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Governo federal vai licitar notebooks escolares

Leonardo Soares Quirino da Silva

Evento em Niterói reuniu principais atores do projeto Um Computador por Aluno

No próximo mês, o governo federal deve licitar cerca de 150 mil notebooks para uso nas escolas públicas. A notícia foi dada pelo coordenador para América Latina do projeto One Laptop Per Child (OLPC), o professor David Cavallo (MediaLab/MIT), durante o 1º Encontro sobre laptops na Educação, em Niterói, no dia 14 de julho.

Segundo a professora Maria Helena Jardim (IM/UFRJ), do Grupo de Trabalho do MEC no Projeto Um Computador por Aluno (UCA) e coordenadora executiva do Projeto Piraí Digital, devem ser licitadas 150 mil máquinas que precisam atender a requisitos pedagógicos.

Nesse processo, ela ressalta que o professor é um profissional estratégico, que "tem que ser respeitado e não achar que tudo que ele sabe será jogado no lixo".

Foi justamente para envolver os educadores nessa discussão o objetivo da professora Denise Vilardo, do Colégio Graham Bell, ao organizar o evento com apoio do professor Luiz Cláudio Schara do Laboratório MídiaCom, da Escola de Engenharia da UFF.

Dimensão humana

Em sua apresentação sobre o Projeto UCA, a professora observou que há dois desafios a serem vencidos: os problemas de infraestrutura, como redes elétricas adequadas e conexão à internet, a mobilidade oferecida por esses equipamentos a partir do ponto de vista pedagógico.

Sobre a elaboração desse novo modelo, a professora notou que a postura do ministério é de "discutir com a comunidade, envolvendo todas as esferas possíveis". Entre estas estão os gestores em todos o níveis - diretores, secretários de educação, prefeitos e governadores - e os educadores. Com relação aos últimos, ela ressaltou que "precisamos investir na capacitação do professor, que tem que ser valorizado".

Cavallo pareceu concordar com a necessidade de se debater o projeto com os diferentes públicos envolvidos. Para ele, o grande problema da informática na escola é a mudança institucional, e, não, os professores.

Com base em sua experiência de campo, onde teve a oportunidade de conhecer e estudar projetos em países como Costa Rica e Camboja, o representante da OLPC comentou que costuma ouvir de antemão que o problema para implantação são os professores, que seriam resistentes à introdução das novas tecnologias na sala de aula. Em todos esses anos, contudo, ele disse nunca ter encontrado esse profissional.

Testes de campo

No evento, foram apresentados resultados de avaliações sobre o uso de laptops nas escolas promovidas pelo Projeto UCA em São Paulo capital e Piraí (RJ), bem como por uma fabricante de processadores.

As pesquisas na Escola Municipal Ernane da Silva Bruno, no bairro de Taipas, na capital de São Paulo, estão sendo acompanhadas pelo Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da USP. Foram distribuídas 400 máquinas do modelo XO para 35 alunos de uma turma de 2ª série e 37 de uma turma de 5ª série. O que os pesquisadores querem ver é qual o impacto da introdução das máquinas em classes que têm um professor e nas que tem mais de um.

Segundo a professora Irene Ficheman (LSI/USP), que participa da pesquisa, a linha geral do projeto tem sido a de estimular os professores a pensarem as soluções. Com isso, eles são convidados a criarem formas de uso da tecnologia em que o computador não seja simplesmente um substituto para o lápis.

Ficheman observou ainda que essa abordagem foi facilitada pelo ambiente existente na própria escola, onde os profissionais são incentivados a buscar outras fontes além do livro didático. A razão disso é haver a percepção de que, do contrário, educadores ficarem presos ao texto.

Para que os professores se familiarizassem com o equipamento, eles tiveram três dias para conhecer as máquinas. Depois disso, eles sugeriram dois dias para que os alunos também conhecessem os laptops.

Uma semana depois, a equipe de pesquisadores ficou surpresa ao voltar à escola e descobrir que os computadores já estavam sendo empregados pelos alunos em atividades na biblioteca. Nesse caso, para elaborar uma planilha com uma relação de livros.

Também foi observado que novas sugestões de atividades usando os computadores podem surgir durante as reuniões entre os professores. Ela citou o caso da professora de educação física do primário que sugeriu o emprego das máquinas no cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) dos alunos. Normalmente, essa é uma atividade considerada chata pelas crianças, mas que, segundo a professora, poderia ser mais dinâmica se eles fossem divididos em duplas, medissem os colegas e depois usassem as máquinas para calcular o IMC.

Em um primeiro momento, os testes realizados pela fabricante de processadores concentraram-se em aspectos de ergonomia e características operacionais do Classmate PC, segundo Eduardo Campoy, especialista de soluções da Intel. Entre os pontos observados está a necessidade de se garantir que rede sem fio funcione sem interrupção. Quando ela não está funcionando, os professores voltam para o quadro negro.

Campoy notou também a redução da evasão escolar após a introdução do computador. Ele atribuiu isso ao fato de os alunos sentirem-se motivados com o uso da máquina.

Ainda segundo o especialista, no segundo semestre deste ano deve entrar em vigor um novo modelo político pedagógico que leve em conta a introdução do equipamento na rotina da escola.

Em Piraí (RJ), os testes com os laptops escolares vão se integrar ao Projeto Piraí Digital, segundo a professora Maria Helena Jardim. A professora fez sua apresentação em parceria com o pesquisador Franklin Dias Coelho (UFF). Ela observou que a prática no projeto é de se discutir previamente com as comunidades envolvidas a introdução dos computadores. Nesse processo, há a preparação de um planejamento e o estabelecimento de objetivos, o que cria um ambiente favorável à chegada dos computadores.

19/7/2007

Publicado em 24 de julho de 2007