Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Em matéria de educação, precisamos voltar a 1870

Luiza Barreto Leite

Especial: Memória da Educação

DECLARAÇÕES DO EDUCADOR ANÍSIO TEIXEIRA

Discutir o problema da educação no Brasil sem ouvir Anísio Teixeira é o mesmo que fazer pesquisas sobre nossa música ignorando Villa-Lobos. Ambos conseguiram o milagre de se transformar em símbolos sem jamais haver sido medalhões e continuar progredindo mesmo depois de atingir o “clímax”. Não há linha descendente para o homem que adaptou os nossos velhos métodos de ensino ao mais moderno sistema pedagógico que orienta o mundo. No Distrito Federal e na Bahia, tudo que há de novo, bom e inteligente se deve à administração Anísio Teixeira. É um desses baianos que faz a gente acreditar que o Brasil não foi descoberto em Salvador por acaso e sim por uma determinação do destino, para que se soubesse que lá estavam as nascentes da nossa personalidade nacional. O fato de haver sido chamado pelo Sr. Simões Filho, outro professor baiano, para fazer um levantamento de todo o ensino no Brasil e apresentar sugestões para suas novas diretrizes basta para credenciar as boas intenções do novo ministro da Educação, pois o professor Anísio Teixeira pertence à estirpe daqueles cuja presença dignifica os cargos públicos. Nosso entrevistado sabe que a função de um verdadeiro mestre é esclarecer, por isso não se nega jamais a receber quem o procura e muito menos a conversar com os repórteres. Esta é, pois, a primeira de  uma série de três entrevistas, que sairão em sequência, pois os assuntos, ainda em estudos ou reestudos, só serão ventilados no momento oportuno.

Nesta primeira entrevista, o modernizador do nosso ensino procura fazer um apanhado do nosso panorama como nação, explicando por que continuamos no ar em todas as coisas:

— Entre 1870 e 1910 foram estabelecidos, no mundo civilizado, os fundamentos da Pedagogia moderna, da educação democrática e popular, que outra coisa não é senão a base desse mesmo mundo. A civilização ocidental é a civilização baseada na ciência e na democracia. A ciência já nos deu os meios de governar o mundo físico e produzir a riqueza necessária ao bem-estar humano. À democracia cabe dar-nos meios de governar os homens com justiça e sem que os poucos explorem os muitos. Uma civilização assim deve, necessariamente, ser construída sobre os alicerces das instituições educativas. Da educação dependem diretamente a ciência e a democracia de um país. Se as escolas elementares derem a todos o mínimo de conhecimentos indispensáveis para que um homem seja um ser humano, teremos a democracia, que é o regime de governo de todos para todos e não de alguns para alguns. Se após essa base as escolas secundárias e superiores redistribuíssem os indivíduos mais capazes dessa massa já educada pelas diferentes ocupações semiespecializadas e especializadas que constituem o quadro de ocupações de uma civilização moderna, teremos produção e ciência e, com produção e ciência, bem-estar e progresso.

A CIVILIZAÇÃO MODERNA NÃO É DA MAQUINA, E SIM DAS ESCOLAS

— Sabe por que o Brasil não consegue resolver nenhum de seus problemas? — perguntou o mestre da educação. — Simplesmente porque ainda não resolveu esse problema básico. Como todos os países civilizados já o solucionaram, entre fins do século passado e começo deste, o Brasil, pouco habituado a seguir rumos próprios, quis saltar a cerca, entrando no futuro sem percorrer o passado. Não compreendeu que a máquina fundamental da civilização moderna não é a das fábricas, nem a dos campos, mas a das escolas, com a qual se fabricarão e movimentarão todas as demais. Sem a primeira as outras não funcionam ou funcionam errado. Mas a educação, já não é hoje apenas a solução retardada em cinquenta anos do nosso problema básico, é também um problema de ordem, agudo e urgente.

O BRASIL OU SE EDUCA OU EXPLODE

E continuou, sem parar:

— As condições atuais do mundo exigem o progresso material do Brasil e nós aqui estamos, procurando atingi-lo desordenadamente, desigualmente, inesperadamente, como autômatos. A dinâmica desse progresso fará explodir o Brasil, se não a fizermos acompanhar da força estabilizadora da educação. A civilização ocidental, abalada em suas raízes, tem se mostrado capaz de sobreviver à confusão que domina o mundo de 1914 para cá, atravessando a angústia, o medo, a guerra, a peste e o fascismo, suportando a tragédia de 1938, para chegar a 1952 com um magnífico espírito de recuperação, porque suas raízes eram sólidas e tinham como fundamento a educação e a formação do individuo. O Brasil, que não viu nem sofreu diretamente nenhum desses problemas – ao contrário, em muitos casos agiu como um aproveitador de despojos – hoje está em pior situação do que qualquer dos paises devastados e precisa ser “recuperado” como aqueles que mais sofreram. Tudo isso simplesmente porque estamos vivendo fora da realidade e nos negamos a compreender o único problema intransferível que possuímos: o da educação.

— Qual deveria ser, na sua opinião, o rumo a tomar?

— Não tenho receitas para o caso e creio mesmo que não existem. Pelo menos receitas premeditadas, armadas como um diagrama. O que há é um grande quebra-cabeça que é preciso resolver, custe o que custar. Creio que tudo deveria ser começado por uma gigantesca propaganda do governo, criando um clima favorável à educação e explicando ao povo por que dará prioridade absoluta a todos os seus setores. Estabelecida essa hierarquia para as escolas, tudo o mais será consequência. Tenho certeza, de que, uma vez deflagrado, esse movimento educacional não mais se deteria e poderíamos assistir ao nosso desenvolvimento sem os sustos e apreensões com que vemos hoje o próprio progresso brasileiro, tão cheio de iniquidades e perigos. Seria então o começo da nossa civilização.

Publicado em O Mundo, em 1952.

Publicado em 25 de setembro de 2007