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Prática Exploratória: a importância dos "porquês"

Mariana Cruz

Por que os alunos não prestam atenção? Por que os alunos gostam de mim? Por que meus alunos de inglês traduzem os textos ao pé da letra? Por que os alunos não gostam de fazer dever de casa? Por que os professores gritam em sala de aula? Por quê? Por quê? Por quê?

Talvez algumas dessas perguntas e tantas outras que habitam o cotidiano escolar já tenham passado pela cabeça de grande parte dos professores, mas a quantidade de atribuições que esses profissionais têm – preparar e corrigir provas, planejar aulas, trabalhos, atividades, sair correndo de uma escola para outra – torna difícil encontrar tempo para fazer uma reflexão mais profunda sobre tais questões. Com isso, a angústia permanece, outras dúvidas surgem e continuam sem resposta, a qualidade das aulas não melhora, os alunos seguem desatentos, os professores gritando, os deveres de casa não sendo feitos. Ou seja, nada muda, exceto as queixas nas salas dos professores, que aumentam.

Foi observando essa dificuldade de comunicação entre alunos e professores que o acadêmico Dick Allwright, da Universidade de Lancaster (Inglaterra), percebeu a importância desse tipo de postura questionadora em relação a tudo que acontece em sala de aula.

Em 1991, Allwright veio ao Brasil como consultor da Cultura Inglesa, a fim de ensinar os professores a pesquisar. Em suas visitas às filiais, encontrou professores cheios de dúvidas: “por que os alunos falam português em vez de inglês em sala de aula?”, “por que minhas aulas não empolgam?”. Tais questões serviram de estímulo para a criação da Prática Exploratória.

Hoje a Prática Exploratória está sendo difundida em vários lugares do mundo, mas tem no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, seu lugar de maior expansão. Inúmeros professores da rede particular e pública já estiveram em contato com a Prática Exploratória e muitos integram o Grupo da Prática Exploratória do Rio de Janeiro, que se reúne periodicamente na PUC-Rio e organiza cursos, oficinas e o Evento Anual da Prática Exploratória, com o apoio do Departamento de Letras da PUC-Rio.

Leia a seguir uma entrevista com uma das primeiras pessoas a trabalhar com a Prática Exploratória no Brasil, a coordenadora de graduação do departamento de Letras da PUC-Rio, Inês Miller. Mais adiante, duas professoras da rede estadual de ensino, Ana Paula Silveira e Silveira e Iacy Santos, relatam suas experiências em sala de aula (e fora dela) com a Prática Exploratória.

Educação: O que é a Prática Exploratória?

Inês: É uma forma de ensinar e aprender, é uma forma de estar em sala de aula que permite expandir aquilo que a gente normalmente já sabe. Os alunos, professores, o ser humano tem consciência, noção do que está acontecendo intelectualmente, psicologicamente, nas suas interações com o outro, mas quando os professores e os alunos ficam motivados por uma questão, quando se foca esse ‘estar em sala de aula’ em torno de alguma questão, essa convivência fica mais intensa, aguçada, atenta.

Há alguns anos, já temos visto que esse tipo de atitude mais atenta, mais reflexiva, pode ser ocasionada fora de sala de aula também, em outros contextos profissionais. É uma forma de prestar mais atenção no que se está fazendo. Um diferencial interessante da Prática Exploratória é que essa busca que poderia ser vista como uma pesquisa; não é uma busca solitária, ela é realizada idealmente, ela é mais frutífera quando envolve todo mundo. Quando o professor tem uma questão, “por que os alunos não prestam atenção?”, e faz algum tipo de reflexão sozinho, é um momento em que não há troca, mas isso pode ir num crescendo e chegar à ocasião de propor essa pergunta aos alunos, mas isso depende de cada professor, de cada aluno, de cada contexto. Uma coisa que a Prática Exploratória não é é uma receita, um modelo. A Prática é uma forma de agir, de estar; por isso ela não é só restrita à sala de aula.

Educação: Por que a Prática Exploratória sempre parte de questões?

Inês: As questões são a forma que faz com que essa postura de ficar em sala de aula se torne mais clara. Muitas vezes os professores que participam das nossas oficinas, ao começarem a entender um pouco da Prática, pensam que estamos fazendo filosofia, talvez devido a essa aceitação da incerteza. Um grande diferencial da Prática Exploratória é que ela não veio trazer soluções, nem verdades, não diz “faça assim!” É sempre a partir da pessoa, dando valor às questões das pessoas. É muito legal e fascinante ver as questões que os alunos têm, de tudo quando é tipo; assim, cada aula é diferente. O caminho que uma pergunta com o “por quê” traça é diferente de uma pergunta feita com o “como”. “Por que os alunos não fazem dever de casa?” A partir daí vão vindo outros “por quês” e novos caminhos vão se abrindo. E a maneira de buscar as respostas são as mais variadas: o aluno vai conversar com os colegas, com outros professores, pesquisar. Nessa questão do dever de casa, por exemplo, os professores descobriram que mais pessoas faziam dever do que se pensava, apesar de muitas fazerem por mera obrigação, para ganhar pontos com o professor. Aí surge outra questão: “O que é o dever?” O ideal é essa forma indutiva. Essa verbalização e conversa sobre isso tudo abre espaço para debater tais questões, que são bem importantes.

Educação: O que a Prática Exploratória modifica na relação professor-aluno?

Inês: A gente tem visto que os assuntos são questões de vida. Quando Allwright escreveu seus primeiros textos, o foco era sempre ensinar o aprender, a interação. E o que ele notou foi que o pesquisador e os alunos são os únicos caras que estão querendo entender o que está acontecendo, e o professor só fica dando aula. Então tem que ter uma forma de engajar esse professor também no entendimento. Talvez esses alunos e professores que convivem em sala de aula precisem entender o que está acontecendo naquela sala de aula. O que está acontecendo com eles enquanto professores, aprendizes, conhecedores da língua, da cultura, das relações em sala, da atualidade. As questões que as pessoas têm levantado, principalmente os professores, são questões que não estão no currículo, são questões sobre o relacionamento com alunos: "por que eu não conheço o aluno?". São coisas subjetivas, muitos entendem logo porque são questões afetivas e fundamentais. Nesse trabalho de mais de 10 anos da Prática Exploratória no Rio, desenvolvido em parceria constante com minha colega Maria Isabel A. Cunha, do CAp-UFRJ, fomos vendo que as questões que os professores colocam eram todas desse tipo. Eram mais sobre qualidade da vida em sala de aula do que sobre trabalho, rendimento, resultado, produção.

Educação: De que maneiras é possível iniciar a Prática Exploratória em sala de aula?

Inês: Pode ser um processo iniciado pelo professor, em que ele pode trabalhar através de uma APPE (Atividade Pedagógica com Potencial Exploratório). Se o professor quer entender por que os alunos não o respeitam, pode inventar uma atividade em que eles sejam os professores e o professor fica observando para ver se capta alguma coisa. O professor pode, simplesmente, colocar sua questão para os alunos ou perguntar que questões eles têm, dirigir esse questionamento de cada um. Essa atitude é contagiante, você faz eles pensarem. E quanto mais isso ocorre mais estimulados a pensar eles ficam. Tanto o professor quanto o aluno, ao entrar nesse movimento, nesse fluxo, passam a trazer cada vez mais coisas. A Prática Exploratória é um espaço discursivo, é um espaço diferente em sala de aula, o professor não tem a resposta. Certa vez os alunos disseram que só de formularem as questões eles já estavam mais relaxados, mais tranquilos, foi um desabafar. Às vezes não é a resposta, mas a pergunta que já traz uma certa calma. Muita gente não tem coragem nem de fazer essa primeira pergunta, sentem que pode doer, podem se magoar. É muito bom trabalhar com essa geração de escola pública aqui do Rio. Eles perguntam de tudo, acharam um espaço seguro onde eles podem falar o que talvez não tenham espaço para falar em casa. São questões que não são de sala de aula, são de vida, ultrapassam a sala de aula. Deixar o aluno colocar suas questões é tentar fazer com que essa nova geração tenha uma postura mais reflexiva, crítica, democrática.

Ana Paula Silveira é professora de Inglês dos Colégios Antonio Houaiss e Francisco Jobim, da rede pública.

Educação: Com que elementos a Prática Exploratória trabalha?

Ana Paula Silveira: Em Inglês a gente fala dos puzzles, que são os porquês da prática, do dia-a-dia, da relação da gente com os alunos, pois a Prática não é uma coisa só dos professores, é dos alunos também, são “alunos & professores”. Existe um grande intercâmbio para tentar entender a questão colocada. A Prática Exploratória não quer encontrar uma solução, e sim um melhor entendimento, que vai ser buscado dentro de um exercício, de uma conversa. Os alunos vão pesquisar, entrevistar, fazer cartazes. A Prática Exploratória trabalha muito com pôsteres. Não é que toda vez que você investiga que tem de fazer um pôster. Mas é uma maneira de visualizar que se tornou comum na Prática Exploratória, tanto que, quando você vai a congressos ou encontros que tenham alguma coisa sobre a Prática, geralmente existem as posters sessions, que são os resultados ou o começo daquela pesquisa. A pesquisa é o processo, é uma coisa continuada, não tem fim. Os pôsteres mostram aquilo que você viu, o que você entendeu, como professor e aluno entenderam aquilo, como eles entenderam aquele puzzle. Por ser um processo, pode-se continuar a pesquisa com os alunos no ano seguinte ou eles usarem na vida deles. Não tem uma conclusão.

Educação: O que a Prática Exploratória trouxe de diferente para você?

Ana Paula Silveira: Para tudo que acontece agora eu fico pensando: “por que está acontecendo isso?”; “Eu vou tentar entender isso junto com os alunos”. Para mim está sendo muito bacana.

Educação: A Prática Exploratória é dirigida aos estudantes e professores de alguma determinada disciplina?

Ana Paula Silveira: Qualquer professor pode trabalhar com a Prática Exploratória, tanto que nesses congressos grandes sempre aparecem trabalhos feitos com diversas disciplinas: Inglês, Matemática. A Prática Exploratória é a coisa mais simples que tem, por isso eu gosto dela. Não tem idade, pode-se trabalhar com crianças, adolescentes, adultos, alunos de escola pública, particular, estudante de mestrado. É buscar entender melhor aquilo que está acontecendo. Você ouve o aluno: “por que acontece tal coisa?” E, na mesma hora, pode conversar como ele: “por quê? Vamos investigar isso? O que a gente pode fazer?” Aí eles vão pesquisar, vão fazer como acharem melhor. Com as respostas, eles muitas vezes tomam consciência. Às vezes você vê respostas que nem imaginava que o aluno poderia pensar. É muito interessante.

Iacy Nunes de Oliveira Santos professora de inglês dos Colégios Antonio Houaiss e Frederico Fellini, da rede pública.

Educação: Como você conheceu a Prática Exploratória?

Iacy: Conheci a Prática Exploratória quando era professora de inglês no Senac, e lá começou um trabalho em parceria com a PUC-Rio, coordenado pela Inês Miller e a Bebel (Maria Isabel Cunha). Elas levaram a ideia da Prática Exploratória e eu fiquei impactada com tudo aquilo. Algumas coisas eu até já fazia intuitivamente, mas não com o conhecimento específico de que aquilo era Prática Exploratória; a partir daí, minha vida profissional mudou.

Educação: O que aconteceu?

Iacy: Levei muito dessa experiência para o Senac e trouxe também para rede pública; na rede pública representou um ganho muito grande para mim, porque comecei um projeto de intercâmbio cultural a partir da pergunta de uma aluna, de um puzzle proposto por uma aluna: “por que aluno da escola pública não tem contato com nativos da língua inglesa?” A partir desse puzzle, comecei a investigar. E ela trouxe uma família de americanos para conversar. Juntos, eu, essa aluna, o grupo de alunos do Frederico Fellini e essa família de americanos tentamos responder a isso e fomos aprofundando essa questão: “por que alunos de cursinho, escolas particulares têm acesso mais direto à cultura americana, a falantes de língua inglesa do que os alunos da rede estadual?”. A partir daí houve maior motivação para estudar e aprender o idioma, quer dizer, a partir de um puzzle comecei um projeto de valorização da língua inglesa, foi inclusive o tema da minha monografia da pós-graduação, e trouxe esse projeto também para minha outra escola, a Antonio Houaiss. A culminância foi há uns dois anos, com a vinda desses americanos para lá; a escola ficou mobilizada, criamos um blog que existe até hoje. Isso é apenas um exemplo de uma pergunta que gerou toda essa transformação pessoal e profissional. O puzzle surge a partir de uma coisa que incomoda, que você não sabe como resolver. O incômodo, a inquietação aparece aí no sentido positivo, buscando não simplesmente resolver essa questão, mas entendê-la.

Educação: Qual o objetivo da Prática Exploratória?

Iacy: Na Prática Exploratória, o objetivo é buscar o entendimento dessas questões. É buscar a qualidade de vida em sala de aula, um bem-estar entre professores e alunos. A partir do momento em que você traz para investigação as questões que estão ali em sala de aula incomodando, você faz várias descobertas. Professores e alunos passam a se descobrir. Você passa a ter maior interação com os alunos e ocorre, no processo, uma melhora da qualidade de vida.

Educação: Como você se vê antes e depois da Prática Exploratória?

Iacy: Hoje eu sou uma pessoa muito mais questionadora, investigativa, tudo me chama atenção em sala de aula, desde uma lâmpada que não acende até o aluno que é muito solicito. “Por que ele tem esse tipo de comportamento? O que está acontecendo?” E eu procuro passar isso para os alunos e contagiá-los também.

Quanto mais nós desenvolvermos uma relação de interação com o aluno buscando melhora da qualidade de vida, melhores aulas você terá. A Prática Exploratória acaba influenciando na vida pessoal. Eu tenho uma filha de 5 anos e desenvolvo com ela essa relação exploratória. Sempre pergunto a ela: “Por que está assim? Por que está assado? Por que está desse jeito? Por que está de outro?” Acho que assim ela pode se tornar uma jovem, uma cidadã mais consciente dos problemas da sociedade, pode não resolver todos os problemas que estão sendo dados, mas vai entender melhor o mundo que a cerca.

Para saber mais sobre Prática Exploratória, leia:

Publicado em 9 de outubro de 2007.

Publicado em 09 de outubro de 2007