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Cornélio Pires: idílio caipira

Leonardo Soares Quirino da Silva

Fui à lousa e desenhei um esqueleto
- Algum de vocês sabe o que isto?
- Eu sei! Gritou um menino de olhar vivo.
- Que é?
- Sombração.

O causo acima faz parte das histórias contadas, recolhidas ou inventadas por Cornélio Pires. Se estivesse vivo, ele faria 113 anos no próximo dia 13 de julho. Homem dos sete instrumentos – poeta, escritor, ator, músico, folclorista – em sua obra ele se dedicou a retratar um caipira engraçado, simpático, romântico, que fazia o contraponto com o Jeca Tatu de Monteiro Lobato.

Nesse mês em que ainda se realizam festas juninas, conhecer a vida e a produção do autor paulista é ver o brasileiro do campo de outra forma, mais compassiva e, porque não dizer, mais humana do que a escolhida por seu conterrâneo de Taubaté para a primeira versão do garoto-propaganda Biotônico Fontoura.

Batizado com o nome errado por um padre surdo – era para ser Rogério –, Cornélio virou um conhecedor do que alguns chamam de “civilização cabocla” e, como os parágrafos acima já revelaram, o fato acabou lhe rendendo um antagonismo com Monteiro Lobato nos anos de 1920 e 1930, como mostram os versos a seguir:

Os caipiras deste mato
Não anda de quatro pé
Não são, Montêro Lobato
Como tu, feição de gato,
Quis pintá nos Urupé.

Pelos versos acima, percebe-se que Cornélio transliterou o “caipirês”. Na verdade, cabe a ele o mérito de ser o primeiro a fazer isso.

Mas, voltando a “pinimba” dele com Lobato, este não deixou também de implicar com o romantismo de Pires:

- O caboclo do Cornélio é uma bonita estilização sentimental, poética ultrarromântica fulgurante de piadas e rendosa. O Cornélio vive e passa bem, ganha dinheiro gordo com suas exibições que faz do seu caboclo. Dá caboclo em conferência a cinco mil réis a cadeira e o público mija de tanto rir.

Em seu comentário, o autor de Urupês acertou nos dois pontos. Primeiro, ao comentar a forma como Cornélio percebia e retratava seu objeto. Nesse sentido, ele tem solução de continuidade com o ideal romântico, apesar de, em Ideal Caboclo, os versos estarem mais para Jeca Tatu que para Rolando:

Ai, seu moço, eu só quiria,
prá minha filicidade,
um bão fandango por dia
e um pala de qualidade.
Pórva, espingarda e cutia,
Um facão fala-verdade,
E uma viola de harmunia,
Pra mata minha sodade.
Um rancho na bêra dágua,
Vara de ânzó, pôca mágua,
Pinga boa e bão café.
Fumo forte de sobejo;
Pra cumpretá meu desejo,
Cavalo bão e muié...

Depois, porque os espetáculos de Pires o tornaram famoso e admirado. Ao contrário do que se possa supor, contudo, ele não ficou rico, pois, como se dizia antigamente, viveu à larga.

Nada mais natural para um homem espirituoso, capaz de fazer graça até o fim. Reza a lenda que, internado no hospital, já no fim da vida – ele morreu aos 74 anos de câncer na laringe –, a enfermeira perguntou-lhe onde deveria aplicar a injeção. Ao ver seus braços todos marcados pelas doses anteriores, ele respondeu:

- Pode aplicar ali na parede mesmo!

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Publicado em 10 de julho de 2007

Publicado em 10 de julho de 2007