liberismo era o que desmontava toda a arquitetônica engenharia de dominação, ao mesmo tempo em que, sem que percebêssemos, nos ludibriava. Ainda bem que um atrapalhou o outro. Também, não seria de estranhar, pois pertencem a campos diferentes de uma mesma coisa. A primeira ideia, o liberalismo, nos leva ao campo do indivíduo político e, dentre outras, lembra o cidadão. A segunda nos leva para o mercado. Lembra coisas como livre concorrência, livre-cambismo, desigualdade etc, etc salve-se quem puder. São absolutamente incompatíveis, definitivamente não dialogam! Convivem, mas, não se tocam, pois sai faísca e certamente alguém pode sair ferido. Aí o Pacto das Elites, responsável pela construção do poder, encontrou seu maior problema. Seu discurso ficou dual, paradoxal, emperrado, mecânico e repetitivo. Por isso mesmo, enfadonho e lento. Não convence a mais ninguém!

O fato de haver sempre uma forma de negar concessões nesse livre espaço fizeram as mutações do caráter individualista. Aqui, como de resto na maioria das partes do planeta, o tônus do desencontro se instalou. Não se atingiu e nem se detectou nada que alavancasse um novo viver em consonância com as mudanças que se enfrentava. Sofria-se muito por uma infame resistência que só nos atrasou. No Brasil, como em outros países com história semelhante, guardado as devidas proporções, dificilmente se permitiu liberar as energias criativas do homem, mas sim integrar o homem às necessidades materiais da sociedade do Pacto das Elites. Contudo, há de se fazer justiça a multiplicidade de faces que o globalismo local apresenta em relação ao localismo global ser assustadora. Seria pretensioso desejar tratar aqui do problema com a profundidade que ele merece. Apenas estamos dando ênfase ao quadro complexo que enfrentamos no universo das relações humanas em um mundo globalizado como o de hoje.

A arrogância da razão ocidental não sucumbiu simplesmente à crítica interna do conhecimento, mas foi severamente denunciada, demonstrando, como sabemos, problemas surgidos de uma ordem social e econômica acostumada a subjugar o homem sempre ao seu mais profundo e desumano pedaço de universo. A razão ocidental não cumpriu, e jamais seria capaz de cumprir, suas promessas devido aos condicionamentos e compromissos sociais existentes no interior do seu modelo de capitalismo. Sempre marcado pelo jogo do perdeu e ganhou, sempre relegando à miséria e à indigência absoluta (ou quase), suas vítimas. Levava sempre consigo tragédias sociais como a eliminação social, ou o total banimento do homem em sociedade, fazendo-o perder de vez a identidade.

Agora, pelo poder da infomotricidade, vivemos a plena e iminente perda do quoBibliografia (endereço) e nos encontramos diante do desafio de mergulharmos no "qua"Bibliografia (transito), com a possibilidade de nos aparelharmos com uma fantástica tecnologia e ainda pouco conhecida pela infotecnologia, vislumbramos a capacidade de chegar ao ubiBibliografia. Como não participar disso? Como concordar com o desconstrutivismoBibliografia, sem provar mais uma vez do prazer da busca pelo melhor? Adquirir definitivamente a capacidade de utilizar à prática da ubiquidade é o salto de qualidade que os nossos saberes necessitam imediata e urgentemente.

É impossível ficarmos parados, vencidos, imobilizados ao desafio que se nos apresenta o admirável mundo de possibilidades descortinadas. As prodigiosas e surpreendentes tecnologias devem ser dominadas por todos. Mas, seremos capazes de realizar tal tarefa? Será que nossas Universidades de Ideias estão preparadas para a plena realização da referida ferramenta? Será que ainda amargaremos, angustiosos, as velhas trilhas traçadas pelas envelhecidas Ideias de Universidade em tempos de pós-modernismos? Resta-nos esperar, superar, ou enfrentar e aprender a vencer os desafios postos? Sem sombra de dúvidas, a nossa escola precisa se sentir plenamente convidada a desempenhar a tarefa de liderar a mudança que hoje se impõe! Mas antes, devem desatar os grilhões que a acorrentam a velhos conceitos.

Fazer sua parte, auxiliada pela conjugação justiça/polícia no campo social, plenamente consciente de seu papel. Enfrentar o desafio de ajudar a promover a inclusão social. Modulado no papel da Escola por um mundo onde a velha arquitetura da individualidade padece aproximadamente há mais de um século de um lento processo de estertor, assistindo ao também lento desvanecer do ato de ter direito de sonhar um futuro, sempre no confronto com o inadiável exercício de construir uma sociedade plenamente diferencial e justa. Uma sociedade capaz de abrigar um crescente e complexo multiculturalismo e seus modernos direitos coletivos no meio urbano, o qual estranhamente se debate com várias faces de uma macrocefalia crônica. A sociedade brasileira urbanizada, mas complexa, se organizou à revelia do Estado, o qual nasceu sem o apoio da nação, que não havia, e, também, era muito difícil perceber, na época, um diálogo humano entre Estado-NaçãoBibliografia.

O Estado a tudo assistiu envolvido em um misto de impotência/incerteza e, na maioria das vezes, quando chamado a atuar, acabou por teatralizar em seus discursos e ações políticas, a exibição de um bailado Excelsior, sonhador. Incapacitado de sentir, ver, ou perceber sequer, que algo muito importante se movia ao seu lado. Algo que transformava tudo e todos de maneira ameaçadora.

A incompreensão dos novos dilemas sociais da humanidade e seus reflexos, principalmente nos gigantescos espaços urbanos, foi e é, até hoje, o desafio de historiógrafos sociais contemporâneos, tanto quanto dos cientistas sociais em geral. A própria ideia de sociedade onde se assentou o Estado exige novas abordagens, leituras e conceituações mais audaciosas.

É comum perceber, no cotidiano popular, frases violentas que não condizem com o momento que vive. Muitos empresários, políticos, dentre outros, insistem em reproduzir mimeticamente a velha herança do patriarcalismo que nos definiu. O passado de mercadização sócioeconômica do ser humano (africano) no Brasil, na construção de uma sociedade que vulgarizava a referida raça, sua prática social e forma de vida, inclusive seu universo cultural, ainda pode ser observado como a forma mais presente do que caracterizou um bando de encurralados, imóveis, aos olhos de pesquisadoresBibliografia.

Assim, sob o manto do patriarcalismo, do mandonismo, da apropriação do que é público, acompanhado da péssima definição do privado no coletivo da população, encontramos pérolas como a frase citada do Dr. Roberto Marinho aos setores militares de 1964: "nos meus comunistas ninguém mexe". O infeliz paradoxo roubou-lhe a cena, pois o autor esquecia o quão desencontrado era sua frase! O perfil de empresário estava absolutamente dissonante do pensamento comunista, o qual nega exatamente a propriedade privada. Caberia então a pergunta que nos parece óbvia: quem teria se apropriado de quem? Quem poderia se municiar para tal soberania e comportamento de posse? Quais seriam as razões que sustentariam tal exposição pública de poder? A frase ilustra bem a bi-duplicidade de poder nos campos de relacionamento entre Intelectualidade/Cultura e Ciência/Sociedade.

Por um lado, provavelmente não conseguimos vislumbrar ainda uma produção científica desatrelada do pensamento elitista, ou elitizante. Por outro, vemos uma academia que não consegue velocidade e produção suficientes para se desprender das garras daqueles que, corporativamente ou não, a controlam e até, em alguns explícitos momentos de nervosismos circunstanciais, declaram-se sem medo do futuro, achando-se tomados de atitudes paternais o exercício de sua real propriedade.

Sorry, parodiando aqui um hábito de falar do antigo professor de nome Ciro Flamarion Cardoso, realmente não se pode esperar muito de um país recordista mundial em escravidão após Cristo. Não se pode esperar muito mais do que isso de um país que construiu um Estado (Estado-Nação) sem povo, no primeiro reinado. Um país que da Abdicação ao Segundo Reinado do período imperial e daí até o início dos anos trinta do século XXBibliografia, via o povo como aquele que incomodava. Enfim, não se pode esperar muito de um país que entre 1930/1945 tratou o povo sob o manto do paternalismo Getulista como se fossemos crianças que precisavam de babás.

Após o citado período de 30/45, o até então imaginado Estado Nacional Brasileiro do Pacto das Elites começou a experimentar doses de participação política tímidas de ínfimas parcelas do que podemos chamar de povo, ou seja, uma amostra do público no (indevido) privado. Alguns avanços conseguidos nessa época foram logo esquecidos. Logo após 1964, deu-se a inauguração da política de construção da fábrica de excluídos sociais. Tanto pelo intencionalmente despercebido descompasso entre tecnologia e mão-de-obra, quanto pela defasada academia, envolvida que estava em uma briga doméstica por guetos de poder político nas universidades. Ela se esquecia do papel fundamental a desempenhar o avanço na produção de saberes, principalmente na área de leitura das práticas educativas. O chicote apenas mudava de mãos?! O tão sonhado Estado-Nação também não se propunha operar as reais mudanças capazes de desenhar um rumo promissor para um futuro diálogo com a imaginada nação. Pasmem todos, éramos contemplativos?! Como ser a tão sonhada nação que ainda não se configurara definitivamente? Era clara a falta do exercício da cidadania para muitos. O Brazil ainda não conhecia o Brasil! Nos estertores da (R) evolução, o Ministro Délio Jardim dizia que ela havia errado por ter perseguido homens pensando perseguir ideias.

Enfim, entre o fim do período da Revolução de 1964 até o Governo Fernando Henrique Cardoso, a sensação é de que adormecemos para os avanços externos, apesar de tantas lutas e esforços. E, talvez, continuemos. Surpreendentemente poucas vozes se indignaram o suficiente para mudar o rumo dessa história. As que o fizeram, expressaram o anseio de uma classe média que, vez por outra, vendo seu poder de consumo ameaçado, levantava pela boca de seus filhos um brado de indignação e parecia se opor àquela leitura conformista. Mas, embora crítica, não sabia 'descer do salto', faltava-lhe lastro. Os estertores do século XX foram marcados por expressões de melancolia, como a década perdida, ... não me deixem só!..., para lembrar palavras do breve Presidente Collor de Mello.

Nos anos, 90, em que pese o neoliberalismo defendido pelo governo Fernando Henrique Cardoso, tardiamente, a academia despertou para a ameaça de um rotundo e verdadeiro caos. Nossas indústrias e escolas, em esmagadora maioria praticamente sucateadas, mostraram-se incapazes de enfrentar o desafio que nos oferecia a infotecnologia, infomotricidade e a difícil descrição do que se desenhou aos olhos espantados de quem enxergava agora um infobjeto imbricado no mundo da ubiquidade. Começamos a acelerar crescimentos desconexos, que aumentaram nosso desastre. Investimentos, afetamentos, academicismos, reducionismos e, por fim, a banalização da produção e formação acadêmica, foram os resultados visíveis. No exterior, o mundo girava e avançava sempre sob o signo da velocidade. Corria-se o risco de sermos relegados ao esquecimento.

Na ânsia de superar nossas defasagens, criávamos dispositivos de consequências imprevisíveis. Tudo para não permanecer mergulhados no que se denominou de fábrica de desempregados. E o Estado, capturado, não conseguiu o pleno e tão sonhado diálogo com a nação, ou seja, quem está, ou chega lá, ainda não sabe descer do salto. Antes de tudo, necessitamos de novas leituras sociais, históricas, antropológicas, sociológicas, econômicas, administrativas, dentre outras, que garantam novos rumos. Leituras que tenham como eixo central o nosso lado humano. E, no caso do relacionamento entre Intelectualidade/Cultura e Ciência/Sociedade, a urgência das demandas sociais grita para ser ouvida. Definitivamente, ou somos, ou temos muitos autistas nos comandando, ou ainda não foi percebido que o problema não se reduz apenas a questões meramente econômicas, como o tão decantado primeiro emprego. Precisamos de muito mais, em que pese a dor de uma vida no ostracismo! Dentre outros, de uma eficiente Escola Protocidadã, inclusiva, que recupere para a vida moderna os excluídos sociais, os esquecidos nos EscombrosBibliografia de nossa sociedade, que reverberam seus ecos à surdina e, ainda inaudíveis, habitam o nosso esquecimento.

3 - Quando o cachorro ainda balançava o rabo criando nossa lusofonia:

 "a emergente internacionalização da economia ultramarina (séc. XV ao XXI)".

O mundo que o Português criou, emergente internacionalização, levou a uma economia que caminha para a superação total das práticas mercantilistas e representa hoje um fenômeno que não se pode desprezar. A multiplicação de seu modelo na diversidade de modulações lusófonas, garante-nos presença singular no mundo moderno, apesar da trágica história de escravismo.

Atualmente, em franca expansão nos quatro cantos do planeta, a lusofonia se manifesta insinuante, como algo que intriga e desafia qualquer olhar mais audacioso. O conjunto que formamos é digno de atenção no cenário mundial moderno. Em alguns pontos, chega a se apresentar enigmático e desafiador.

Aqui na América Latina representamos um gigantesco problema, se não agora, certamente no futuro, que envolve convivência em seus dois aspectos centrais: o interpovos e o intrapovos. Somos o único país lusófono em um mundo praticamente hispanófono. Não significamos apenas mais um a conflitar hábitos e modus vivendis. Significamos um real conflito de ideias e de ethos ainda adormecido. O diferencial marcante dessa nova teia de relacionamentos é a territorialidade. O desenho a se traçar aqui ainda está por fazer em todos os campos, principalmente o cultural.

Considerando a necessária e urgente aplicação de uma ação que promova a chamada interculturalidade, podemos constatar que se vive hoje em um universo das pseudolatinidades ocultas sob o manto do confronto maior entre as culturas hispanófona e lusófona. O transplante cultural começa a apresentar rejeição pelo corpo onde foi plotado. Há urgência em se descobrir as conexões ocultas ou mesmo os vasos comunicantes, e até mesmo intercomunicantes que demarcam nossas interações.

Qual o tamanho territorial da lusofonia brasileira na América Latina, naquilo que tange a sua ação e espectro no continente? Qual o tamanho territorial da lusofonia efetivamente em ação, prática e movimento entre nós? Até que ponto se pode demarcar e demonstrar o mundo que o português criou na América Latina? Será possível hoje demonstrá-lo? Como conjugar nossas diferenças latino-americanas na busca solidária de uma convivência global, visto que nos encontramos diante de um quadro social diverso e multicultural? A democracia é o caminho melhor! Como realizá-la? Certamente o localismo global ainda é muito forte em nossa natureza sociocultural de colonizado. Por isso, e ainda por questão de prudência científica, poderíamos perguntar: Quais são as tipologias de problemas que enfrentaríamos, se mexêssemos com esse tema? Certamente a solução, ainda que preliminar, desses problemas poderia facilitar essa audaciosa caminhada que o presente artigo pretende iniciar.

O interesse externo expressado pelos portugueses ao chegar aqui ainda é mimetizado pela nossa sociedade, em sua maioriaBibliografia, pelo desdobramento de nossos comportamentos. Até agora nos encontramos impregnados da influência do olhar eurocêntrico. Quando a questão é de fórum interno, relacionando-se com desenvolvimento de nosso sentido de nação, a discussão pública exige ser mais aberta. Achando-se donos do poder, muitos dos que nos lideram, nunca se apresentam como parceiros na luta por soluções concretas. Coparticipes da árdua tarefa de (re) construção fecunda de um Estado representativo, não conseguem atingir o tão esperado diálogo Estado/Nação, pensado desde a passagem do século XVII/XVIII.

A mímica da exploração ainda exige muita atenção no Brasil pós-moderno. Sua persistência nos mantém em permanente alerta. Movido pela necessidade de expandir os horizontes de trocas em longas distâncias, os portugueses, valendo-se da expansão ultramarina europeia, promoveram, pelos Oceanos Índico e Atlântico e, principalmente em direção ao hemisfério Sul do planeta, uma verdadeira semeadura cultural. Ela agora cresceu e seu pleno entendimento desafia inclusive a todos no mundo lusófono. Obviamente, são os mais importantes rebentos de sua ação que abordamos como desafios latentes da moderna globalização. A Europa se expandiu e não mediu esforços para desenvolver seu poder. No século VIII em Hamwic, Southampton - Grã Bretanha, encontraram vestígios de ferro, bronze, mós, vidros e cerâmicas, moedas originárias da França, Escandinávia e Alemanha, ou Antuérpia. Nestes grandes centros, durante o século XV, o comércio de pedras preciosas também era grande. Visto hoje, tudo nos parece simples, mas representam enigmas. Quantas culturas nos formaram até aqui? Que tipo de tempero temos?

Não se pode desprezar nada, pois, se no século XV já se podia presumir a existência de uma pujante economia mundial, as trocas comerciais que envolviam vários povos e nações do globo nos atingiram. O tão decantado jogo centro-periferia nas atividades comerciais já se desenhava claramente. Contudo, quantas vezes se repetiram... Elas indicavam sempre os lugares onde o comércio era mais lucrativo. Mercantilizar era a maneira mais fácil de mobilizar coisas e pessoas.

A emergência de uma economia internacional pré-moderna, então, só se dá com a descoberta e exploração das minas de ouro e prata do Novo Mundo? É o que sabemos? Não nos esqueçamos que outros estados e sociedades já conviviam aqui. Porém, tudo se deu no século XV, como se nada houvesse antes, sempre associando à integração da Índia e de áreas do Sudoeste Asiático às economias europeias, pela prática de preços mundiais e mundializados. Através do ouro a Europa estabelecia sua liderança no novo território mundial. O ouro, o principal mensurador de valor padrão, definia comportamentos fazendo com que se desprezassem culturas. Garantia padrão de preços, circulação, acumulação e entesouramento de riquezas. Sua presença desempenha perfeitamente o comando objetivo das economias envolvidas na época. Os mercantilistas pensavam no ouro como o objetivo final das atividades econômicas internacionais, única fonte geradora de riqueza. Assim, o despontar lusitano garantiu o esplendor; a força de um país que praticava o que podemos denominar semeaduras culturais, mesmo que não tivesse consciência de seus atos. Eram os grandes comerciantes, desbravadores, aglutinadores de forças, enfim, eram as forças modernas da expansão europeia no mundo.

A expansão europeia iniciada no século XV/XVI, animada pelo desejo de enriquecimento e associada à curiosidade e espírito de aventura embalava sonhos. A inspiração na propagação da fé cristã servia como retroalimento paralelo. Foi, portanto, um movimento que abriu uma nova era para as sociedades humanas. Permitiu a intensificação do intercâmbio de produtos e possibilitou o surgimento de várias modulações culturais de relacionamentos sócioeconômicos interpovos.

Certamente Portugal, protagonista do moderno, pela importância que tinha no desdobramento de todo o processo expansionista, não mensurava a dimensão da mudança que agenciava. Independente de ter sido pelo seu pioneirismo que se descortinou uma nova era, fica claro que construiu um o grave mundo da complexidade, pela mistura que provocou.

Motivos econômicos (acumulação) e motivos religiosos (cristianização) sempre estiveram juntos, inseparáveis como irmãos siameses. Era uma empreitada grandiosa de interesses político-econômicos que não valorizava outra coisa senão o intradiálogo europeu. Era o movimento do formigueiro em direção ao tamanduá, num diálogo dos símbolos inaudíveis, enquanto se dava o diálogo concreto e visível das formigasBibliografia. O ato colonizador pode ser pensado também como uma necessidade histórica interna dos protagonistas, mas, parte da estratégia de consolidação do Estado Nacional Português no cenário mundial, foi à superestima movida pela ação de controle sobre os dominados. A ideia de descoberta, intencional ou não, pode apenas ter servido para o vício do entorpecimento da plateia. Resta saber se ela acabou totalmente entorpecida.

A Carta de Pero Vaz de Caminha nos dá um testemunho de como a classe dominante estava consciente da materialidade europeistica dos valores que ganhariam com a propriedade dos fins últimos da expansão. Podemos perceber no trecho abaixo, extraído da Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500:

Águas são muitas; infindas, e em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.

Porém o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

Independente do fato dos portugueses da época estarem convictos que uma riqueza estava oculta na nova terra descoberta, sabiam que se constituiria num imenso desafio às elites governantes do seu país descobri-las e delas se apropriar. Contudo, observavam sempre as benesses materiais que as mesmas haviam representado para a Espanha, o México, o Peru e a Bolívia. Enfim, o controle administrativo aqui tinha que ser muito eficiente, possivelmente até, mimetizando ao do vizinho.

Para os portugueses, encontrar ouro era atingir o êxito dos espanhóis. Representaria não só riqueza, mas, também, prestígio internacional completo no velho continente. Era o regozijo absoluto no formigueiroBibliografia. Apesar da convicção sobre as valiosas riquezas, a primeira notícia oficial sobre a existência do metal precioso no território brasileiro dada por Dom Pero FernandesBibliografia foi desanimadora. Mas a certeza da existência de ouro fez mudar rapidamente a forma institucional de administrar a nova área conquistada e colonizada.

Toda a estratégia de colonização foi pensada e arquitetada de maneira diferente, buscando mais eficiência, controle. O Sistema das Capitanias Hereditárias foi implantado com mais rigor. Movida pela modalidade de relacionar território descoberto conjugado à ideia de exploração segura contra outros agenciadores do processo de expansão internacional definiram o comportamento lusitano.

Construiu-se aqui um povoamento abraçado por um cenário onde havia maior disponibilidade de capital e trabalho. Valia tudo! Até mesmo a quebra do Monopólio Estatal da exploração com capitais privados. Não se respeitou em nada à ordem dos Estados tribais pré-lusitanos, que tiveram sua história cultural arrasada.

As tribos indígenas foram expulsas, empurradas para o interior na proporção do aumento da presença dos europeus no continente. A violência estabelecida não tem ainda condição de ser mensurada, mas podemos imaginar o estrago que fez. Forçaram uma constante recombinação de hábitos, criação de outros, adaptação e readaptação aos que já aqui viviam. Os nativos e suas organizações sociais foram as maiores vítimas desse processo. A lembrança de que a invasão não terminou não pode desaparecer. Ela continua pelos que representam o resultado da mistura que construiu o que amamos e chamamos de Brasil.

A primeira capitania, Capitania de Pernambuco, foi doada a Duarte Coelho Pereira em 10/03/1534. Dom João III expunha suas intenções de povoar e tornar a região uma área segura:

... mandei dar a algumas pessoas que requeriam capitanias cinquenta léguas a cada uma; e segundo se requerem parece que se dará a maior parte da costa, e todas fazem obrigação de levarem gente e navios à sua custa em tempo certo...Bibliografia

A intenção de construir segurança gerou um forte empenho em alertar os colonizadores para deveres econômicos e religiosos. As normas para o Comércio tanto estimulavam a liberalização de trocas pela iniciativa privada quanto estabeleciam o rigor de reforçar o Monopólio Real sobre Comércio.

Os escritos de João de Barros e as cartas de Luis de Góis6 também documentam o citado quadro. Os escritos de Padre Manuel da Nóbrega e do Padre José de Anchieta e todos os padres da Companhia de Jesus, considerada como verdadeira escola de arte, indústria e comércio são repletos de informações desse tipo. Juntos, Igreja, Burguesia e Estado, por meio das ações independentes e autônomas das Missões, obra religiosa; das Entradas, empreendimentos privados e das Bandeiras, espécies de estatais, que buscaram a salvação de almas para Deus e o Eldorado para os homens.

Guardando-se as devidas proporções, podemos afirmar que era bastante engenhoso o processo de construção da colorização no Brasil, para época. A simples notícia do ouro brasileiro trouxe a sombra de conflito de nível internacional. Acentuou as rivalidades e disputas entre Portugal e Espanha envolvendo a Holanda.

Embora concentrando a maioria de nossas atenções no continente americano, faz-se relevante aludir ao importante papel desempenhado pelos colonizadores que impulsionaram a difícil tarefa da passagem de uma economia primária no mundo para uma economia internacional integrada e complexa. Apontando e tornando mais claros os sinais do que chamamos hoje de uma globalização econômica planetária, apesar das variadas modulações de conflitos que vivenciamos até os nossos dias.

No Brasil, o patrimonialismo, oriundo do caráter educativo que mimetizamos e perpetuamos na prática do poder por vários anos de nossa história, representou a sombra sinalizadora da uma longa existência de submissão do nosso povo.

Ela ainda paira sobre nós como um grande peso. Sobre nossas cabeças, durante trinta anos, vivemos o fim da fase estatal desenvolvimentista, seguido por um período muito claro de crise, à qual, se acredita, conseguiu superar essa submissão. O início dos anos oitenta (80) do século passado foi responsável por uma crise internacional de reacomodação dos sistemas políticos de Governo. O Brasil finalizava um ensaio de estruturação industrial e se inseria praticamente em um quadro de liderança na América Latina nunca vivido antes. Era nova a experiência!

No final dos anos 90, apontávamos para caminhos traçados por uma agenda política que indicava como ação positiva o desenvolvimento sustentável. O sonho de autonomia era ensaiado, porém pouco provável de se realizar, pois as nossas diferenças eram muitas e exigiam, antes de tudo, solução de paz. Além do mais, novos desafios surgiam. Para a América Latina, um dos desafios no plano continental era saber que rumos iriam tomar na formação de uma aliança estratégica que configurasse definitivamente caminhos seguros para um relacionamento internacional estável.

Sem dúvida, contudo, cabe lembrar que mesmo com todos os avanços até conquistados, ainda carecemos de solução para velhos problemas! Sanar a vasta e variada quantidade de não-cidadãos, que agora conscientes de sua situação, criam choques que fogem a nossa previsibilidade. Há ainda a imensa quantidade de capital que circula na informalidade, ou seja, fora dos olhares fiscalizadores do Estado constituído e que não são tributáveis. O poder que esse capital informal desenha hoje, além de desconhecido, imobiliza as ações mais enérgicas no sentido de aplicação de uma verdadeira política de inclusão social plena. Mesmo que seja pelo simples e às vezes enganoso  quadro apenas do econômico, porque remete apenas ao limitado ao mundo do trabalho, no meio circulante oficial de capital, daquilo que chamamos de economia formal de mercado, no conjunto do continente. Sabemos que inclusão social implica em muito mais. Existem outras barreiras a serem vencidas, como o preconceito social, a desigualdade, etc, etc. Somente para citar alguns, a esmagadora quantidade de ambulantes não registrados em nossos centros urbanos é calamitosa. Como vivem? Como se organizam? Como se configuram no espaço geográfico em que se movimentam? São partícipes de um mundo violento ou se trata de mais uma pérola de nosso preconceituoso ethos. Como é seu mundo sociocultural de relacionamentos? São perguntas que incomodam a sociedade oficial, dita da ordem. Configuram um corpo sociocultural independente?

Na América, o Estado ainda é uma construção que necessita passar pela capitalização de forças para agir e se impor com mais presença. Sabemos que a democracia aqui, por conta disso, acaba dificultada, geralmente esgotada em discursos vazios e sem substância. Nossa história recente se apresenta como uma mimetização precária dos resquícios de um velho e modelar reflexo do pacto colonial do Pacto das Elites, que nos educou e submeteu.

Entre aqueles que promovem a economia informal, a lei do Império substitui o Império da lei. Ao contrário do que se fala, arquiteta-se e se fortalece de maneira aparentemente inexorável os alicerces do subjacente e anterior, monopólio da colônia para a colônia. A população que herdou o poder do pacto das elites, tocada por vícios de um longevo e sólido processo de aristocratização da produção da vida, europeízam-se cada vez mais no sonho de se globalizar. Buscam reproduzir velhos jogos de monopólio, que se constituem em verdadeiros e imbricados comandos de freios e acelerações às necessárias conquistas sociais, como a cidadania. Tudo acontece ao bel prazer de quem se apossa do poder "... sem culpa nenhuma..." como diz a poesia de Rita Lee. O patrimonialismo, nossa mancha histórica, garantia triste existência até 1888; com o fim da escravidão, parece, se tornou uma sombra assustadora que nos emperra os movimentos em direção à democracia.

Hoje, os que já apontam para o fim da era da informação, preparando-nos para a próxima Revolução Industrial com o advento da nanotecnologia, apresentam o Brasil ao mundo como a sociedade que possivelmente servirá de modelo para solucionar o impasse que vive o complexo desafio da Globalização. Somos apresentados ao mundo como aqueles que liderarão a nova etapa vivenciada pelo mundo moderno conhecida como "Era da Luz"Bibliografia. Pasmem todos, com todas as nossas complexas e intrincadas demandas sócioeconômicas e políticas, somos apresentados ao mundo como os que liderarão a nova era. Um novo mundo das luzes? Tal atitude suscita-nos algumas indagações: como podemos ser exemplo se o nosso multiculturalismo tem como habitante a grandiosa mancha da exclusão socialBibliografia e que, segundo Viviane Forreste, pode ser lida como eliminação socialBibliografia?

Ainda somos o país do medo, marcado por uma prática lusófona diferenciada,  cujo deciframento é visto por muitos como desafiador. Hoje essa prática se apresenta complexa e desempenha um papel que ameaça liderar o mundo que o português criou. Sua presença é forte nos quatro cantos do planeta onde se manifesta a lusófonia. Aqui, incrustado em um continente hispanófono, não menos diferente e desafiador em sua composição histórica e com claros e múltiplos pontos de trágico passado, o Brasil parece se sentir envolto em forte camisa de força. O diálogo com nossos vizinhos nem sempre foi marcado por cortesia.

Contudo, tem sido grande o esforço na busca de condições estruturais que permitam chegar à democracia plena que tanto desejamos. Os anos noventa trouxeram com mais clareza o fato de ser absolutamente necessário um conjunto de reformas que eliminassem, na estrutura da sociedade brasileira, os vícios de sua formação original marcada pelo patrimonialismo, clientelismo, o corporativismo, dentre outros. Necessário seria, ao mesmo tempo, atacar primeiro as ilhas de vícios enraizados profundamente em nosso conjunto de hábitos.

Essas marcas fortes da formação histórico-cultural e estrutural brasileira se espelham nas afro-descendências e luso-descendências, que são multifacetadas. Temos mostrado independência e autonomia quando assumimos a responsabilidade pelo presente. Em termos econômicos, é louvável dizer que nossa batalha tem sido incansável para estabelecer um controle eficiente de fenômenos devastadores como a inflação, por exemplo.

O nosso país passava de rei da concentração de patrimônios, de renda pessimamente distribuída, de parcas oportunidades de trabalho, de saberes incompletos e de serviços públicos precários a conviver com o dilema da coresponsabilidade pela catástrofe que escreveu tristes páginas de nossa trajetória histórica. Sempre tivemos uma preocupação com a construção de programas de combate à assombrosa hiperinflação. Certamente, os velhos donos do poder advindo do Pacto das ElitesBibliografia sofreram as consequências disso e, ainda hoje, sofrem.

Contudo, deve-se ter claro o fato de que nunca ficamos calados e encolhidos. Claro que não se pode deixar levar pela ilusão que embala quimeras. Não é sem propósito que cresce aqui a crise do emprego, da empregabilidade e da fome. Elas apresentam seus sinais principalmente em cidades com urbanização avançada e complexa como o eixo Rio-São Paulo.

Também não é sem propósito o crescimento da violência que atinge o coração administrativo, combalido, cuja lentidão é conhecida há muito tempo e que, em alguns setores, engessa as ilhas de interesses. Certamente, lá se escondem alguns hiatos irrationalis que precisam de decodificação. Ocultos igualmente em ilhas de poder, escondem-se sinais de uma já defendida sociedade paralela, que se apresenta com atitudes de violência, algumas camufladas, outras explícitas, em movimentos reivindicatórios legais e pseudolegais. Carecemos demarcar, novamente, os territórios e as territorialidades.

O caso dos sindicatos dos transportes coletivos e as últimas manifestações populares de São Paulo e Rio de Janeiro (2006/7) podem ser a ponta de um imenso iceberg que esclarece o quadro que vivenciamos no cotidiano de nossas urbanidades. A reprodução do ethos renovado do monopólio da colônia para a colônia, simbolizados por uma mimetização cultural, realmente impregna nossa prática de vida. Será que com modulações novas e variadas ainda podemos acalentar o sonho, como dizia o compositor João Nogueira: "... de fazer canções como as que fez meu pai..."?

Sorry, mas entramos no novo milênio com seis bilhões de almas aproximadamente no planeta. Delas, aproximadamente 70%, foram consideradas analfabetas, entre funcionais ou não-funcionais. Dentro dos citados percentuais, cinquenta por cento (50%), também aproximadamente, estão mal nutridas. O mundo dos humanos, na virada do milênio, passou a ser abordado com seguinte divisão: Mundo da civilização e Mundo da Barbárie. Radicalmente definido por uns modelos maniqueístas, inflexíveis. Definitivamente, mergulhamos em um total desencanto no que concerne ao modelo capitalista liberal clássico, regulado pela prática do liberismo no liberalismo. A Europa apresentou-se totalmente desencantada no início do novo milênioBibliografia. A melhor definição foi de uma Europa Desencantada, como afirmava o professor da Universidade de Coimbra Eduardo Lourenço, ao apresentar o quadro de amarguras por que passava o velho continente. 

Desde 1984 acontece uma sequência de estimulantes eventos políticos e econômicos. Nos anos 90, houve uma aparente reorganização do sistema de governo mundial. Desenhava-se com mais clareza preocupações em responder de que maneira financiar os direitos fundamentais básicos. Mudava-se a relação internacional como fruto da globalização.

No Brasil, começava-se a dar os primeiros passos para alcançar uma agenda política mais positiva. Mas não podemos esquecer que ainda hoje se questiona como promover um desenvolvimento sustentável mantendo, por exemplo, entre outros, a negociação ampla das dívidas.

Esses desafios, alguns já conquistados e outros ainda carecendo passar por audacioso e radical aprofundamento, permitem arremessar para o debate acadêmico a discussão de uma agenda política, positiva, para desenvolvimento sustentável. Tal fato implica sinalizar para as reformas estruturais, tão cantadas em prosa e verso. Desenvolvimento sustentável implica primordialmente saber como financiar e completar a integração continental.

O limite para que o desenvolvimento seja sustentável é fazer um mercado maior, preferencialmente o latino-americano, considerando-se, primeiramente, o Cone Sul. O segundo limite é fazer uma planta de infraestrutura que permita competir dentro desse continente. O terceiro é o fortalecimento da democracia, com exercícios que vão se construir dentro de cada município.

Em todo o fenômeno da MimésisBibliografia, atitude de repetição, cópia, reprodução, é fundamentalmente seguido por todos. Porém deve ser centrado na melhoria material e educacional, garantindo uma convivência aberta e respeitosa entre os participantes. 

Outro, igualmente fundamental, seria a poiesis, ou seja, atitude de criação do novo, sempre ligada à produçãoBibliografia. Uma outra forma de gnosiologia implica uma indagação do objeto, sendo efetivamente uma ontognosiologia, ou seja, o estudo crítico da realidade e de sua compreensão conceitual, totalmente centrado na unidade integrante de seus elementos, que são suscetíveis de serem vistos como valor, norma e como fato, implicando perspectivas eminentemente éticas, lógicas ou histórico-culturais.

Em suma, precisamos de leituras diferenciadas, audaciosas, de nossa realidade conectiva, ou seja, não se pode permitir que uma nova teia de conexões ocultasBibliografia, demarque nosso espaço antes que saibamos como compreendê-lo em sua totalidade.

Hoje, o paghusBibliografia perdeu totalmente o sentido face ao mundo cibernético que se abre aos nossos olhos. Não se pode mais prescindir da infomotricidade e sua excêntrica existência. Andando na velocidade que ludibria, desloca corpos que não conhecemos sem antes sabermos a razão ou ao menos nos certificarmos de seus intrincados e ocultos elos.

A infotecnologia permite-nos mergulhar no espaço do movimento mais do que nos desafia no mundo da academia, que seria o infobjeto, ou seja, algo é vivo, móvel, veloz, irradiador, dinâmico, contaminador e é capaz de provocar mudanças que só somos capazes de aperceber muito tempo depois que se deram. Nós é que estamos dominados pelo mundo das máquinas! A grande descoberta do Homem máquinaBibliografia nos revelou que hoje podemos e estamos sendo manipulados pela ciência. O quadro é aterrador!

O Brasil, mergulhado no universo da infocomplexidade, vê-se diante do paradoxo: impotência versus potêncialização. Resta apenas o espírito crítico de nossa academia. A Gnose passa a pertencer a um novo ethos, ou seja, um novo jeito de ser da emergente sociedade que construímos e que acena para o mundo acadêmico como o maior desafio de nossa Era. Ela é vítima e algoz da infocomplexidade, composta do infomotor, infotecnologia e geradora do infobjeto. Juntas apontam para uma nova conjugação científica onde aparecem como indispensáveis a robótica, a informática, a  nanotecnologia e a biogenética. Estas passam a ser, ao mesmo tempo, instrumentos de observação e reflexão da básica e precípua ferramenta geradora de ferramentas que facilitarão o novo saber em todos os campos: o criticismo.

Esquema

O Brasil é conhecido por sua imensa diversidade étnico-cultural, é o exemplo de convivência pacífica para o mundo moderno? É complexo, intrigante e desafiador em sua composição sociocultural, exercício de poder, capacidade acumulada de gerir e gerenciar seu próprio destino, mas, pouco acreditado, desconhecido em sua real potencialidade. Aqui existe uma capacidade concentrada de gerar força motora do desenvolvimento que certamente pode fazer inveja a qualquer outro olhar externo. Mesmo com o longo sucateamento de nossas universidades por um longo tempo, produzimos cientistas que surpreenderam o mundo. Porém, paradoxalmente, convivemos com o fracasso da miséria social, econômica, que insiste em alterar-nos a rota. 

A localização geográfica, bondade de uma natureza rica, deu ao Brasil climas opostos, paisagens diversas, transformando-nos em atrativo turístico gerador de recursos econômicos incomensuráveis. Mas o Brasil adquiriu tantas características estrangeiras, independente da aborígine, que traçou de maneira complexa e rica a nossa história cultural. Contudo, o observador mais atento deve respeitar nossas intradiferenças. São elas que nos fazem tão novidadeiros quanto complexos.

No sul, o predomínio de várias influências europeias, como a italiana, a alemã, a polonesa, a açoriana, vindos em busca de realização de sonhos impossíveis e outros a fórceps pelos negreiros, começou uma história de convivência mais intensa a partir do século XIX.

Os pampas e serras gaúchas predominaram características tropeiras, constituíram-se num rosto que afirma nossa diversidade. As bombachas, o lenço, a guaiaca, o chapéu, tirador, chimarrão e churrasco são elementos desse universo. São Paulo, como um torvelinho de influências, guarda um pouquinho de tudo. Metrópole, sofrendo os males da macrocefalia, agora não só absorve diferentes imigrantes, como também choques culturais difíceis de administrar.

Em São Paulo destacam-se comunidades japonesas e italianas, que garantem um toque também diferencial na população e, principalmente, nos seus hábitos. É um Brasil frio, congelado, sem tempo para nada, insensível, indiferente e aparentemente impenetrável para os novatos.

No Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, o carnaval, a bossa nova, exaltada como belezas, geralmente escondem velhos currais de alegria, às vezes com um toque forte, mas não percebido, de morbidez, onde a burguesia sempre parece brindar a existência da pobreza.

É uma cidade que cresceu esmagada pela montanha e o mar. Vive exaltando as belezas naturais que possui. Sua complexidade social está exatamente aí, concentrada no poder que tem de ser absolutamente contemplativa, doidivanas e carnavalesca. Quem aqui chega fica facilmente contaminado.

Até quando o Corcovado, o Pão de Açúcar e uma Garota de Ipanema poderão esconder suas contradições sociais? Até quando poderão sustentar a vergonha do volume assustador e ameaçador da combinação violação/violência que abriga em seu seio? Sua sociedade discute tudo, menos seus problemas com a seriedade que merecem! Ela não se sente responsável por nada do que vê  e nem do que viu.

Em Minas Gerais, uma cultura barroca de Ouro Preto e S. João Del Rey, presentes nas obras de Aleijadinho e demais artistas, internacionalmente conhecidos, esconde igualmente características peculiares. Minas é o mundo da desconfiança, abriga uma sociedade que talvez viva sob esse espectro  por ter sofrido o lado mais brutal da prática escravista. Lá tivemos uma escravidão violentíssima. Por conta do ouro, o Brasil mineiro foi traumatizado pela truculência de Portugal. A sua sociedade, igualmente, foi marcada por isso.

O Frevo e o Maracatu em Pernambuco, o forró da Paraíba e Ceará, Bahia, como característica afro-brasileira percebida no Candomblé, no Pelourinho, na capoeira, no axé dos trios elétricos, marcam uma agitação cultivada no nordeste do país, que também não pode se deixar fugir de um crivo mais apurado. Como o carnaval, dança-jogo-luta parece um ritual da alegria de resistência. Todas elas contêm histórias de sofrimento e dominação. Quando isso sai de cena, surge o Brasil do ...sim sinhô!.... E, mesmo assim, com o Pantanal mato-grossense e a Amazônia reunida, configuram uma das grandes áreas de diversidade de águas, animais e plantas, milhares ainda desconhecidas. Somos um país de mimetizações bem feitas com mimetizações distorcidas e, por isso mesmo, de difícil caracterização e identificação. Somos o país que vive a alegria da ignorância

4 -Mundialização das práticas de vida - lusofonia e suas Identidades múltiplas.

A cultura, nos tempos afora, tem sido o maior desafio da intelectualidade. Sua variação é imensa se privilegiarmos tanto o flanco de observação horizontal quanto o vertical. O mundo vive hoje a realidade desafiadora da localização global e da globalização local. São desafios que transcendem a percepção humana, exigindo uma aguçada percepção das novas conexões que se escondem nelas. Trata-se de uma variedade imensa de conexões extremas capazes de mudar o curso da vida no planeta. Claro está que o objetivo maior de toda a humanidade é a solidariedade! As dificuldades entre os blocos econômicos, entre os continentes etc, mostram-se como desafios intransponíveis ao primeiro contato. As divergências, devido às gigantescas diferenças sociais e culturais que o nosso mundo apresenta, pode conter a capacidade concentrada para nos transformar em carrascos de nosso mundo.

O mundo hoje, conhecido como multicultural, convive com desafios nunca imaginados pelos homens do mundo das certezas. A incapacidade de ler os ventos modernos para nós, brasileiros, foi fatal para o nosso crescimento. Tivemos várias etapas que comprometeram todo nosso processo de luta e construção identitária. Sabemos que na fase colonial o Brasil-Colônia se alicerçava sob o domínio de graves ditaduras.

O mundo assistia, enquanto vivíamos intensamente, o que se dividia em dois distintos lados: de um, os Jesuítas tentando implantar sua cultura nos índios que já habitavam aqui. De outro lado, os índios que já possuíam sua própria cultura e que tentavam manter suas tradições. No Império, uma grande massa da população seguia um ecletismo religioso, misturando o catolicismo às crenças indígenas e africanas. Os membros das elites eram católicos devido a uma tradição de ostentação de prestígio. As correntes filosóficas seguidas pela Igreja não tiveram muita importância nem alcance intelectual no Brasil. O resultado foi que formamos uma grande república de estrangeiros.

Na cultura republicana, o mimetismo tomou outra face. Finalmente começa a se libertar das influências culturais, principalmente europeias, mais ainda não se desenhou totalmente seu modelo brasileiro acabado. Nasceram no século XX uma arte e uma literatura mais identificada com coisas e o cotidiano nacional. Contudo, persistia, como persiste em alguns setores da nossa sociedade, a ideia de que o melhor sempre vem de fora.

Contudo, desde a fase colonial a cultura brasileira começara a sofrer algumas alterações, fruto do crescimento econômico da mineração, e social, com a influência cultural francesa, uma marca com ideias de maior apelo identitário nacional. Uma literatura mais nossa. Um novo impulso se dava e tudo acontecia devido ao fato do Brasil ter se transformado em sede/farsa do governo Português. Um reforma provida por D. João VI e a vinda ao Brasil da missão artística francesa influenciou-nos profunda e definitivamente. 

A influência da cultura portuguesa nos legou o culto aos mortos, os velórios com missas de defuntos acompanhados de uma choradeira geral, visitação aos cemitérios, os enterros com o acender de velas etc. Antigamente, nenhum dos mortos era trajado de preto.

Se compararmos Cuba e Brasil, as duas sociedades mais antigas na manutenção da repressão, do escravismo e do longo impasse abolicionista como base das práticas de vida social e política, tiveram no processo de independência deflagrada na América Espanhola o descortinar do estado de corrosão social vigente na época. Estruturando em grande parte a economia do antigo regime, as bases de dominação colonial de agroexportador/exportação perduraram aqui. A dependência do mercado externo e a exclusão social também continuaram fazendo muitas vítimas.

As camadas sociais, dos dois países, donas dos meios de produção, sentiram-se suficientemente confortáveis com a situação. A conjugação de forças dos movimentos republicano e abolicionista garantiu o estrondoso impacto que desestabilizou e vem corroendo as amarras que caracterizam uma sociedade reprimida e expurgada como a nossa.  

Trata-se aqui de um processo que ainda continua visível nas constantes lutas urbanas e rurais da sociedade. A luta pela cidadania plena, o recente fome zero etc., são provas de sua existência. O ranço do colonialismo permanece e adquire alterações muito favoráveis ao desenvolvimento de um conjunto de forças que estão a configurar um universo social paralelo que insistimos em não entender. O Brasil mantinha uma relação com sua metrópole sob a sombra do signo da exploração e as elites culturais viviam uma França aqui. A Inglaterra, em processo de influência decadente e elitista, acabava manipulando-nos em termos econômicos. Por isso, o relacionamento franco-brasileiro exerceu grande influência na nova visão cultural, com reflexos na justiça social. Visavam-se sempre direitos e participação do povo, incentivando uma revisão cultural, político-administrativa e social no Brasil e no mundo.

Em Cuba, a influência francesa também incentivava mudanças. Implantavam-se novas visões que ameaçavam a ordem vigente. Os abolicionistas, com seus movimentos libertários baseados na união de revoltosos, criaram bastante dificuldade à manutenção da cultura opressiva que nos educou até aqui.

Conceitos duvidosos, criados por intelectuais pouco familiarizados com a luta pela cidadania, nos dois países, contribuíram para o fortalecimento de relações retrógradas e conservadoras. A exploração e os atos desalmados constantemente estimularam interpretações religiosas que puseram em dúvida tais movimentos. A Igreja, com papel importante no processo que tratamos aqui, sempre teve dificuldades de lidar com a contradição de suas atitudes. A cultura que se vê crescer no Brasil nos faz crer que o desejo por um governo para o povo é cada vez maior.

A transformação definitiva da economia escravista nacional em assalariada, no que se refere ao perfil socioeconômico que apresentamos, escondeu uma variedade de relações de força que são capazes de sustentar o mandonismo praticado, quase sempre, cotidianamente. Em Cuba, senhores de escravos e toda a oligarquia estimulada a se abstrair de gestos de independência, tiveram história semelhante a nossa. A diferença é que somos de tamanho continental. Em Cuba vai-se de norte a sul em vinte quatro horas. Mesmo naquela época, as notícias chegavam com muito mais poder de explosão, por lá. 

Contudo, negociações de toda ordem mantiveram Cuba afastada das transformações políticas, econômicas e sociais que ocorriam no mundo. Em 1812, as autoridades políticas descobriram a trama de José Antônio Aponte para derrubar todo sistema sóciopolítico da colônia. Era um negro livre, de origens africanas, que havia sido oficial da milícia. A situação estratégica de Cuba e Porto Rico garantiram-lhes as preocupações constantes dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França.

Não é sem razão que o medo de sofrer uma revolução promovida pelos negros desestabilizaria a sociedade local. Mas, igualmente, não é um despropósito lembrar que no Brasil também houvesse tal temor. A culpa e a sua herança pairavam como uma sombra ameaçadora a todos que buscassem a continuação da maneira de instrumentalizar e mercadejar o homem escravo.

A produção das plantations do Brasil também progrediu no referido período. A figura importante na relação entre o governo real e a oligarquia brasileira local foi D. Rodrigo de Souza Coutinho, neto do Marquês de Pombal, que possuía ligações familiares fortes e propriedades no Brasil. Era um homem de transito fácil por ser desde 1796 Secretario Permanente de Ultramar, por nomeação de Dom João, príncipe regente. Adquiriu e sustentou muito prestígio e poder. O período era marcado por grande força comercial do Brasil, que reagiu vigorosamente à liberdade idealizada pelos portugueses. O açúcar, o algodão e o café marcaram o sustento da vida econômica ao longo do Império. Não se tinha muita menção à escravidão no Brasil nas reuniões da constituinte.

Apesar do grande número de abolicionistas, o escravismo colonial tinha raízes profundas, mas sempre ligadas aos conservadores. O fardo da escravidão dificultava o desenho definitivo do Império. Atrapalhava também a conquista imediata da estabilidade política. Vários problemas administrativos e dificuldades econômicas incumbiram-se de fortalecer segmentos divergentes. As discussões eram sempre emolduradas por uma dialética pró-lusitana, e antilusitana.

Os grandes proprietários de terras viviam em suas fazendas  governando escravos e agregados, sempre ao gosto e prazer próprios. A presença dos escravos era sempre justificada como necessária e de grande importância para baratear os custos da economia de exportação praticada no latifúndio.

É notório, nas análises modernas, afirmativas dessa linha de pensamento. Embora se apresentando opostos, alguns intelectuais contemporâneos afirmaram que à luz da economia não se poderia prescindir de trabalho mais barato.

Sem sombra de dúvidas, hão de convir todos que a tamanha frieza do cientificismo tornava extremamente pálido qualquer olhar sobre o rico universo sociocultural que se desenhava por aqui. Envolvida de maneira imbricada na nossa formação social, beneficiária da mais-valia absoluta desse tipo de relação de produção, o Brasil desenhava uma sociedade complexa e de difícil definição.

Ora, sabemos que olhar assim nossa realidade é impedir, ou no mínimo engessar, a menor tentativa de construção perceptiva de nossa sóciocultura. Olhar, inclusive,  que se formou no entorno dela, nem se poderia pensar. Quando muito, tal população sempre acabava tratada como resto, sobra, marginal, capital sobrante etc. A história oficial não admitia a vida da sociedade das sombras, não admitia sua existência, talvez pelo simples fato de negar a existência da ordem e sua dialética existencial, quase sempre muito pouco complexa.

Ela havia se desenvolvido no espaço da exclusão social e se corporificava velozmente como uma sociedade paralela, a qual denunciava muito mais do que a existência de um mero sistema econômico e suas sobras. Sempre ameaçava a ordem vigente, principalmente no urbano do Rio de JaneiroBibliografia.

Olhar com tamanha frieza uma sociedade sem perceber suas variantes opostas no universo das convivências, é expressar absoluta falta de sensibilidade e fineza no ato de afiar a percepção científica. O Brasil é e sempre foi complexo em sua composição social. Não há outra maneira de nos traduzir sem que se tenha presente a necessidade da inserção no campo de observação do todo complexo que configuramos.

Praticar uma ciência da pretensa isenção, da frieza cartesiana ante o objeto é, antes, negligenciar a alma e a dinâmica de nossa formação. Acaba por descomprometer sempre quem se empenha na tarefa de observar e escrever nossa história, fazendo-a ciência. Assim, a ciência produzida no descompromisso com o sentimento que habita o fato e que a sempre modelar visão mecânica impõe, exige prudências que geralmente não são percebidas. Em uma estranha relação de envolvimento/não-envolvido, bestializa quem a pratica; transforma-o em um mero espectador privilegiado, porém, frio, como quem saboreia com os olhos distantes o suceder de revelações que o objeto observado pode generosamente lhe ofertar. Acaba não sendo despertado para a necessidade de desenvolver outros sentidos e habilidades da crítica e/ou da criticidade.

Definitivamente não somos máquinas de produzir, traduzir, equacionar, ler e/ou construir ciência apenas. Tampouco aqueles que se propõem a praticá-la desse jeito saberiam observar, verificar e, enfim, traduzir emoções presentes também imbricadas nas relações humanas. Seria difícil reduzi-las todas a uma tradução vulgar, comum, mecânica e sempre instrumental e precária. Acreditamos caber aqui um alerta: não devemos esquecer que a simbologia da escravidão de um país como o nosso, recordista em duração após Cristo, ainda carece de tratamento mais compromissado com os destinos culturais finais de nosso povo.

Critério, meticulosidade nas abstrações e subjetividades das composições e leituras de nossa história, ou seja, a construção e/ou fabricação de nossa historiografia representa, antes de tudo, movimentos claros na direção que se deseja ao produzir o conhecimento. Mas jamais significará a certeza absoluta do que se nos revela a história do que observamos em qualquer tempo.

Os donos de plantations cubanos e brasileiros sempre enfrentaram as autoridades metropolitanas com uma margem considerável de vantagem, pois estas haviam se enfraquecido ao longo do tempo. Aliás, o próprio discurso entre eles se enfraquecera com o avanço do liberalismo burguês e, dentro deste o liberismo tão pouco falado em meio ao febril festejo da possibilidade de rompimento dos modelos coloniais. O modismo simplesmente mostrava-se suficiente capaz de cobrir suas várias faces.

No caso português, principalmente pela invasão napoleônica, fez desabrochar definitivamente um projeto antigo que as Cortes já acalentavam. A pressão napoleônica tornou mais fácil desmontar a estrutura do colonialismo e do absolutismo que sufocavam a agricultura comercial.

No caso cubano, a metrópole tinha grande necessidade da colônia e, no caso brasileiro, a colônia ficava maior que a metrópole. A Grã-Bretanha teve significativo papel na conformação do novo padrão de formas de Estados e de desenvolvimento socioeconômicos - em ambos, patrocinando sempre todos os movimentos locais. O reconhecimento de suas independências era sempre em troca de acordos comerciais vantajosos. Brasil e Cuba eram os seus melhores fregueses de manufaturas.

Os novos donos da terra estavam envolvidos com a realização de lucros através da venda de mercadorias agrícolas. Enquanto os donos de plantations de Cuba e do Brasil revelaram talento e vigor empresariais que faltavam aos proprietários relapsos das Índias Ocidentais Britânicas. A cada momento que se passava avançava progressivamente a explosão revolucionária que colocaria as tradicionais metrópoles à margem do controle.

O processo de independência das Américas Espanholas e Portuguesas, desgastadas com acontecimentos paralelos, republicanismo e abolicionismo, abrigaram em seu seio uma nova e preocupante complexidade social ao longo de sua construção Estado/sociedade: a formação de sociedades paralela ou corposBibliografia socioculturais autônomos.

Hoje em dia, o fenômeno toma vulto e ameaça a tranquilidade de nossas cidades. Marcadas pela macrocefalia, elas se tornam cada vez mais difíceis de administrar, controlar. Cuba e Brasil também não fogem desse estigma, principalmente, por terem trajetórias semelhantes.

No Brasil, o mercado consumidor cultural da elite era de matiz francês, daí a influência no que se refere à visão cultural adquirida. A política administrativa visava diretamente a participação do povo, o que dificilmente acontecia. O país, no campo interno e externo sofreu influências fortes para extinguir com a escravidão, para transformar a mão-de-obra em assalariada. Independente do fato de se enquadrar na clássica visão do interesse externo, que desejava mercado consumidor, e das elites necessitarem da presença do mercado externo para consumir luxo, ou seja, mimetizar o que vem de fora. Por muito tempo Cuba alegou a dependência econômica da mão-de-obra escrava. Os senhores de escravos eram os que mais resistiam ao fim da escravidão. A abolição aproximaria Cuba das transformações políticas, sociais e econômicas ocorridas no mundo.

A produção no Brasil progrediu e o comércio reagiu à liberdade recém-adquirida. Cuba preocupava principalmente os E.U.A., que tinha medo que a ilha caísse em mãos dos ingleses ou que sofresse uma revolução negra e mulata como decorrência. O processo de abolição de Cuba e Brasil foi difícil, mas atendeu a vários interesses externos. Cuba demorou mais a viver a nova realidade mundial, ou seja, a ser inserida no quadro de transformações internacionais. Ambos purgaram uma dura pena por serem os últimos a aceitar a abolição.

O estigma da lentidão, a insistente e repetitiva mecânica da máquina de escravizar foi suficiente para garantir nossa mistura e nossas múltiplas diferenças. Entre as sociedades complexas que a América Latina produziu e abrigou, certamente somos desafios consideráveis e nem um pouco desprezíveis.

O Bonde do MalBibliografia está imbricado em nossa cultura, nossa cor, a prática de violência e ajuda a moldar uma juventude de favela e de subúrbio, marcada pela exclusão social, principalmente a carioca, que se corporifica de maneira a assustar a sociedade oficial a cada dia que passa. Tal quadro se desenha na medida em que configuramos a relação aparentemente esdrúxula que se estabelece entre a sociedade paralela, ou corpos socioculturais autônomos, e a oficial, ou seja a legal e a ilegal.

Para explicá-la poderíamos nos reportar à fábula do diálogo entre o formigueiro MaryBibliografia e o Tamanduá na entomologia citada. Comunicam-se de forma complexa em um emaranhado de conflitos internos distintos, pouco claros para os observadores simplistas que não conseguem ver além do comprovado. Ela é sempre vista como mais um problema. Contudo, constrói um diálogo surdo e, às vezes, até mudo, mas bastante eficiente, invertendo e trocando relações. Traduzem nitidamente o que quer dizer o holístico quando o todo manipula as partes e jamais se define pela simples soma delas. Só consegue ver quem tem percepção holística apurada. Só entende quem é capaz de combinar o que Eric Hobsbauwn chamou em seu livro Era dos Extremos de visão de helicópteroBibliografia. É a frágil conexão oculta entre a visão mecânica e o que transcende a ela.

Trata-se de um jogo de diálogos do campo do gestual coletivo corporal. Na parábola citada, o formigueiro fala aos sentidos e percepção do tamanduá, movido pelo volitivo de maneira complexa. Este também, sem perceber, entende, fala e age respondendo ao formigueiro. É um diálogo cujo dimensionamento ultrapassa a percepção mecânica. Mas há algo que não se pode perceber com os sentidos limitados pelo da visão materialista. É um diálogo simbólico e, por muito paradoxal que pareça, ele existe. Por muito desconexo que aparente ser, ele se sustenta e, aos olhos limitados do mecanicismo, do cartesianismo, parece algo estranho e absurdo. Equivale ao Rabo balançar o cachorro, ou algo do gênero!

O bonde do mal encontrou identidade, discurso, argumentos, ideologia. E em que pese a posição dos céticos, está a gritar presente, ameaçando a ordem social oficial de uma sociedade formada pelo consumo dos restos de uma prática de vida marcada pela eurocentricidade e pela escravidão. No nosso caso particular, "...o Brasil não conhece o Brasil". O arrastão nas praias representa o retrato de nosso estado de pânico. Algo mudou no imaginário da cidade após outubro de 1992 ou apenas constatamos o gigantismo corpóreo do que se denomina hoje sociedade paralelaBibliografia? Será que ainda acreditamos que formigueiro não fala? Talvez uma tipologia de insistente surdismo acaba por não perceber o diálogo simbólico entre dois mundos organizados? Precisamos ser mais cuidadosos.

Observamos, recentemente o reaparecimento de antigos temores da população com relação à violência urbana. Mas o Rio de Janeiro sempre foi marcado por muita violência, basta verificar o número de mortos que apareciam nas suas praias durante o Segundo Reinado. A praia de Ipanema recentemente chegou a ser dividida em microrregiões: pessoas da Zona Norte, da Zona Oeste, da Zona Sul, da Baixada, os suburbanos e os farofeiros. Não mudamos nada! As nomenclaturas, inclusive, são dadas por irradiação da cultura do mandonismo, enraizada no comportamento de nossas elites. Pelo menos, as nomenclaturas divulgadas. Certamente existem outras do universo cultural de cada setor citado, capaz de identificá-lo e garantir-lhe a coesão, a corporificação, a manutenção do sentido de time, grupo, no sentido orgânico, corpo. São como formigueiros falantes. Resta-nos descobrir suas vozes de intercomunicação imperceptíveis aos olhares narcisistas tribalizados.

As desigualdades são percebidas até no comércio. Nos dias úteis, quando os frequentadores são os próprios moradores da Zona Sul, ele exibe mercadorias totalmente diferentes daquelas dos finais de semana, cujos consumidores são os suburbanos. É o peso de um passado de todos nós de submissão escrava, mal resolvido até os nossos dias, deformando o que nos é atribuído como sociedade. Espaço onde a identidade apresenta defeitos e não atende às exigências coletivas.  

Na virada dos anos 90, mesmo sem perder a marca de farofeiros, os frequentadores não foram mais às famílias e sim os jovens: turmas, galeras, gangues, que chegavam à praia entoando grito de guerra, e promovendo correrias. Promovendo o medo que gera o caos e que por si também gera o poderBibliografia, que também é paralelo. O arrastão, manchete constante dos jornais nos idos de 1992, marcou o início do explicito braço violento da sociedade paralela ou corpos citados. Foi utilizado como tema central nos debates políticos, por candidatos municipais e estaduais do Rio de Janeiro.

Para figuras eminentes, como o já falecido político e ex-governador Leonel Brizola, haviam sido tocados pela visão do racismo. Para outros, como o então Prefeito César Maia, o radicalismo no discurso demonstrava o grande medo que provocava. Por isso mesmo respondia com desespero ao defender a presença das Forças Armadas na rua. Já a então Governadora Benedita da Silva, lembrando o direito de ir e vir de todos os moradores, contradizia-se, pois o paradoxo do que dizia combinado com suas origens pobres era gritante. Aparentava não conhecer a realidade de sofrimento de uma favela, tanto ao nível interno das relações de força e poder lá existente, quanto no que denominamos de convívio com a pobreza.

Tudo demonstrava, naquele ato, o transbordamento, a condição insuportável das desigualdades que a cidade apresentava como reflexo de sua história social, também marcada pela injustiça e pouco crédito aos menos favorecidos. Cada um com uma opinião e ninguém apresentava solução. Afinal, não conseguiam ver além da imediata necessidade de se livrarem da insuportável camisa de força que aquilo representava. Era mais fácil livrarem-se imediatamente do complexo sufoco de tudo aquilo. Muitos estavam provando do próprio veneno e não gostavam.

Os jovens, quando chamados a opinar, narravam sempre experiências vividas no dia-a-dia, nas praias, bailes funk, no contato com outras pessoas. A linguagem utilizada por eles deixava bem claro o poder do tráfico, ainda que não estivessem envolvidos. Tínhamos a face mais clara de uma sociedade do medo. Face cega ou obscurecida pelas várias mimésis feitas do exterior. Não mais reconhecia o que os identificava aqui. Haviam crescido em uma cidade de faz de conta.

O fato de alguns moradores de favelas como Vigário Geral serem rotulados de desordeiros, marginais etc., lembra sempre um discurso usado pelas Chefaturas de Polícia do Império no Rio de Janeiro, fase em que a tão decantada ordem não tinha parentesco com os hábitos tropicais aqui desenvolvidos.

Está na hora de ficarmos alerta para a verdadeira demanda que a cidade população apresenta. O que se quer é ser respeitado, frequentar lugares como os shoppings, como qualquer pessoa normal, sem levar o título de malfeitorBibliografia. O trabalho de resgate feito pela educação, certamente, desempenhará aí um papel importantíssimo. O que se deseja é identidade, cidadania e justiça social acompanhada de uma atitude objetiva e clara de inclusão social nos centros urbanos do Brasil.

Há em nossa história social uma forte mistura de influências que dificulta a leitura mais clara de nosso perfil cultural. Provavelmente, para a tarefa de entendê-la, apinhada de relações conflituosas e complexas, precisaremos de uma nova compreensão da filosofia da história. Talvez a que vem implícita na obra de Thomas Mann (1875-1955) esclareça um pouco mais toda a complexa realidade. Ela, a partir de um grande romance de maturidadeBibliografia, apresenta uma nova e complexa técnica criativa, à qual ultrapassa os limites do ficcional e alcança importância intelectual ímpar. O autor alemão passa a ter como componente estrutural uma clara concepção cíclica da história. Contudo, salvo os defeitos de sua visão, todos já conhecidos, poderiam servir para organizar e dar visibilidade ao corpo social que representamos no lado prático de nossa lusofonia.

Sabemos que a recorrência, o cerne do mitologismo que impregna a obra de Mann, deve muito ao conceito cíclico de história de Vico, ainda que as fontes diretas sejam seus adorados Schopenhauer, Wagner e Nietzsche. O trágico caos que ocultamos sob a capa positivista de Ordem e Progresso precisa de concertos e/ou ajustes. A teoria nietzscheana da tragédia, a filosofia pessimista de Schopenhauer e a obra sinfônica de Richard Wagner poderiam também servir de inspiração para conduzir o olhar crítico de nossa sociedadeBibliografia.

Como sociedade, somos o que Mann afirmou um dia sobre filosofia de seu tempo, ou seja, a ponte entre o mitologismo romântico e o modernismo, que acrescentamos ser do tipo avassalador. A teoria nietzscheana sobre a tragédia que expõe o conflito entre o apolíneo e o dionisíaco como propulsor da história cultural humana serve como perfeita lente por onde se pode observar a nossa complexa formação sociocultural urbana. Vivemos um verdadeiro carnaval no fogoBibliografia. O filósofo acreditava que o homem só conseguiria dar significado a sua existência quando imprimisse nela o selo do eterno. O presente, para os gregos da cultura trágica, apresentava-se sempre sub specie aeterni, ou seja, sob o aspecto do eterno;  associavam, sempre, suas vivências a seus mitos. Pois bem, nós também temos que descortinar nossos mitos e heróis, associando-os as nossas carências de identidade. A ideia nietzscheana de eterno retorno que vem de Schopenhauer, que rejeitou a causalidade como princípio regulativo nos aspectos individuais e históricosBibliografia, traçando um paralelo entre causalidade e temporalidade, nos caberia perfeitamente. Ver ambas como funções do intelecto humano, como categorias kantianas nos tempos de (re) conceituação no final do milênio acometido da crise das certezas é, certamente, um excelente introito ensaísta epistemológico. 

O declínio do Ocidente e, hoje, sua pulverização cultural, vaticinado por Oswald Spengler, é visível no exemplo do professor português aposentado da Universidade de Coimbra, Eduardo Lourenço, quando propõe o estudo da lusofoniaBibliografia.  Trata-se igualmente de um formigueiro que fala! É, insinuante,  ameaça se expandir. Nele, somos o maior representante. Podemos ser mimetizados, se já não estamos. Em nossos exemplos comportamentais urbanos modernos exprimimos todas as nossas carências, defeitos e dificuldades. Deixamos de primar também pelo olhar da introversão, da autocrítica, e estamos pagando por isso. Enxovalharmos nossa construção de liberdade foi péssimo! Imaginamos vários ESTADOS/NAÇÕES desde o Império de caráter sempre sistemantista, onde a flexibilidade política, social e econômica quase sempre não era notada para todos. A liberdade e justiça social nunca se configuraram por completo aqui. O defeito estava na mímica que fazíamos do que nos remetiam do exterior. Nunca houve um filtro seguro que promovesse a internalização, quando servia, ou o rechaçamento, quando não servia. Não selecionávamos com a eficiência e o critério que merecia.

Hoje, a atmosfera de medo e suspeita que vivemos obriga-nos a olhar a história produzida por Johann Faust, de 1587. Ele teria inspirado Christopher Marlowe a escrever a famosa peça The Tragical History of Doctor Faustus. A tentativa de compreender o que levou ao caos bélico marca boa parte das reflexões do narrador fictício Serenus Zeitblom, um professor universitário tão bem-intencionado quanto omisso, uma figura ironizada ao extremo pelo autor justamente através da insuficiência de seu raciocínio de causa e efeito para compreender o presente.

Como o citado Mann, há de se observar e até alcançar o significado oculto que esconde a nossa formação sóciocultural. Que perspectivas e paralelos históricos abundam na sociedade paralela ou corpos autônomos com a qual nos defrontamos? Os paralelos expostos entre o doloroso nascimento do individualismo, século XVI, e a era da luta pela sobrevivência desta frente ao coletivismo demoníaco e desafiador do urbano complexo que nos referimos anteriormente, vividos nos séculos XX/XXI, é a grande preocupação final desse trabalho.

O século XX revelou-se aterrorizador frente à liberdade individual e igualmente ameaçada pelo rompimento do tradicional. Assim, ignorar a possibilidade de resistir moralmente, traindo a razão, pareceu ao longo do século do nãoBibliografia verdadeiramente assustador. Para muitos, seria mergulhar no escuro, na incerteza, no desconhecido, no caos. Mas esse no novo milênio apresenta-nos novidades muito interessantes e vem vagarosamente clareando o turvo horizonte.

Paradoxalmente, em Passargada, contrariando Mann, que repudiava a dicotomia considerada romântica entre sentimento e intelecto em seus romances, Boaventura de Souza Santos nos convida a pensar uma nova Crítica da Razão IndolenteBibliografia. Se Mann considerava o grande peso intelectual que permeava a obra como um procedimento completamente legítimo, inevitável em nosso estágio de civilização, Boaventura de Souza Santos convida-nos a pensar um novo mundo civilizatório.

A sede de conhecimento que assustava o século XVI com o fim de toda estabilidade e ordem contribuiu para a grande popularidade da lenda de Fausto. Mann inverte a situação em sua versão contemporânea: se no século XVI saber era pecado, no século XX, o demoníaco residia na recusa do conhecimento. O Século XX, por isso mesmo, foi denominado o século do não.

O tema manniano da aliança entre arte e doença, que marca toda obra, é apresentado de maneira brilhante no Doutor Fausto. As pessoas comuns vivem na normalidade da autossuficiência, mergulhadas em seus interesses práticos, anuladas a seus interesses vitais e imediatos. Passam a ter vidas que se ordenam passivamente segundo as conveniências sociais em busca da satisfação dos interesses de uma vontade de viver obstinada e cega. Essa afirmação burguesa da vida tende ao mero animalesco, estúpido e superficial.

Em oposição a isso, representando o espírito, vive na condição doentia de quem deve lidar com a sedução da morte, pois o espírito opõe-se frequentemente à vida e pode até negá-la. Onde há doença, a natureza volta-se contra si mesma e alcança o que denominamos de sublime espiritualidade humana. O tema da oposição entre vida e espírito marca toda a metafísica germânica, mas foi na obra ficcional de Mann que encontrou expressão mais intensa. Fausto era visto como um homem de sangue quente, que tinha como maior desejo o conhecimento. Em troca deste, vende sua alma ao demônio. O Fausto manniano constitui um artista de vanguarda no século XX, é um homem frio e racional que aspira por uma alma. O pacto demoníaco é invertido. Apresentado como o último guardião da ortodoxia religiosa e do fundamentalismo teológico, o próprio demônio tem um novo papel em nossa era. Em troca da sífilis que dá alma ao artista, o preço a ser pago é a abdicação do amor aos homens. A opção pelo espírito puro e pela criatividade, em detrimento do amor, é o que leva Adrian à danação no final com a perda da luz de seu intelecto e o mergulho nas profundezas sombrias da loucura.

O pacto demoníaco que marca a genialidade do protagonista do romance ocorre quando sua predisposição para a doença realiza-se na entrega a um amor desviante que o contamina com a sífilis. O símbolo do pacto é a Haetera Esmeralda, uma borboleta brasileira em que veneno e beleza se combinam na mágica da ambiguidade. A cena do diálogo com o demônio, uma alucinação febril,  deixa claro o fato de que o pacto foi a contaminação, a conversa é apenas uma ratificação do acordo.

Ora, se observarmos a sociedade urbana da virada do milênio, marcada por um novo desenho de conexões políticas imprevisíveis, veremos a configuração da complexidade máxima aos nossos olhos. Não há como negar o papel demoníaco da construção de nosso todo social complexo. A nossa urbanidade parece ter feito, também, um pacto demoníaco. Os sistemas sociais hoje possuem uma complexidade que não invoca relações entre indivíduos já constituídos, finalizados, definidos a partir de suas propriedades como prontos, mas, existe a necessidade de se convocar o que Mann chamou de potencialidades conectivas. Que são bases do engendramento de imanência ou mesmo da capacidade de produzir formasBibliografia. Como diz Eduardo LourençoBibliografia, vivemos um estagio de melancolia, que esperamos transitórias, em um mundo que prepara a quarta revolução tecnológica, em um universo de conceitos que devem ser (re) construídos.

Em termos psicanalíticos, a melancolia é uma ligação com um passado que não passa. No caso alemão, Mann mostra que esse passado é a aurora dos tempos modernos, séculos XV e XVI, marcada por medos. Jean Delumeau observou como nessa época, especialmente na Alemanha, abundavam danças macabras, artes moriendi, sermões apocalípticos e imagens do Juízo Final. É nesse clima de final de mundo que surgiu a Reforma Protestante, a qual contribuiu para intensificar a fermentação escatológica que a precedeu. Muitos veem a complexidade de nossa urbanidade como algo semelhante.

O método criativo de Mann, ou a historiografia viva considera que apenas um esmiuçamento da estrutura sobre a qual se assenta o romance esclarecerá a filosofia da história que permeia sua obra, assim como sua interpretação pessoal do problema alemão. Um dos componentes essenciais em Mann é uma concepção histórica especial, influenciada por Nietzsche, que ganha toque de qualidade. Mordaz crítico da história cientificista praticada em seu tempo. Via nela uma autópsia do passado, verdadeiramente a sua desqualificação. Não há como negar que a historiografia tradicional, com sua característica de reescritura constante, baseada nas mudanças, torna-a semelhante a um cemitério onde o espaço é medido e é precisamente quantificado, a todo o momento, buscando encontrar lugar para novas sepulturas.  Fábrica de saberes mecânicos e assertivos. Assim, é impossível ler o nosso quadro sociocultural dos excluídos sociais.

Em Nietzsche,  o ser humano seria forte o suficiente para viver no pensamento de um eterno retorno. A concepção da vida humana como eterno retorno de um mesmo fenômeno elimina por completo o sentido e necessidade de causa que embasa a estrutura linear de tempo em que se baseia a sociedade contemporânea.

Nietzsche pregou a criação de uma historiografia viva, que resultaria da criação artística. Afirmava que a consciência histórica só é útil para a práxis da vida quando se apropria de uma tradição e a continua elaborando sob a perspectiva do presente. E o nosso presente sóciourbano é complexo. Dessa maneira, o resgate da tradição inexoravelmente deveria preservar os instintos e os sentimentos presentes em sua construção natural, o que seria possível apenas pela arteBibliografia. A arte seria o protótipo do que desconstrói a oposição entre intelecto e instinto. E, para perceber o tônus de nossa sociocultura urbana, é preciso ter a fineza de um artista.

MannBibliografia dizia que o narrador é o mago que evoca o pretérito. Enquanto o homem moderno se aceita como determinado por seu tempo, o homem arcaico recusava-se a se aceitar como ser histórico. Para ele, a história começaria onde terminava a tradição. Seria o tempo profano moderno, a Era sem paradigmas sagrados, sem significados para a existência da humanidade. A repetição, por um personagem ou uma pessoa real, de um gesto arquetípico suspende a duração do tempo, apaga o tempo profano da eterna mudança e traz à tona o mítico. Assim, é possível compreender como Hans Castorp revive o modelo de Orfeu na obra conhecida pelo título Montanha MágicaBibliografia e Adrian Leverkühn usar o de FaustoBibliografia. O historiador se vê diante do complexo. Desafiado por ele, mas absolutamente sem ferramentas eficientes para decodificá-lo. Talvez seja o que passa a academia diante de tamanho volume de sinais anormais na sociocultura urbana fluminense, abalada pela violência daqueles esquecidos.

O mais interessante é perceber que a forma como o autor alemão utilizou as descobertas psicanalíticas em seu tempo alcança um significado que nega o meramente individual. Realmente, podemos notar que o autor vai deixar claro que não acredita que os fatos históricos e sua análise causal sejam capazes de explicar sua época ou mesmo uma determinada época. Sabe-se que os mitos nunca foram fatos históricos, mas sim paradigmas consagrados e divinizados de comportamento que eram repetidos. Os mitos, nas sociedades arcaicas, sempre controlavam um determinado território. A partir da descoberta da alma, passariam a ser assimilado como instrumentos psicológicos motivadores. Para o homem comum, era patente o dado de qualidade que eles representavam. A esmagadora maioria entregava ao campo do simbólico a responsabilidade de seus destinos. É nesse particular que a fábula do Tamanduá e o formigueiro chamado Mary se encaixa para analisar o estranho diálogo que nos referimos entre a polícia e os violentos da favela. Uma vez que enseja uma linguagem e um diálogo dos símbolos, lê-las é a tradução do espaço holístico, a tradução do todo complexo que, não percebido pelo mecanicismo científico, sempre teve o poder de manipulá-lo. E este, manipulado, nunca lhe foi capaz atingir a tradução completa e dominial do outro, ou seja, a soma das partes do pensamento cartesiano e mecanicista jamais iria atingir a dimensão do diálogo dos símbolos, ao qual nos referimos existir entre os da favela e os policiais no sôfrego embate pela ordem recente. Ora, guardando-se as devidas proporções, essa concepção volta a ter força no espaço do urbano popular dos países do terceiro mundo. Coniventes em um mundo marcado pela linha dos extremos, como: pobreza, miséria, desemprego, enfim, exclusão social, acabam sempre tomados pela supervalorização do simbolismo mítico e até mágico. Hernando de SottoBibliografia afirma ser a América Latina uma área marcada por 78% de excluídos sociais que chama de extralegais. É um número assustador! Sua ação e existência inviabilizam qualquer forma de poder, Estado, ordem etc. Nesses universos sociais, quem não descamba para o crime e para a criminalidade acaba, de alguma forma, constituindo uma sociedade diferenciada, porque ganha vida independente em face da exclusão social.

Aos olhos dos modernos críticos da academia, seria ver o lado maléfico da sociedade. Chegaram a classificá-lo de braço podre, ou seja, algo que devesse ser extirpado. Porém, no lugar do braço extirpado não nasce outro! Apenas fica o sonho, a representação da imagem, o imaginário de sua existência anterior. A pergunta que poderia provocar grandes dúvidas aqui é: como se preenche o espaço do imaginado para que se torne concreto? Certamente, lá nasce algo que não identificamos, pois difere absolutamente do que desejamos, pensamos, prevemos, sonhamos. Pior ainda, assusta-nos saber que convivem na diferença e que, agora, podemos vislumbrar até um diálogo simbólico entre eles, o qual não se via antes. Está posto então o grande desafio do urbano do século XXI no Rio de Janeiro. Como lidar com um universo de mundos sociais de interdiálogos complexos, ininteligíveis à lógica do cartesianismo, mas que nos desafia a todo o momento? Como lê-los se não temos ferramentas adequadas? A insuficiência de nossas insistentes monolentes, hoje, limita nossos movimentos no campo científico, prejudica a observação e a verificação. Seriam eles o tudo ou o todo do que vemos?

O presente artigo intitulado E o rabo balançou o cachorro: uma história de controle eficiente que educou um Brasil multicutural requer também, de todos nós, uma verificação mais requintada, minuciosa, detida e cuidadosa, principalmente em países multiculturais como o nosso. Não é à toa que ainda nos pesam muito os quatro séculos de chicote e pelourinho. Olhar a nossa sociedade de estrangeiros é, antes de tudo, olhar para um sintomático e permanente sentimento de estarmos chegando tardiamente às grandes conquistas da humanidade. Atualmente temos, no Brasil, uma historiografia bastante consciente do problema. A produção, principalmente a partir dos anos 70, tomou um curso bastante rico e variado. Aprofundamos nossos olhares críticos. Percebemos nosso imenso descompasso interior. Verificamos que iremos viver ainda por muito tempo lutando para superar práticas de vida paradoxais coletivas. É extremamente chocante ver que o patrimonialismo tornou-nos uma sociedade tardia em quase tudo. O controle sempre foi muito eficiente, pois, em meio ao rico multiculturalismo em que vivemos, a síndrome do controle que nos educou foi tão eficiente que não nos permitiu acordar a tempo de pegar o "bonde da história", como se diz.

Somos uma bomba relógio adormecida. Mas que agora, diante da necessidade de desenhar seu próprio destino, obriga-nos a olhar para a imensa obra de construção que precisa ser feita. E ela é realmente grande! Cremos que o maior desafio é inserir o país como um todo no desafio global que se apresenta na aurora do terceiro milênio. É bem provável que tenhamos que dizer e ouvir práticas de descompromisso.

O desafio de educar o Brasil para um mundo da ciência abalado pela revolução do(s) paradigma(s) da complexidade é tão grande que será mais fácil transferir responsabilidades. Somos hoje um país com 32,1 milhões de cidadãos em idade acima de dez anos entre os que acessam computadores e a internet. Embora pareça um número grande, sabemos que representa apenas 21% da população, o que põe o país em 62º lugar ranking de nível de acesso no mundo, e em 4º lugar na América Latina, atrás da Costa Rica, Guiana Francesa e UruguaiBibliografia. Que Brasil terá inserção no mundo da cibernética, marcado pela infomotriticidade, infotecnologia, tornando o homem um infobjeto e outros que já tocamos aqui? Que história poderá contar, para que seja capaz de alimentar e retroalimentar o sentido maior de cidadania, ou cibercidadania, que tanto precisamos e a revolta realidade exige?   

A academia não poderá se furtar e se esconder do grande desafio que terá! O problema é nosso, porque nos foi atribuído, ou talvez até imposto, pelos avanços externos (importa muito discutir de quem é a culpa). Temos uma tarefa de desconstrução/reconstrução árdua. Para usar uma metáfora bem nossa, poderíamos dizer que chegamos atrasados ao "último baile da ilha fiscal" e estamos sem saber o que aconteceu na grande maioria de nossa população. A nossa corrida é contra o tempo para desconstrução de algo absolutamente eficiente que nos educou por mais de quatrocentos anos de formação histórica.

Nossas cidades são acometidas de macrocefalias crônicas, marcadas por um multiculturalismo que somente agora desenha alguns dos seus perfis: lusofonia, que os portugueses chamam de práticas lusodescendentes; afrofonia, que alguns centros acadêmicos afirmam ser oriundo dos afrodescendentes etc. Em parte, há muito de verdade no que estão afirmando. Contudo, sabemos que todas essas novidades carecem de detidos estudos. Seguramente, apesar da raiz que tenta explicá-los, configuram manifestações de alguns dos rostos de nossa brasilidade surpreendente. Devem ser entendidas como marcas identitárias de nosso complexo multiculturalismo vivenciando, ou seja, amostras precárias do desenho principal que realmente temos.

São complexos e fazem parte do mundo da complexidade global moderna, onde a única certeza que temos é a soma das partes ser incapaz de traduzir o todo. Decodificar esse todo é fundamental para nossa sobrevivência precária e difícil de ser chamada de nação. Porque a mesma implica na sobrevivência do Estado que, por sua vez, depende da urgente conclusão mais acabada e definida dessas leituras.

A Educação que não se repensar a partir das implicações das reflexões que apresentamos, certamente está absolutamente perdida quanto a melhor leitura de nossa sociedade. O caos já se instalou! Temos um grande problema a ser lido e desenhado urgentemente e com a máxima clareza possível. Temos que inverter essa história do "Rabo que balança o cachorro?!"

Conclusão

Aos olhos dos modernos críticos da academia, continuar com o louco desdobramento do desenvolvimento tecnológico seria ver o lado maléfico da sociedade! Realmente, é mais fácil um comportamento do tipo: não vejo, não falo e não ouço!

A pergunta que poderia provocar grandes dúvidas: se algo é extirpado, como se preenche o imaginado que tomou seu lugar para que se torne concreto? Certamente algo nasce lá! E não identificamos, pois difere absolutamente do que desejamos, pensamos, prevemos, sonhamos! Pior ainda, assusta-nos saber que convivem na diferença e que, agora, podemos vislumbrar até um diálogo simbólico entre eles, independente do diálogo simbólico que temos com o seu todo. Considerando que em pouco tempo o mundo não conviverá com a saudável e dialética diferença entre urbano/rural, está posto o grande desafio que se nos apresenta o urbano do século XXI.

É incontestável o avanço do conforto que a tecnologia traz, com fácil acesso a todos, rapidamente. Estamos caminhando para um urbano/urbano? Como lidar com um universo de mundos sociais de interdiálogos complexos, ininteligíveis à lógica concreta da visão cartesiana, mas que nos desafia a todo o momento? Como lê-los se não temos ferramentas adequadas? A insuficiência de nossas lentes, hoje, limita nossos movimentos no campo científico, prejudica a observação e a verificação. Será que o descontrutivismo é a saída? Quem seria suficientemente (i) lúcido para abdicar de todo o bem estar que a alta tecnologia proporciona, em um mundo da complexidade onde a demanda por (re) conceituação do quadro social se faz urgente e necessária? Somente nos resta preparar, construir, visualizar e operacionalizar a vida em um plano superior. Conceber a inexorabilidade de dar um passo atrás, certamente também constituirá irresponsabilidade! Além do que, constituirá uma vergonhosa fuga do problema!

A academia, ao se comportar assim, reflete a humilhante situação de expressar seu impotente grito de socorro, o qual, nos parece, está próxima de bradar! Estamos diante do maior desafio apresentado ao exercício de liberdade. Ou seja, estamos diante de um novo desenho do velho liberalismo. Mensurá-lo em suas novas e variadas relações é urgente! Divulgá-lo em suas novas e variadas modulações de relacionamento também! O universo social, no planeta, já começou sua surda e muda Revolução Radical ao longo do século XX/XXI. Somente o tempo dirá o tamanho, a dimensão e a quantidade dos excluídos sociais que fabricaremos até que se complete seu ciclo! Não sabemos quantas vítimas perecerão! Como bem diz Richard Pipes, "atualmente, a principal ameaça à liberdade provém não da tirania, mas da igualdade...". O autor afirma também que "não existe um método pelo qual os homens possam ser simultaneamente livres e iguais" Bibliografia. Sabemos hoje, antes de qualquer ato científico, por mais equilibrado que seja, que temos de escolher, talvez, entre liberdade e igualdadeBibliografia. Em nosso caso específico, a presente exigência é urgente! Principalmente pelo estado de atraso em que a maioria do nosso universo social se envolveu, ou foi envolvido.   

Países multiculturais como o nosso sempre apresentaram dificuldades de acompanhar a velocidade das novidades que a tecnologia imprimiu, e imprime, ao que chamamos de progresso do ocidente. Não é à toa que ainda nos pesam muito os quatro séculos de chicote e pelourinho. Olhar a nossa sociedade é, antes de qualquer coisa, olhar para um sintomático e certamente pesaroso sentimento de estigma. É certo que chegamos tardiamente ao grande baile da ilha fiscal e, por razões variadas, também às grandes conquistas da humanidade. Contudo, não devemos mergulhar por essa razão na melancolia que o velho continente europeu vivencia desde a virada do século. Tampouco devemos acreditar que, por herança, nos legou para a eternidade longeva colonização. Antes de tudo, a crise é deles e o modelo de crise do Estado/Nação e suas atribuições funcionais, também.

 Se, por um lado, o Estado/nação brasileiro vive esse desafio do diálogo, temos que considerar que a nossa jovem democracia também é experiente e rapidamente já viveu todos os reveses que o velho continente passou sem nos abalarmos. Até aqui, fomos assistentes, quase que passivos, de uma peça que não protagonizamos, apenas fizemos mímicas precárias do que assistimos e apreendemos! O Pacto das Elites está por vias de extinção! Um novo Pacto pode e deve ser construído com os olhos voltados para uma leitura que permita superar a visão de exercício de poder como um negócio de pai para filhoBibliografia.

No Brasil, em que o direito de cidadania esteve representado pela passagem da economia informal ao contrato de trabalho com carteira assinada e que atualmente reverte esse caminho, vê que a exclusão representa uma verdadeira perda de cidadania, a relegação a um universo dos não-sujeitos de direito à sociedade, como contrapartida, perdeu os deveres que teria o direito de exigir dos indivíduos, caso os estivesse contemplado com direitos formais fundamentais. Não podemos nos comportar como autistas diante do tamanho da violência que vivenciamos! A leitura clara e séria da nova lógica da complexidade que vivenciamos no social carece do resgate, em seu tempo histórico contemporâneo, de básicas e rudimentares inserções sociais.

Ler ou reler a verdadeira face de nossos problemas começa pela reintegração do animar o sujeito cidadão, como afirma Antoine GaraponBibliografia. Certamente, com o comportamento responsável de ler e sentir as mudanças que a Revolução Tecnológica exige hoje, a começar pelo direito do trabalho, mediante relações formais e minimamente estáveisBibliografia. O pensamento filosófico do desconstrutivismo encontra aqui, dialeticamente, a árdua e desafiadora tarefa de agir no que preferimos chamar de ação decodificativista, mas com novas ferramentas de análises que devemos construir. A roda do tempo está girando veloz, implacável e alucinante, principalmente para os que ficam apenas assistindo aos seus movimentos. Parar pode ser perigoso e comprometedor. O preço pode ser um mergulho na barbárie! Atualmente o Brasil tem historiógrafos bastante conscientes do problema. A produção aqui, principalmente a partir dos anos 70, tomou um curso bastante rico e variado. Aprofundamos nossos olhares críticos! Percebemos nosso imenso descompasso interior! Verificamos que viveremos ainda por muito tempo lutando para superá-los! Temos paradoxais práticas de vidas coletivas. São extremos que o patrimonialismo social praticado, tardio ou não, nos legou em quase tudo. O controle sempre foi muito eficiente, pois, em meio ao nosso rico multiculturalismo, a síndrome do controle que nos educou foi tão eficiente que não nos permitiu acordar em tempo de pegar o bonde da história! Mas não perdemos o volitivo que nos impulsiona.

Somos uma bomba relógio esquecida! Mas que agora, diante da necessidade de desenhar seu próprio destino, obriga-se a olhar altiva para a imensa obra de construção a ser feita. Ela é realmente grande! Cremos que o maior desafio é inserir o país como um todo mundializado e do mundialismo no desafio global que se apresenta na aurora do terceiro milênio! É bem provável que tenhamos que expressar e ouvir práticas de descompromisso em todos os sentidos.

O desafio de educar o Brasil para um surpreso e abalado mundo da ciência pela revolução do(s) paradigma(s) da complexidade é gigantesco. Será mais fácil transferir responsabilidades? Assimilar e mimetizar receitas de outras realidades? Que o Brasil terá inserção no mundo da cibernética, marcado pela infomotriticidade, infotecnologia para lidar com o novidadeiro infobjeto e outros que já nos tocam, é inexorável! Que história capaz poderá fabricar, contar, alimentar e retroalimentar o sentido maior da prejudicada cidadania que exercitamos e da qual tanto precisamos? Jonathan Culler nos fala acerca do desconstrutivismo que, nos parece, é a mais nova bengala dos que querem perpetuar o conservadorismo. Esclarece ele que:

... o que é um tanto precipitadamente chamado de desconstrução não é um conjunto especializado de procedimentos discursivos,...  muito menos as regras de um novo método hermenêutico, que trabalha com textos ou enunciados no abrigo de uma dada e estável instituição. É..., no mínimo, um modo de tomar posição, em seus trabalhos de análise, no que diz respeito às estruturas políticas e institucionais que possibilitam e governam nossas práticas, nossas competências, nossas realizações.... porque nunca concerniu apenas ao conteúdo significado, a desconstrução não deveria ser separável dessa problemática político-institucional e deveria buscar uma nova investigação de responsabilidade,... que questionasse os métodos herdados da ética e da política.... ela parecerá paralisante para aqueles que só reconhecem políticas pelos mais conhecidos sinais de estrada. A desconstrução não é nem uma reforma metodológica que deveria tranquilizar a organização que tem lugar, nem um floreado irresponsável... é um desconstruir irresponsável, cujo efeito mais certo seria deixar tudo como está e consolidar as mais imóveis forças dentro da universidade.

Afirma também que

... uma vez que a desconstrução nunca se preocupa com o conteúdo significado, mas especialmente com as condições e hipóteses do discurso, com os enquadramentos de indagação, ela compromete as estruturas institucionais que governam nossas práticas, competências e realizações. O questionamento dessas estruturas ...  pode ser visto como uma politização do que de outra forma poderia ser pensado como um enquadramento neutro. Questões de força e estrutura institucional provam estar envolvidas nos problemas aos quais a desconstrução se dirige. The Conflito of Faculties, de Kant, que Derrida analisa no ensaio que tem esse nome, discute a relação entre faculdades de filosofia e as outras faculdades da universidade... e o poder do Estado. A tentativa de Kant de definir a esfera de operações da faculdade de filosofia e as limitações que os direitos e poderes das outras poderiam impor prova incitar uma distinção entre a linguagem constativa e a performativa: a primeira ... reservada ao Estado e seus agentes da universidade. E os problemas... quando uma teoria dos atos da fala tenta definir e sustentar essa oposição, são precisamente as questões que animam as batalhas institucionais de universidade de Kant... 'Il n'y a pás de hors texte' no que as realidades com que a política se preocupa, e as formas como são manipuladas são inseparáveis das estruturas discursivas e dos sistemas de significação, ou o que Derrida chama de 'texto geral'. Dependentes das nossas oposições hierárquicas de nossa tradição, elas são passíveis de serem afetadas por inversões e deslocamentos dessas hierarquias, embora tais efeitos possam se dar vagarosamente.

Assim, o que Derrida apresenta de envolvimento mais público com as instituições e a política abrangeu uma gigantesca luta contra a depreciação da filosofia como disciplina nas escolas francesas, o que sustentaria o trabalho educacional para as supostas exigências tecnológicas do futuro mercado de trabalho. Além do mais, se tratava da França e não do Brasil. Nosso ritmo de desenvolvimento é muito diferente. Mesmo assim, é válido tal discurso, pois, tanto aqui como lá, guardando-se as devidas proporções, carecemos de uma análise filosófica do envolvimento da filosofia como interesses e forças consideradas marginais e:

"... uma investigação puramente filosófica expande a noção de filosofia como discurso crítico preocupado com as políticas do conhecimento, da representação, do aprendizado e da comunicação...  a questão não é apenas a situação de uma disciplina chamada filosofia, mas uma batalha entre forças mais ou menos determinadas funcionando como filosofias, tanto dentro quanto fora da instituição".Bibliografia

É exatamente dessas forças imbricadas no problema que vivenciamos aqui, que nos leva a trabalhar novamente o tema! Contudo, sem incorrer no erro de mimetizá-lo, temos que primeiro decodificar a realidade que vivemos. Não somos uma França, nem tampouco o nosso problema tem complexidade semelhante. Diferimos em tempo e multiplicidade.

A Escola Francesa, como combinação entre a sofisticada reflexão sobre a natureza da filosofia e a batalha por objetivos políticos específicos, não se aplica ao nosso caso. O território é diferente e, certamente, a prática de territorialidade também! Embora saibamos que tal combinação constituirá sempre uma difícil batalha, o próprio Derrida enfatiza o supremo interesse de seu projeto, por ser difícil. Diz que não sabe absolutamente como levá-lo adiante, pois não há nenhum projeto já construído. Diz também, que ele deve ser estabelecido ou identificado para cada ato, ou seja, quem se encarregar dessa empreitada deverá ter claro o tautológico ofício de ler o que se lhe apresenta, diagnosticando e prognosticando sempre!

Diz Derrida que o referido projeto deve ser estabelecido ou identificado para cada ato; que mesmo assim, ele pode falhar e, em cada caso, em certa extensão, ele falha mesmo! Contudo, o que realmente mais interessa é tentar reduzir certa lacuna ou atraso. É exatamente aqui que o nosso problema se encaixa, pois convivemos com uma multidão de não-cidadãos inconscientes e, na maioria, inocentes. O nosso atraso é assustador! Apresenta-se de tal forma, que os universos não se comunicam no concreto das relações sociais da ordem, que respeitam e são respeitados pelas hierarquias. Somente temos um inaudível diálogo dos símbolos, como à fábula do Tamanduá e o formigueiro Mary. Ele tem que ser lido urgentemente! Transformado em ensino e aprendizado, sistematizado, talvez até com um caráter sistemantista.

A academia não poderá se furtar a essa árdua tarefa e se esconder do grande desafio que se lhe apresenta o destino no novo milênio. Não há saída! Ela terá que pôr mãos na massa! O problema é nosso, porque nos foi atribuído, ou talvez até imposto pelos avanços tecnológicos externos. Não importa mais discutir de quem é a culpa! Temos uma tarefa de (re) construção!  E é urgente atentarmos para ela! Os brasis são muitos e variados, como diz o professor Carlos Lessa.

Chegamos atrasados ao último baile da ilha fiscal e estamos sem saber o que aconteceu na festa porque ... ficamos fora estacionando os carros, como disse Cazuza! A nossa corrida é contra o tempo, para desconstrução/(re) construção de algo absolutamente eficiente que nos educou por mais de quatrocentos anos de formação histórica e que nos tornou complexos.

Nossas cidades, salvo exageros, são acometidas de macrocefalias crônicas, marcadas por um multiculturalismo que somente agora desenha alguns dos seus perfis. Lusofonia e os lusodescendentes. Afrofonia e os Afrodescendentes, que somente agora começam a ser estudados com a verticalização devida etc. Há muito a se fazer e, por sorte, a construir! Somos privilegiados, nossos conflitos sociais somente agora romperam a barreira da mídia, o que, porém, parece não perturbar suficientemente o citado pacto! Cremos que ainda haja tempo de redirecionar objetivos, desenhar metas, operacionalizar felicidades e construir com segurança uma nação que respeite a lei da diferença e saiba viver e conviver, principalmente com dignidade. 

Contudo, sabemos que carecemos, ao mesmo tempo, de todas as novidades vindas da moderna tecnologia e do novo ethos que o mundo global desenhou e nos apresenta! Pois, seguramente, apesar da raiz que tenta explicá-los, configuram manifestações de rostos excluídos de nossa surpreendente brasilidade. A qual deve ser entendida antes como marcas identitárias de nosso complexo multiculturalismo vivenciando, ou seja, amostras precárias do desenho principal que realmente temos e não percebemos ainda. Elas são complexas e, por conseguinte, também fazem parte do mundo da complexidade global moderna! Porém, decodificá-las é fundamental para nossa sobrevivência como nação integrada em um universo cidadão, uma vez que a mesma implica na sobrevivência dos imaginados Estados brasileiros que, por sua vez, dependem da urgente conclusão mais acabada e definida de suas variadas leituras até aqui.

Coragem não é falta de temor! O medo é que nos paralisa, põe-nos imóveis. Devemos saber que a coragem não anula o temor. Pelo contrário, ela os vence. Não podemos mesmo é nos render ao medo e ficarmos imobilizados antes da batalha começar. É isso que faz com que as lutas sejam vencidas antes de se pegar nas armas. Não se pode perder tempo! Pois, como se diz mais, a fila anda...

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Publicado em 29 de maio de 2007

Publicado em 29 de maio de 2007