Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Gestão popular e democrática

Leonardo Soares Quirino da Silva

Direção de Ciep em Acari envolve comunidade e escola

Entrega dos prêmios da Olimpíada de Matemática Professor Luís Caetano de Oliveira de 2006. Michel Ramos Costa, primeiro colocado entre os alunos do terceiro ano do ensino médio, recebeu o prêmio e agradeceu, de improviso:

— Agradeço a Deus, por ter me dado sapiência, à minha mãe, por ter me colocado no mundo, ao diretor, pela administração do colégio, e à professora, por ter confiado em mim, porque eu não sou tão bom aluno de matemática assim.

A declaração de Michel revela a ponta de um iceberg. A menção ao diretor nos agradecimentos revela a relação que o professor Marcelo Laignier Rolim vem construindo com as comunidades da escola ao longo desses quase três anos à frente do Ciep Rainha Nzinga de Angola.

Recentemente, o trabalho realizado no Ciep foi mais uma vez reconhecido: foi citado por Lúcia Venina, subsecretária de Gestão da Educação, como exemplo de escola que encontrou soluções diferentes para os problemas da educação, em um programa da Rádio CBN.

Qual o foco desse trabalho? Pelo telefone, o professor de Educação Física e diretor resume que tenta viver o que é uma gestão democrática.

Escola e comunidade

Quando assumiu, Rolim começou com uma novidade. Ele convidou as onze lideranças das associações de moradores do entorno para saber o que elas queriam da escola. Um dos líderes presentes disse que essa era a primeira vez que alguém do Ciep procurava a comunidade para perguntar o que eles precisavam. Esse líder, depois, virou um dos colaboradores da escola.

O trabalho junto às lideranças acabou fazendo que o Rainha Nzinga (fala-se ginga) fosse a única escola a receber alunos de todas as comunidades próximas, a despeito da facção criminosa que esteja operando no momento. O segredo? Lembrar o básico, que a escola é de todos e para todos, independente de onde morem.

No Ciep desde a fundação, em 1994, o professor disse que a escola entrou no século XXI vivendo seu ponto mais baixo. Naquela época, o mato crescia e cavalos pastavam dentro do Ciep, que tinha as paredes furadas por balas. Isso levou os membros da comunidade a acreditar que o Rainha Nzinga estava abandonado. Só havia sete turmas em dois turnos.

Nesse ponto, a escola estava para ser invadida. A comunidade não via utilidade naquele prédio. Por quê? Para Rolim, isso se devia ao fato de a instituição não ser percebida como parte da comunidade. Ele lembra que o nome da escola foi escolhido sem consulta à comunidade e que, na época da inauguração, nem o secretário da Educação sabia quem era a homenageada.

Ademais, em uma comunidade tão pobre, a construção de um prédio como o Ciep era percebida como “se alguém tivesse transplantado o Golden Green para Acari” nas palavras de Rolim. A construção destoava do entorno. Para entender a situação do Ciep em relação à sua vizinhança, basta lembrar que, entre os bairros da cidade, Acari é o que apresenta o terceiro pior resultado na avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ficando à frente apenas de Costa Barros e do Morro do Alemão.

Partindo do princípio de que a escola é da comunidade e feita para os alunos, o diretor buscou envolver todos com a instituição.

Os resultados dessa política se fazem sentir. Em maio, todo o material audiovisual da escola foi levado por uma quadrilha especializada em furtar equipamentos de escolas. A reação das associações comunitárias foi se comprometer com o diretor para a construção de um muro em volta do Ciep. Segundo Rolim, durante a reunião os líderes comunitários disseram que a obra é importante para evitar que “essas quadrilhas venham e levem nosso patrimônio”. O pronome possessivo nosso faz toda a diferença para uma instituição abraçada pela comunidade.

Envolvimento

A indignação com o roubo também levou uma das facções da área a tomar a iniciativa de fazer a segurança nos acessos à escola. O problema é que os alunos de outras comunidades, controladas por outros grupos, acabaram deixando de ir à escola. O impasse foi resolvido depois.

Aliás, com relação ao muro, a única condição imposta pelo diretor é que ele não seja erguido com dinheiro do “movimento”, forma pela qual os moradores de comunidades costumam se referir ao tráfico de drogas.

Outra reação relevante foi a do ex-aluno Cristiano Figueiredo, que passou a dormir na escola para evitar novas invasões.

Além de se oferecer como vigia, Cristiano implantou, com o apoio da escola, o projeto Vivendo e Aprendendo. Ex-traficante e preocupado em evitar que outros jovens se envolvam com o crime, ele criou o projeto para ocupar e oferecer alternativas para jovens de nove a 16 anos. Ele percebeu que é nessa faixa etária que as pessoas são recrutadas pelas facções.

Dentro do projeto, os alunos recebem aulas de reforço, participam de atividades extracurriculares, como o coral da escola, almoçam e lancham com os alunos do ensino médio e, em breve, devem receber aulas profissionalizantes.

O que levou esse jovem a criar esse projeto? O nascimento do primeiro filho. Ao não desejar para a criança o mesmo destino que teve, Cristiano resolveu abandonar o crime para dar um bom exemplo.

No momento, o diretor Rolim se preocupa em como conseguir recursos junto a ONGs para financiar o projeto de Cristiano.

Antes, ele conseguira que a ONG Associação de Voluntários do Exército do Bem – Aveb – passasse a atuar na região. A Aveb busca recursos junto a empresas e a pessoas; com esses meios, faz doações de eletrodomésticos, brinquedos e roupas para famílias da região atendida pela escola.

O contato com a associação foi fácil, pois a irmã de Rolim participa do grupo. O que ele fez foi chamar a atenção da ONG para os graves problemas que existem na cidade. Segundo ele, a comunidade Terra Nostra, em Acari, tem o menor IDH da América Latina. Com isso, trouxe as atividades da Aveb para a região. Antes, os projetos da ONG estavam voltados para o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.

Outra atividade apoiada pela escola é uma oficina de kung fu que recebe pessoas do entorno. O material didático – sacos de areia e luvas – foi comprado com recursos da escola. O professor? Voluntário.

Rolim está planejando, para quando conseguir novo equipamento de audiovisual, fazer um cinema comunitário. A ideia é que os moradores escolham os filmes, que devem ser exibidos aos sábados.

Aliás, nos fins de semana, a escola já é da comunidade. A quadra e o vestiário são usados pelos moradores que ficam com a chave, entregue na segunda.

“Você é maluco?” é um dos comentários que Rolim costuma ouvir quando conta isso, mas, como ele mesmo diz, se as pessoas forem responsáveis, como têm sido, não há problema. Há um acordo explícito com os usuários: as instalações devem ser mantidas em condições para as aulas da escola; caso contrário, não tem mais quadra nem vestiário para o futebol dos sábados e domingos.

Rolim pretende ampliar o uso das instalações nos fins de semana, com a construção de uma área para as crianças.

Como ideias não faltam e, aparentemente, capacidade para pô-las em prática também não, Rolim fala da implantação de uma horta comunitária. Para quê? Para fornecer legumes e verduras, tanto para a escola quanto para a comunidade.

Bom, essa horta vai atender a quantas pessoas? Segundo o diretor, antes do recesso de julho a escola tinha 790 alunos; agora ele ainda precisa fazer as contas. Ele explicou que, após as férias de meio de ano, muitos alunos saem da escola. “Se você deixar, o aluno só volta no fim do ano”, declarou.

Para resolver essa evasão de meio de ano e outras, em 2005 foi criado o grupo de visitadores, formado por alunos que se oferecem para tentar convencer os colegas a voltar aos estudos. Tem funcionado, segundo Rolim.

O problema, como ele mesmo aponta, é que, por vezes, os alunos faltam porque conseguiram um emprego de horário integral. Nesse caso, o grupo tenta convencer o colega a se transferir para uma escola próxima do local de trabalho, de forma a não interromper seus estudos.

Sujeito homem

Instalada em região com o antepenúltimo IDH da cidade, naturalmente a escola sofre com problemas de violência. Para o diretor do Rainha Nzinga, ao invés de ficar reclamando da violência, seus colegas deveriam ir resolver os problemas pessoalmente. Ele fala com a autoridade de quem faz o que diz.

Por exemplo, no dia seguinte à reforma, o vestiário foi pichado. A indignação dos alunos e dos moradores levou à rápida identificação dos responsáveis. A comunidade escolar queria a expulsão dos colegas. O diretor argumentou que aquilo não era solução, pois o papel social da escola é integrar. O consenso foi obrigar os alunos a repintar a parede pichada.

Outro exemplo? A disciplina em sala de aula é resolvida pelo diretor. Segundo ele, todos os professores têm instruções para procurá-lo quando tiverem problemas na sala de aula. Ele vai resolvê-los diretamente com os alunos.

Soluções administrativas

Apesar dessas histórias, o diretor diz que não tem problemas com violência, e sim com os funcionários. Dos 42 servidores lotados na escola, apenas 20 estão trabalhando efetivamente, sendo que a grande maioria tem mais de 50 anos. Os outros estão no gozo de licenças legais.

Como segurar os que ficaram e garantir os serviços básicos da escola? A solução foi implementar a autogestão dos serviços, o que implica que o diretor controle o resultado final. Como os funcionários se organizam para prover os serviços de secretaria, merenda e limpeza não interessa, desde que não haja falhas. O resultado foi ter funcionários mais satisfeitos.

Essa satisfação com o trabalho se reflete na merenda. Uma vez por mês tem estrogonofe ou feijoada de verdade. Esse feijão, ainda que não seja o da tia Vicentina, encantou os membros da Portela a ponto de alguns dizerem que queriam estudar lá. A escola de samba se apresentou na Feira Pan, um dos eventos organizados no Ciep.

Rolim adverte, contudo, que não se deve pensar que a escola é lá essas maravilhas. Talvez ele tenha razão. Apesar de, segundo o diretor, ser a escola da América Latina com maior número de álbuns no Orkut, o Rainha Nzinga ainda não tem conexão em banda larga.

Publicado em 28/08/2007.

Publicado em 28 de julho de 2007

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.