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O problema dos nossos filhos

Luiza Barreto Leite

Especial: Memória da Educação

Não há desajustados

Fala a O Mundo o professor Celso Kelly — A recuperação do indivíduo através das atividades extracurriculares — Intenções do diretor do Departamento de Difusão Cultural que merecem atenção

O escritor e jornalista Celso Kelly figura entre as personalidades mais em evidência nos nossos meios artísticos e intelectuais, não só pelo seu valor, como pela constante atividade que desenvolve nos mais diversos setores. Nem toda a gente, porém, sabe que a sua função fundamental, aquela que prevalece sobre todas, e que, na maioria dos casos, determina suas atitudes em face das outras, é a de professor.

Foi, pois, o professor Celso Kelly que resolvemos procurar no Departamento de Difusão Cultural da Prefeitura para que nos falasse do programa que, como administrador, lhe impunha sua missão pedagógica. Ele estava, como sempre, atrapalhadíssimo com os problemas do Teatro Municipal, que, segundo parece, bastam para ocupar uma administração inteira. Discutiam-se, também, dezenas de outras questões, que o diretor do Departamento não conseguiria jamais resolver por si só, pois a centralização exagerada dos serviços da Prefeitura não é exclusividade do ensino primário, nem termina em departamento algum; tudo, em última instância, vai parar nas mãos do Prefeito, que não resolve, nem pode resolver a centésima parte delas. Sem a menor duvida, é esse absurdo regime burocrático que acaba com 90 por cento dos magníficos projetos que dormem nos diversos departamentos da nossa Municipalidade. Entre esses projetos à espera do “Príncipe Encantado” que os desperte estão aqueles que o professor Kelly vem acumulando há anos, levado pelos seus sonhos de intelectual e de artista, mas que, ainda desta vez, provavelmente não conseguirão se transformar em realidade, sufocados, como parecem, pelo círculo vicioso da burocracia.

Esta, na verdade, não é a opinião do nosso entrevistado que, com aquele seu eterno ar de anjo bom, consegue permanentemente olhar o mundo com lentes róseas. Foi assim que, quando lhe falamos no caos do ensino, ele nos respondeu que tal caos não existe, pois, se baixou o nível intelectual dos alunos e mestres, em compensação aumentou o numero deles.

Crescimento horizontal

— Houve um crescimento horizontal, disse-nos, mas em beneficio da maioria. O número de alunos, nos últimos anos, cresceu indescritivelmente, sem que houvesse aumentado na mesma proporção o número de professores. Isso trouxe a compressão de turmas e a consequente incapacidade de se tratar de todos os alunos individualmente. Foi preciso baixar o nível para que todos progredissem satisfatoriamente. Além disso, os professores aproveitados sem uma seleção rigorosa para cobrir as necessidades dos colégios que se iam fundando, à medida que crescia o número de alunos, nem sempre estavam à altura dos cargos que exerciam. Muitos, até hoje, possuem competência intelectual, conhecem teoricamente a matéria que lecionam, mas não são vocações de mestres e não possuem o menor conhecimento pedagógico ou a menor capacidade de compreensão psicológica dos alunos. Isso os torna irritadiços e incapazes de transmitir corretamente os ensinamentos indispensáveis à formação cultural e psicológica de seus discípulos. No curso primário, esse problema já está resolvido plenamente (ele se refere ao ensino oficial), pois as professoras formadas pelo Instituto de Educação são consideravelmente mais competentes do que as que saíam da antiga Escola Normal, com apenas três anos de curso. Quanto ao ensino secundário, creio que é este o verdadeiro problema educacional do Brasil. Problema que só será resolvido quando as turmas formadas pela Faculdade de Filosofia puderem preencher todas as lacunas dos colégios que ainda possuem em seus quadros professores incompetentes.

— Mas, e os programas? Sobretudo, os de escola primária, exigem cada vez menos dos alunos...

— Isso foi no principio, pois, aumentando o numero de alunos não poderia deixar de haver uma espécie de desnivelamento pedagógico, em consequência da diversidade de tipos sociais que passaram a frequentar as escolas. É evidente que, se grande número deles já leva do lar para a escola uma educação básica e um nível mental superior, a maioria não conhece sequer rudimentos de higiene, vem mal alimentada, mal educada, mal orientada em todos os sentidos; foi isso o que produziu esse crescimento horizontal de um sistema incipiente. Logo, porém, que os métodos pedagógicos estiverem suficientemente desenvolvidos e se possa contar com a educação pré-primária e o ajustamento dos alunos através de atividades extracurriculares, então se verificará o crescimento vertical, e o sistema pedagógico brasileiro poderá ser incluído entre os melhores do mundo. Aliás, na educação primária já o é.

Teoricamente... murmuramos, pois discutir com o professor não era propriamente a função do repórter. E, para evitar os protestos que cobriam o nosso murmúrio: mas, que fazer para evitar o desajustamento consequente dessa diferença de nível mental e social, que se observa entre os alunos de uma mesma escola, ou de um mesmo sistema escolar, já que tudo é padronizado neste país? Que fazer, enfim, com os alunos desajustados, em número sempre crescente, e que de forma alguma constituem exceção em nosso sistema escolar?

Socialização da criança pela integração na comunidade

— Não há desajustados; o que há são alunos que não se adaptam facilmente à disciplina escolar; para esses, será preciso ligar o trabalho dos professores ao dos assistentes sociais e realizar a evolução das comunidades, graças à melhoria do material humano que as compõem, a par da socialização da criança pela sua integração na comunidade, respondeu-nos, convicto de que seria possível tanta beleza.

— Sim, atalhamos, mas o senhor nos fala no que “deve” ser feito e nós perguntamos o que “vai” ser feito, ou o que “já está sendo” feito. Sabemos que o senhor se interessa particularmente pelas atividades extracurriculares e que estas podem solucionar vários dos grandes problemas que afligem todos aqueles que se interessam pela educação no Brasil. O seu Departamento está ligado a essas atividades. Que pensa fazer?

— As nossas escolas primárias já praticam, como atividade extracurricular, o canto orfeônico, a modelagem, os trabalhos manuais e o teatro de bonecos, o que auxilia imensamente o desenvolvimento psicológico das crianças.

— Um número reduzido das nossas escolas, quer dizer...

— Não tão reduzido assim, o canto orfeônico e os trabalhos manuais já fazem parte das atividades obrigatórias, como a ginástica.

O teatro infantil como elemento de recuperação

— Mas estamos fazendo o possível para, em breve, possuir em todas as escolas um teatro infantil que sirva de campo experimental para todas as atividades artísticas, intelectuais e práticas, obrigatoriamente, ligadas a ele, desde escrever, interpretar ou improvisar pequenas comédias e pantomimas, até realizar os seus cenários e roupas, idealizando-os, desenhando-os, construindo-os, pintando-os e confeccionando-os, iluminando ainda os pequenos palcos e realizando outras atividades igualmente úteis. Só com isso já abriremos a possibilidade, não só para o desenvolvimento psicológico, intelectual e prático de todas as crianças, como abriremos caminho para a revelação de vocações, que talvez jamais fossem descobertas por outros métodos. A orientação pedagógica das modernas democracias tende, cada vez mais, não só a ensinar as disciplinas fundamentais a todos os seres humanos, como ainda a auxiliá-los a descobrir suas verdadeiras vocações, evitando com isso que haja, não só crianças desorientadas, mas indivíduos aparentemente inúteis porque não encontraram seu verdadeiro caminho. Creio que o governo deverá empregar todas as suas forças para a realização desse fim. Nós, infelizmente, aqui, pouco podemos fazer, pois nem sempre nos são facilitados os meios.

— E o senhor acha que esse admirável projeto de teatro infantil em todas as escolas é realizável dentro de um prazo razoável?

— Para isso precisaríamos primeiro fazer um curso, anexo a nossa Escola Dramática, para orientação técnica das professoras que se interessem pelo assunto e pudessem orientar os teatros de suas escolas. Mas é indispensável a aprovação de uma verba especial pela Câmara dos Vereadores, pois a nossa Escola Dramática nem mesmo possui verba

Publicado em O Mundo, provavelmente em abril de 1952, Rio de Janeiro;
da série: O problema dos nossos filhos

Publicado em 26 de junho de 2007