Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Eu finjo que ensino e vocês fingem que aprendem!

Ariosto Mesquita

Apesar dos gritos tradicionalistas, a lousa e o giz vão gradativamente perdendo seus históricos espaços na educação, do ensino básico ao superior. Trata-se de uma regressão? Evidentemente que não. Do antigo sistema, em que o professor era a autoridade máxima e inconteste, o dono da verdade (algumas vezes de competência duvidosa) e o carrasco das provas de final de mês, muita coisa está e será mudada para adaptar a educação aos novos elementos tecnológicos e a um novo perfil da criança e do adolescente. É bom lembrar: a geração que hoje está cursando os ensinos fundamental e médio convive com a cybertecnologia desde o primeiro dia de vida. Eles não conseguem dimensionar o mundo sem a informática, por exemplo.

É bem verdade que o primeiro passo de mudanças efetivas na educação contemporânea surgiu a partir das décadas de 60 e 70 do século passado, quando os educadores apontaram para a necessidade de o estudante ser um indivíduo ativo dentro do processo da educação, ou seja, que não ficasse apenas como agente receptador de informação advinda de um número limitado de fontes. Surgiram, nessa época, novas propostas pedagógicas apoiadas em ideias de Jean Piaget e Paulo Freire, dentre outros. Assim, as escolas ganharam mais democracia e liberdade. Abolia-se, felizmente, o recreio separado, o quarto escuro e a vara de marmelo (é verdade! Isso existiu sim!).

Décadas depois, uma nova geração surge, com um novo perfil comportamental, e exige da escola uma nova postura educacional. A sala de aula e todo o colégio passam (ou deveriam passar) a ser uma estrutura voltada para a formação do caráter e da cultura geral do estudante. Isso se faz necessário em função dos parcos ensinamentos e orientações hoje recebidos no próprio lar, de maneira geral. Antes exclusivamente dedicada à casa e aos filhos, a mãe hoje também ocupa o mercado de trabalho ao lado do pai, diminuindo seu contato com os rebentos. Quando, enfim, estão juntos, os pais evitam impor algumas regras básicas, fazendo com que o aluno, na escola, tenha dificuldades em perceber seus limites de ação em sociedade.

Por outro lado, não é mais importante o estudante encontrar um conteúdo de pesquisa (a Internet oferece isso aos turbilhões), mas sim fazer com que ele desenvolva critérios de seleção desse material, graças a um espírito crítico e comparativo. E não apenas isso! Fazer com que ele expresse, em grupo, o resultado de sua pesquisa vai dar a ele autoconfiança e permitir, ao mesmo tempo, a socialização de seu conhecimento.

A visão estereotipada do professor tradicional vai dando, aos poucos, lugar à figura do facilitador de assimilação de conhecimentos. A ele cabe principalmente instruir um grupo a  fazer sua triagem diária dos dados que recebe a todo instante. Diante da contínua tempestade de informações estimulada pelo desenvolvimento tecnológico, saber o que é melhor assistir na TV por assinatura, na Internet, no DVD e nos livros é condição determinante para a moldura cultural do indivíduo.

No entanto, o excesso dessa postura pode gerar um "facilitador passivo", reduzindo suas responsabilidades no ensinamento e revelando sua incompetência (ou comodismo), ao mesmo tempo que o aluno se acomoda a essa situação. É como se pudesse dizer: "eu finjo que ensino e vocês fingem que aprendem!". Todavia, essa postura é facilmente desmascarada (ou, no mínimo, identificada) no ensino médio e superior.

Promover a interação dos estudantes com os profissionais no mercado de trabalho é fundamental para formatar uma visão mais próxima da futura profissão para o acadêmico. No entanto, sistematizar esse procedimento como uma ação semanal ou quinzenal acaba transferindo a responsabilidade das aulas para os convidados. O professor está ganhando sua hora/aula e o convidado é quem efetivamente trabalha.

É a mesma coisa de em toda aula exibir um filme ou exigir apresentações constantes de seminários sem qualquer orientação técnica ou avaliação. Ou mesmo fugir inteiramente do conteúdo programático exigindo a leitura sistemática de livros de autoajuda em disciplinas técnicas de cursos dinâmicos como Administração, Propaganda, Jornalismo, Turismo ou Educação Física.

Aprofundar a qualidade de informações assimiladas através do estímulo aos debates e do esclarecimento das dúvidas é atividade característica do novo "facilitador de conhecimentos". Entretanto, a prática ainda está muito distante da grande maioria das salas de aula brasileiras. Principalmente se pensarmos que parte da população em idade escolar ainda sonha em ter acesso ao velho sistema do giz e da lousa.

Publicado em 25 de setembro de 2007.

Publicado em 25 de setembro de 2007