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Tropa de Elite: realidade ou narcisismo às avessas?

Ricardo Corrêa Peixoto

Historiador, pesquisador e estudioso da história dos marginais, autor de diversos artigos e ensaios sobre exclusão social, transição Império-República, escravismo-capitalismo, alguns deles publicados pela Fundação Centro de Ciências e de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (CECIERJ).

A história do uso de drogas constitui um dos mais curiosos e também, parece-me, um dos mais significativos capítulos da história natural dos seres humanos. Em todos os lugares e em todos os tempos, homens e mulheres procuraram, e encontraram devidamente, os meios de tirar férias da realidade de suas existências geralmente enfadonhas e com frequência extremamente desagradáveis. Férias fora do tempo, fora do espaço, na eternidade do sono ou do êxtase, no céu ou no limbo da fantasia quimérica. "Qualquer lugar, qualquer lugar fora do mundo.

(Huxley, 1963, p. 10)

Tomei emprestada a expressão "narcisismo às avessas", de Nelson Rodrigues, que, ao ser interpelado por um crítico de suas obras, afirmava que os personagens criados por ele eram surreais, grotescos, antinaturais, enfim, representavam uma visão tosca que possivelmente seria fruto de uma mente doentia, que no caso seria do autor. Nelson Rodrigues se defendeu com essa expressão: "narcisismo às avessas", refutando aquela afirmação simplista e impregnada de sentimentalidades e eufemismos, pois o autor advoga ser aquela a realidade que, gostemos ou não, precisava ser encarada.

Ora, o tema proposto revela uma questão de vital relevância, seja epistemológica, fenomenológica, existencial, enfim, o que se propõe é uma introspecção sistêmica, por assim dizer. Recentemente fomos bombardeados com um filme visceral: Tropa de Elite, em que uma realidade é outorgada por uma visão microssocial, sinagelástica; digo isso, apesar de compartilhar e concordar com alguns aspectos retratados nessa produção cinematográfica brilhante, que demonstra inapelavelmente a necessidade de um enfrentamento desses verdadeiros dissidentes da civilização, principalmente em se tratando da valorização desses derradeiros homens que lutam contra a lógica corruptível, esses que abraçam valores que vão além do dinheiro, valores esses em estado de obsolescência; a proficiência desses homens é garantida por sua implacabilidade em bem cumprir sua missão; entretanto, proponho uma análise mais apurada sobre o anverso desse avesso (termo cunhado pelo Professor Dr. Eduardo Marques da Silva), porque, como já disse, o filme mostra uma realidade e não "a realidade", pois as realidades são múltiplas: um bando de burgueses viciados, policiais corruptos, tiroteios, carnificina, enfim, tristes práticas que no mínimo colocam em constrangimento nossa condição de seres humanos e principalmente homo sapiens.

Num trecho do filme, o capitão Nascimento diz: "são vocês que financiam tudo isso", ao tratar os viciados como a força motriz do tráfico de drogas, mas aí está nossa investigação: será que deliberadamente, propositalmente, essas pessoas que ingerem drogas desejam que tudo que eles conhecem termine? Será que eles pretendem inequivocamente destruir o mundo em que vivem, porque estar na favela é uma condição fugidia, pois a maior parte dos viciados não reside nos morros, está lá porque só lá encontra aquilo que lhes é negado de uma maneira ou de outra na sociedade da ordem, são as leis que os levam aos morros e são as leis que invariavelmente fornecem os subsídios com que os traficantes, homens truculentos, bestializados, oportunistas, esses capitalistas vorazes descobrem seu mercado; eles não inventam a demanda, a demanda já existe, eles não colocam propaganda na TV, não há anúncio nas rádios, pelo menos nas oficiais, não seria hora de refletir sobre as raízes de todos esse perverso conglomerado, onde projéteis esfacelam corpos, crendo minimizar o caos?

Entre os narcóticos naturais, estimulantes e alucinatórios, não existe um cujas propriedades não sejam conhecidas desde tempos imemoriais. Pesquisas modernas nos deram um bom número de novos sintéticos, mas, no que se refere aos venenos naturais, simplesmente desenvolveram-se métodos mais aperfeiçoados de extração, concentração e nova composição dos elementos já existentes. Do ópio ao curare, do cânhamo indiano à cocaína dos Andes e ao fungo siberiano, todas as plantas, arbustos e fungos capazes de quando ingeridos entorpecer, excitar ou provocar visões já tinham sido descobertos e utilizados de forma sistemática. O fato é significativamente estranho, pois parece provar que sempre e em todos os lugares os seres humanos sentiram a precariedade absoluta de suas existências pessoais, a miséria de serem apenas o seu ser insulado. (...) do desejo de autotranscendência - o bem era tudo contido na natureza por meio do que a consciência individual pudesse ser transformada. As mudanças provocadas pelas drogas podem ser manifestamente para pior, podem causar mal-estar no momento e vício no futuro, assim como degeneração e morte prematura. Nada disso importa. Só o que interessa é a consciência, pelo menos por alguns momentos, por uma ou duas horas que seja, de ser alguém, ou na maioria dos, casos, outra coisa que não o ser insulado.
(Huxley, 1963, p. 25)

A história mostra que nenhuma tropa, seja ela de elite ou corrupta, vai conseguir banir as drogas e seu tráfico a partir de ações isoladas e de força, não se luta com os punhos com os espectros, armas irão matar os hospedeiros mas o vírus encontrará outro. Assim, questões como uso e tráfico de drogas são consequências, e não causas. Não se mata uma árvore pelo caule, a raiz fá-la viver, podendo se tornar ainda mais forte. Não podemos é claro, desmerecer o trabalho de homens honestos, corajosos, que combatem de maneira indelével as mazelas de nosso mundo obtuso, que se predispõem a deixar seus lares sem saber se voltam, apenas porque acreditam que suas ações irão contribuir para o bem-estar da população - e de fato contribuem - e seria no mínimo irresponsável ou negligente dizer o contrário. Mas, essas ações, se não são contraproducentes, são ao menos pueris, pois a questão está no espelho, temos que passar a olhá-lo com mais atenção; por que se proíbe sumariamente o uso de substâncias cujos efeitos geram prazer aos seus usuários, tanto que eles enfrentam todo tipo de risco para adquiri-la? Ora, de onde vem essa demanda? Por que, apesar de toda repressão cultural e física, os entorpecentes são buscados como joias?

Até o presente, os governos pensaram sobre o problema das substâncias químicas que transformam a mente somente em termos de proibição ou, um pouco mais realisticamente, de controle e taxação. Nenhum deles, até agora, estudou-o em sua relação com o bem-estar individual e a estabilidade social.
(Huxley, 1963, p. 80)

Por que o Estado afasta esse contingente de seus tentáculos e o aproxima dos traficantes? Estes últimos, para o nosso bem, não possuem uma ideologia capaz de amalgamá-los, de conferir-lhes unidade, por isso os matamos com tanta facilidade, porque são déspotas insipientes, regidos pelos lucros, por um dinheiro que sequer podem gastar; graças a essa deficiência operacional e estratégica, eles não dominam efetivamente o Estado. Pensemos um pouco no que diz Huxley:

Parece eternamente improvável que a humanidade, de um modo geral, algum dia seja capaz de passar sem paraísos artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves momentos, estão e têm estado entre os principais apetites da alma. (...) O hábito de tirar férias do mundo mais ou menos purgatorial, que nós criamos para nós mesmos, é universal. Moralistas podem denunciá-lo, mas, apesar dos discursos desaprovadores e da legislação repressiva, o hábito persiste, e as drogas alteradoras da mente estão disponíveis em toda parte. A fórmula marxista "a religião é o ópio do povo" é reversível, e pode-se dizer, ainda mais verdadeiramente, que "o ópio é a religião do povo"
(Huxley, 1963, p. 5 e 79)
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Já não está na hora de tentar algo novo, já não está mais que consubstanciado o fracasso da política pública no que concerne ao uso de drogas; até quando estaremos olhando para o nosso reflexo na água e atirando pedras, sem procurar entender melhor o que se passa? É de assustar que, em pleno século XXI, não consigamos nos olhar francamente, despidos de moralismos e falácias que amaldiçoam nossa espécie; trata-se de um demônio que não conseguimos exorcizar, leis absurdas, inexequíveis; elas não irão funcionar, porque o homem nunca foi mudado por leis - as leis, sim, é que são mudadas pelos homens, elas são nossos construtos, sua finalidade é orientar e garantir a sustentabilidade do sistema, não inviabilizá-lo; os usuários de drogas são nossos filhos, irmãos, primos, quem não conhece um usuário? Ou ainda: quem não possui um na família e até dentro de casa? Agora me diga: quantos desses são animais nocivos, ameaças, pessoas inescrupulosas, maus caracteres; obviamente que alguns, já deformados por uso contínuo, passam a apresentar anomalias. Enfim, preferimos mandar o Bope subir o morro e exterminar ou ser exterminado, expor policiais que também são pais de famílias, com seus soldos residuais, que se apresentam como super-homens que, apesar de todo esforço e inegável destreza, lutam uma guerra perdida.

Todas as drogas existentes são traiçoeiras e maléficas. O paraíso aonde levam suas vítimas logo se torna um inferno de doença e degradação moral. Elas matam, primeiramente, a alma, e depois, em poucos anos, o corpo. Qual é o remédio? "Re-pressão", respondem em coro todos os governos contemporâneos. Mas os resultados da repressão não são animadores. Homens e mulheres sentem uma necessidade tão premente de tirar férias da realidade de vez em quando que farão quase qualquer coisa para encontrar os meios para a fuga. A única justificativa para a repressão seria o seu sucesso; mas isso não acontece e, segundo a ordem natural das coisas, não pode acontecer. O modo de impedir que as pessoas bebam álcool demais, ou se tornem viciadas em morfina ou cocaína, é dar-lhes um sucedâneo eficiente porém saudável para esses venenos deliciosos e (no atual mundo imperfeito) necessários. O homem que inventar tal substância será considerado um dos maiores benfeitores dessa humanidade sofredora
(Huxley, 1963, p. 11)
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A questão aqui não é de advogar a liberdade indiscriminada de uso de entorpecentes ou ainda de dizer que todos os usuários são bonzinhos, mas oferecer um raciocínio audacioso, uma análise apartidária, porque todos devem estar não do lado da polícia ou dos dependentes químicos, mas do lado do ser humano, de uma melhor compreensão de nossas necessidades, porque escrever leis mecanicistas e legitimá-las pela força está patente que não produz resultados, ou melhor, produz corpos, animosidade e caos.

Por tudo isso, não há no Brasil quem não conheça a malandragem, que não é só um tipo de ação concreta situada entre a lei e a plena desonestidade, mas também, e sobretudo, é uma possibilidade de proceder socialmente, um modo tipicamente brasileiro de cumprir ordens absurdas, uma forma ou estilo de conciliar ordens impossíveis de serem cumpridas com situações específicas e - também - um modo ambíguo de burlar as leis e as normas sociais mais gerais.
(DaMatta, 1986, p. 103)

Não podemos também deixar de lembrar que a favela que hoje serve de palco para ações ilícitas dos narcotraficantes é, em sua gênese, produto da exclusão, da segregação social, espacial e econômica impetrada historicamente no Brasil; cortiços, quilombos ou favelas, independentemente do caráter semântico que esses rótulos possam adquirir, todos esses arranjos são um hábitat marginal cujas franjas tangenciam e confluem com as necessidades "extralegais" (Sotto, 2003) do cidadão da ordem, que, alheio às rigorosas normas da etiqueta social, bem como do formalismo e de toda sorte de exigências inexoráveis da sociedade global contemporânea, busca um prazer, uma transcendência efêmera que em todas as épocas é demonizada. O que fazer? Vamos executar todos os dependentes químicos, traficantes? O que tem adiantado prender os grandes cabeças dessas organizações criminosas, se seus enclaves garantem a continuidade do sistema, são tentáculos regenerativos, a cada queda um outro se levanta? Trata-se de uma rede alimentada por nossas hipocrisias, pela intransigência em tratar nossas anomalias mentais, por assim dizer. Os traficantes e sua horda lucram graças à falência do Estado, esse anacrônico machista em seu monólogo, que relega um debate mais corajoso e inclusivo.

Obviamente sabemos que valores e instituições supremas como dignidade, respeito, família, escola, altruísmo nunca estarão fora de moda, e sua disseminação é o melhor caminho ainda inventado pela humanidade. Mas o que fazer com essa legião de dependentes? Não será possível encontrar novas práxis que alterem essa repulsão por parte do Estado em relação aos usuários, uma força centrífuga que faz com que os jovens deixem seus lares, o seio de suas famílias, gerando, por conseguinte, uma força centrípeta que os direciona para os guetos e vielas onde o mercado das drogas, essas novas formas de indulgências, concede instantaneamente os paraísos artificiais rarefeitos em um mundo cada vez mais banal e simbiônico, por ora sem um esforço para implementação de mudanças no trato dessas questões - e é verdade que os resultados de tais mudanças são incertos, mas antes a esperança da dúvida que a certeza do fracasso.

As cenas do filme são fortes para nós, professores, pesquisadores, pais de família, pessoas comuns; esses policiais de elite são só homens que querem voltar para casa; essa carga não é só deles, o embrutecimento e animalidade que permeiam essa produção nos chocam; é um narcisismo às avessas, produz o asco, a repulsa em olhar nossa imagem lânguida, deletéria; esse filme teve seu sucesso garantido porque não é comum para a humanidade o convívio com a verdade, e a verdade é que, se não nos apressarmos em descobrir novas maneiras de coexistir neste mundo, a civilização que conhecemos hoje desaparecerá.

Referências:

HUXLEY. Aldous. Moksha. Textos sobre psicodélicos e a experiência visionária 1931-1963. Tradução de Eliana Sabino. Disponível em snowgust.homedns.org:8080/arquivos/livros/literatura/ portugues/aldous%20huxley/aldous_huxley_moksha.pdf.

DaMATTA, Roberto. O que faz do Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

SOTTO, Hernando de. O mistério do capital. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Publicado em 23 de outubro de 2007.

Publicado em 23 de outubro de 2007