Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Mobralteca - A caravana da cultura

Mariana Cruz

Entrevista com José Trabulsi

Um caminhão que circulava por diversas cidades projetando filmes, emprestando livros, espalhando arte por onde passava. Assim eram as Mobraltecas: unidades móveis criadas na década de 1970 com o objetivo de difundir cultura pelos quatro cantos de nosso país.

Apesar das Mobraltecas não existirem mais, iniciativas como esta são sempre boas de serem lembradas. Nesta entrevista, um dos coordenadores deste ousado projeto, José Trabulsi, nos fala um pouco de sua experiência.

Qual a finalidade da Mobralteca?

José Trabulsi: A finalidade era a valorização da cultura local e a descoberta de valores pelas comunidades por onde passava. Era dinamizado o programa cultural com vários sub programas como: literatura, artes plásticas, artesanato, televisão, cinema, musica, patrimônio histórico e reservas naturais, folclore etc.

P.E.P.: Em que época foram criadas as Mobraltecas?

J.T.: Em 1974, foi criada no Rio de Janeiro pelo o Cecult (Centro Cultural do Mobral) a primeira Mobralteca chamada de Santos Dumont, visando a descoberta de valores e a valorização da cultura local. Tinha ainda a finalidade de sustentar o aluno na sala de aula. Como a primeira Mobralteca foi de grande êxito, foram fabricadas mais 5 (cinco) unidades, onde duas foram patrocinadas pela caderneta de poupança DELFIN e uma pela caderneta de poupança PARANÁ. O restante eu não sei.

P.E.P.: O senhor poderia descrever como era fisicamente uma Mobralteca?

J.T.: Era um caminhão com palco, serviços de som, projetores de filmes em 16mm e slides, circuito fechado de televisão, pinacoteca, mais ou menos 3000 livros para serem emprestados às comunidades, baú da criatividade com todas ferramentas para trabalhos de artesanato em coro, madeira, tapeçaria, artes plásticas, crochê, instrumentos musicais e outros. Tudo isso alojado nos seus respectivos lugares para um bom despenho da equipe de trabalho. Tinha ainda, no interior do caminhão, 3 camas, 3 guarda-roupas, banheiro, geladeira, sistema elétrico trifásico.

P.E.P.: Que mudanças o senhor percebia após a passagem da Mobralteca pelas cidades?

J.T.: Muitas pessoas nas cidades por onde passávamos viviam no anonimato (músicos, artesãos, pintores, cantores, repentistas, poetas, dançarinos etc.) e com a apresentação deles na Mobralteca passavam a serem conhecidos e a se apresentarem nas suas e outras comunidades, comercializando seus produtos, ou melhor, vivendo de sua profissão revelada.

P.E.P.: Como era o funcionamento da Mobralteca?

J.T.: Era montado um roteiro de 45 a 50 dias para a realização dos trabalhos a serem realizados de acordo com os objetivos especificados pela coordenação do estado em que a unidade se encontrava. Após a realização dos trabalhos, a equipe da Mobralteca tinha 10 dias de folga e 5 dias para estudo do novo roteiro a ser realizado.Cada roteiro tinha 3 momentos : 1- preparação feita por uma equipe da coordenação e, às vezes, juntamente com a equipe da Mobralteca, sempre a mesma equipe fazia a mobilização dos trabalhos nas localidades a serem trabalhadas; 2- execução dos trabalhos feitos pela equipe da Mobralteca com avaliações diárias; 3 - avaliação geral com a coordenação envolvida e coordenação pólo, isto no final do roteiro.

P.E.P.: Em que regiões do país atuaram as Mobraltecas?

J.T.: As Mobraltecas atuaram na maioria dos municípios brasileiros e em alguns povoados, sendo divididos por REMOB (Região Mobralteca) em número de seis. Rio grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e Maranhão. No meu caso, a minha região era Maranhão, Piauí, Ceará, Pará e Goiás Norte.

P.E.P.: Por que as Mobraltecas deixaram de existir?

J.T.: Assim que o presidente Collor assumiu o governo, para dar uma de bonzão, mandou colocar todos os veículos das fundações em leilão público e neste embalo as Mobraltecas também entraram. Eu fui ver o leilão. Com um pouco de dinheiro tentei arrematar a Mobralteca, mas que nada, não cheguei nem perto. Um político cobriu todos o lances e para o meu constrangimento e frustração saí de lá chorando em ver um projeto tão importante naquele momento ser enterrado para sempre. Vendo aquilo que eu cuidei com tanto zelo, também onde morei por alguns anos.

24/7/2007

Publicado em 24 de julho de 2007