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Andi

Professor Souza

Diário de um professor

Comecei a semana chegando quinze minutos antes de os portões do colégio João Antônio abrirem. A rua estava deserta, com uma leve neblina que, se não fosse pela temperatura um tanto fria, passaria por fumaça saída das torres da refinaria. Das chaminés de aço emanava uma luz mortiça cuja tonalidade avermelhada banhava tudo em volta. Fiquei ali, sentado no meio-fio, esperando, até que uma van veio diminuindo a velocidade e estacionou no acostamento da Rodovia Rodrigues Alves.

Seu Jorge, o porteiro, saltou do automóvel. Numa velocidade sacrificante para a dureza de suas juntas, entrou na rua batida seguindo em minha direção, “Sô Souza”, gritou, “vou deixar a chave com você”, disse, manquejando, “tento chegar na frente, mas estou sempre atrás. Toma”. Levantei-me e peguei a chave da sua mão. Ele olhou para mim com ar de troça e a tomou de volta. “Melhor não. Você ia acabar morando aí”, provocou, adentrando o espaço e prosseguindo até o banheiro dos funcionários.

A sala dos professores estava silenciosa e vazia. Abri meu armário, retirei o diário e depositei ali alguns livros que me seriam úteis durante a semana, mas dispensáveis naquele dia específico. Sentei-me na mesa e comecei a pensar em Andi. Esse menino tem me preocupado continuamente e chegou a hora de dizer o porquê.

Anderson Figueira da Silva foi matriculado no início do ano por uma vizinha. Ela chegou com mais dois filhos dizendo que a avó do menino – responsável por sua criação – estava muito doente e não poderia vir. A anciã também não sabia ler nem escrever, o que impediu a escritura de uma procuração ou qualquer outro documento que responsabilizasse outrem pela matrícula da criança. Um maço de folhas amassadas foi deixado sobre a mesa da secretaria, dentro do qual se encontrava a certidão de nascimento (24/05/1996) e os documentos que comprovavam a sua passagem pelo ensino fundamental numa escola do interior do Espírito Santo. Após breves considerações, Andi passou a integrar o corpo de alunos do Colégio João Antônio. Turma 503.

Logo na primeira semana de aula percebi que Andi não era um aluno normal. Além da pobreza extrema refletida em seu corpo esquálido e frágil, o menino tinha uma personalidade quebrada na intensidade com que experimentava as bruscas mudanças de seu espírito. Por mais que me esforçasse, desde que iniciou o período letivo, nunca consegui chamá-lo integralmente à aula. Oscilava sempre entre uma apatia aérea, desatenta, e uma inquietação extrema que o impedia de ficar sentado na carteira. Constantemente levantava para ir ao banheiro. Antissocial, vivia isolado, quando não estava metido em brigas e arruaças. Frequentemente falava ou ria sozinho. Ultimamente, não vinha comparecendo ao colégio nem mesmo para merendar.

Sentia-me um pouco culpado por sua ausência. Nos últimos tempos, pressionava-o a entregar os trabalhos de casa ou a cópia da matéria ao final das aulas. Seu material escolar, todo doado pelo Colégio João Antônio, estava inutilizado antes do final do bimestre passado. As folhas do caderno, tomadas por rabiscos ininteligíveis e desenhos decapitados, pareciam as paredes de um presídio. Os lápis, canetas e borrachas, roídos. A cada quinze dias tinha de ganhar um novo uniforme, pois não possuía outras peças de roupa para o uso diário.

Semana retrasada, dando aula sobre a Pré-História, comecei a falar dos primeiros hominídeos. As crianças geralmente adoram a matéria. Estimuladas por um mundo bestial, cheio de lagartos gigantes e vulcões em erupção, participam com perguntas e histórias fantasiosas. Pois bem: no momento em que comecei a falar do australopthecus, extinto há quatro milhões de anos, um engraçadinho levantou a mão e disse, apontando para Andi: “Ué, professor, se o homem das cavernas acabou, o quê que ele tá fazendo aqui?” Vinte minutos de gargalhadas ininterruptas fizeram com que Anderson fechasse o semblante e saísse de sala deixando seus parcos pertences sobre a mesa. Esperou do lado de fora o autor da piada, apedrejou-o na cabeça e sumiu na poeira do Grotão do Reino.

O cheiro de café fresco aromatizou a sala dos professores. Não demorou muito para Dona Nute abrir a porta da cozinha e depositar os copinhos de plástico e a cafeteira sobre a mesa. Jussara também entrou, manipulando um molho de chaves como se procurasse alguma peça de quebra-cabeça. – “Bom dia, professor Souza”. Perguntei se ela tinha notícias de Andi, mas a secretária atravessou o cômodo em direção ao depósito, seguida de Carlão, o professor de Educação Física. O Colégio João Antônio começava seu dia.

Na hora do recreio, procurei Ivana. Dei três toques na porta e entrei na sala da direção. Ela estava ao telefone e pediu que sentasse. Ofereceu café. Já esperava que trouxesse até ela as minhas preocupações com o sumiço de Andi. Pretendia ir até o Grotão do Reino procurá-lo e pedi sua opinião. A diretora e amiga balançou a cabeça, dizendo que aquela atitude não cabia aos professores. Também não acreditava que o menino se ausentasse durante muito tempo. Assim que a fome batesse em seu estômago e o frio penetrasse os furos de suas roupas, ele voltaria.

E foi isso mesmo que ocorreu. Na quarta-feira, Andi surgiu do nada. Seu Jorge disse que ele apareceu com um cobertor de estopa sobre os ombros, sem camisa e descalço. Usava somente a calça de moletom laranja do uniforme escolar, suja, imunda. Tiritava de frio e, segundo o porteiro, parecia drogado. Encontrei-o no pátio, já de banho tomado e vestido sob o sol das dez e meia da manhã. Mastigava sofregamente um sanduíche de queijo e presunto e bebia um copo de Coca-cola. Sentei-me a seu lado e tentei conversar com ele. Seus olhos pairavam em um lugar inacessível para mim.

Hoje, sexta-feira, Anderson voltou à sala de aula. Preparei a turma para recebê-lo com carinho e tentei ao máximo contornar o motivo de seu surto. Ao invés de falar da evolução do homem e resgatar o Homo erectus do limbo da História, pedi que desenhassem e nomeassem as plantas, os animais e a paisagem do Pleistoceno. Andi estava sem material para realizar o exercício. Consegui alguns lápis de cera coloridos e folhas de papel ofício na secretaria, mas quando cheguei em aula sua carteira estava vazia. Inquiri a turma sobre o menino e me disseram que saíra minutos antes. Não o achei no pátio. Inquiri seu Jorge, que me garantiu que por ali não passou. “Só se pulou o muro”, concluiu.

Cheguei em casa com um sentimento de impotência, de derrota. Via um ser humano frágil, pequeno e indefeso sendo tragado pelo mundo sem poder fazer muita coisa. Minha samambaia Gabriela flutuava ao lado da poltrona, sustentada por correntes que pendiam do teto. Na penumbra, lembrava os cabelos crespos e armados de uma morena de corpo invisível ou destacável. Poderia encontrá-lo na cozinha, cortando cenouras ou esquentando o meu jantar? Então, iria reconduzi-lo até a sala, atarraxá-lo novamente à cabeça, conversar sobre tudo aquilo que me afligia e ao mesmo tempo me assustava... O absurdo da imagem fez com que me esquecesse um pouco dos problemas antes de entrar no chuveiro e tomar um banho frio, restaurador. Amanhã será um outro dia.

Publicado em 14 de agosto de 2007.

Publicado em 14 de agosto de 2007