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Livros deixados em locais públicos

Mariana Cruz

O mundo está repleto de poesia, basta saber procurá-la. Pode estar em um pôr-do-sol, no voo de uma gaivota ou em uma frase perdida escrita em algum muro. No Rio de Janeiro, há um tempo atrás viveu um poeta-profeta, o Gentileza, que pintava frases enigmáticas nos muros da cinzenta região portuária, presenteando o carioca com pitadas de sabedoria. Quantas pessoas podem ter se poupado de uma inútil discussão ao se lembrar de aforismos como “Gentileza gera gentileza”, do mítico escritor de muros?

E se nas ruas, além de tais frases, fossem encontrados livros inteiros? Não são poucas as pessoas que desejam se desfazer dos livros velhos que têm em casa mas nunca têm tempo de ir a um sebo vendê-los. E caso consigam um espaço na agenda para despachar as velhas brochuras, surge uma série de aporrinhações: carregar um monte de livros, se dirigir ao estabelecimento com aquele peso, esperar a avaliação do livreiro, vender por um preço irrisório (muito abaixo do que pensou que valeria) e ainda correr o risco de trazer os exemplares rejeitados de volta para casa. Vale a pena o sacrifício? Será que não teria outra coisa mais interessante para fazer com os livros usados? Claro que sim. O lado negativo é que deixará de ganhar os parcos trocados do sebo, mas a experiência pode ser bem mais valiosa que a bagatela. É preciso fazer só uma única coisa: “esquecer” seus livros por aí, largá-los nos locais públicos de sua preferência, como praças, pontos de ônibus, metrôs, e deixar que um transeunte sortudo os encontre ou que seja encontrado por eles.

Depois de ler o livro achado, o agraciado poderá fazer o mesmo: abandoná-lo em algum canto. Mas para que os livros abandonados intencionalmente não sejam confundidos com os esquecidos sem querer, uma sugestão é colocar uma etiqueta ou escrever no próprio livro uma frase que deixe claro seu esquecimento proposital e sugerindo que, após ser lido ou folheado, quem o encontrou pode fazer o mesmo.

Uma viagem típica de metrô: nenhuma vista para apreciar, aquela voz ininteligível informando as estações, vagões lotados... um campo profícuo para pensar nos problemas cotidianos... eis que, de repente, o  irritado passageiro se depara com um livrinho, começa o folheá-lo e, por coincidência, é justamente aquela leitura que ele estava precisando para resolver um assunto. Que bem não faria a um cidadão furioso com a queda da bolsa de valores encontrar o Sidarta,de Hermann Hesse? Ou o que não aconteceria se aquela dona da casa com tanta coisa para cuidar (crianças, marido, jantar), de repente se visse às voltas com Laços de Família,da Clarice Lispector? Ou que tal se o professor que vive correndo de uma escola para outra, pensando nas contas para pagar e provas para corrigir, fosse encontrado pelo Cem anos de solidão, sendo catapultado da mais concreta realidade para o fantástico mundo de García Márquez? Ou quem sabe até se perder nas Ficções,de Jorge Luiz Borges?

A ideia de largar os livros por aí já existe há um tempo. Em 2001, foi lançado nos Estados Unidos o movimento BookCrossing, em que livros são deixados em lugares públicos para que os passantes leiam e depois os larguem em outro lugar. Em Londres, a prática também foi adotada, porém, com menos improviso. O London Book Project é um programa criado pelo metrô londrino no qual os livros são fornecidos pela própria empresa (ao invés de leitores voluntários) e são espalhados pelos assentos dos trens para acompanhar os leitores nas suas viagens. O leitor pode ficar com o livro quanto tempo quiser e pode levá-lo para onde bem entender, com a condição de que, ao término de sua leitura, deixe-o de volta no metrô.

Por aqui também já houve iniciativas do tipo. Os alunos e professores de Letras da UFMG em Belo Horizonte criaram o projeto “Literatura para Todos”, que consistia em pendurar folhas tamanho A4 com textos literários impressos em ambos os lados nas poltronas dos ônibus. O passageiro se sentava, puxava o texto e durante 15 minutos se deleitava na companhia dos trechos extraídos dos grandes nomes da literatura brasileira.

Livros marcantes na opinião dos leitores

No Fórum “Discutindo”, do Portal de Educação Pública uma das questões debatidas foi relacionar os livros que mais marcaram a vida dos leitores. Aqui vão alguns títulos citados para, quem sabe, servir de inspiração para serem esquecidos “displicentemente” nos locais públicos:

  • Pollyana moça,
  • Senhora,
  • Pai, me compra um amigo,
  • A arte da guerra,
  • Dom Casmurro,
  • Viagem ao centro da Terra,
  • A hora da estrela,
  • O estudante,
  • Meu pé de laranja lima,
  • Violetas na janela,
  • As viagens de Gulliver,
  • O pequeno príncipe,
  • O morro dos ventos uivantes,
  • Harry Potter (todos),
  • Éramos seis,
  • A revolução dos bichos,
  • A marca de uma lágrima,
  • O caçador de pipas,
  • Feliz ano velho,
  • Otelo,
  • O velho e o mar,
  • A droga da obediência,
  • Os colegas,
  • O cortiço,
  • a Bíblia,
  • O estrangeiro,
  • Crime e castigo,
  • Encontro marcado,
  • O diário de Anne Frank,
  • Admirável mundo novo,
  • 1984,
  • O guarani,
  • Bisa Bia Bisa Bel,
  • Nunca desista de seus sonhos, e
  • A viuvinha.

Os autores mais mencionados foram Sidney Sheldon e Monteiro Lobato.

Caso você encontre um exemplar em algum transporte coletivo, não hesite em pegá-lo para si e começar a lê-lo. O único risco é passar do ponto.

Para saber mais sobre livros deixados em lugares públicos:

Publicado em 23 de outubro de 2007.

Publicado em 23 de outubro de 2007