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O mundo não se move

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Crônicas filosóficas

A ideia de que o movimento do mundo (e com isso a temporalidade) é uma ilusão acabou por estimular vários filósofos da chamada escola eléatica (de Eleia, cidade de Parmênides) por volta de primeira metade do século V antes da era comum. Naquela época, a Grécia estava ressurgindo de um período bastante conturbado, chamado de “idade média grega”; que se seguiu à invasão dos povos dórios, por volta do século X. Por quase quatrocentos anos o povo grego viveu num regime de clãs, tribos familiares, longe da vida urbana e da escrita. No período em que Parmênides apareceu com sua ideia de imobilidade, a civilização dos gregos estava se reconstruindo. As bases dessa reconstrução estavam em duas ferramentas importantes: as cidades e a escrita. Foi justamente nesse universo em reconstrução que as ideias de Parmênides foram disseminadas por discípulos como Zenão, com sua famosa experiência de pensamento chamada Aquiles e a Tartaruga.

Experiência de pensamento (Gedankeserfahrung) é o nome que os alemães usam para designar algumas histórias que os filósofos contam como forma de elucidar as suas ideias e, ao mesmo tempo, reforçar seus argumentos. A mais famosa, nos dias de hoje, foi a experiência de pensamento do “cérebro numa cuba” de (se eu não me engano) Hilary Putman, que deu o mote para a rapaziada psicodélica de Hollywood escrever o roteiro da série Matrix.

Mas, voltando à Grécia do século V antes da era comum, o tal Zenão, discípulo de Parmênides, imaginou uma experiência de pensamento para justificar as ideias que seu mestre havia desenvolvido no poema Sobre a Natureza (posteriormente eu vou falar um pouco sobre esse título). Na historinha de Aquiles e a Tartaruga, Zenão imagina uma corrida esdrúxula entre o herói Homérico e uma tartagura, no melhor estilo do finado Papa Léguas, da Warner Bros. Zenão afirma que, nessa corrida, se a tartaruga saísse com uma vantagem de 50 metros em relação à Aquiles, nosso herói, matematicamente, jamais a alcançaria.

Loucura? Mais ou menos. A ideia é que, se uma distância X divide um corpo (A) de um corpo (B), e o corpo (A), após certo tempo, avançou até metade do caminho, ainda faltarão 50% da distância para que (A) encoste em (B). Se (A), alguns segundos depois, avançou até metade desses 50% que faltavam, ainda vão faltar mais 50% da metade que sobrou. Isso vai continuar assim para sempre. Sempre vai faltar uma metade para se chegar a algum lugar. Ou seja, do ponto de vista de uma lógica estritamente matemática, a gente nunca chega a lugar nenhum.

Calma. Não se apavore. Você não voltou para o primeiro ano do ensino médio nem eu sou aquele seu professor de Física que protagonizava seus piores pesadelos discentes às vésperas da semana de provas. Na verdade, o que Zenão tentou demonstrar com sua experiência mental era que, a despeito de sentirmos que estamos nos movendo, do ponto de vista estritamente lógico (ou pelo menos seguindo uma lógica que Zenão e os seguidores de Parmênides consideravam pertinente) nada acontece.

Ou seja, Zenão transformou numa experiência matemática aquilo que Parmênides havia descrito através de um poema. Esse é um elemento significativo acerca da Filosofia e que, de um modo ou de outro, eu já havia discutido em outra crônica.

A Filosofia transita entre a Matemática e a Literatura, tecendo uma tapeçaria desses dois mundos. Eu, coitado, entrei para o mundo da Filosofia pelo lado da Literatura. Por isso demorei ainda alguns dias pensando na história de Aquiles e da Tartaruga para poder entender o sentido da piada. Por isso, não precisa ficar irritado, amigo leitor, se você não conseguiu também entender o sentido dessa pequena anedota de filósofo.

Talvez você esteja como eu, no partido da literatura; ou seja, sem saber, você pode ser um discípulo de Heráclito, um outro desses estranhos filósofos que, dois mil e quinhentos anos atrás, resolveu pensar sobre o movimento, o tempo e a morte.

Publicado em 18/09/07

Publicado em 18 de setembro de 2007