Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

A internet e O Aleph

Mariana Cruz

Outro dia estava no carro, dirigindo, e a música que tocava no rádio chamou minha atenção, a letra falava sobre várias coisas: Almodóvar, Frida Kahlo, trânsito, cores, meninos com fome, telefone, janela, controle remoto etc. Por analogia, lembrei-me de um dos mais conhecidos contos de Jorge Luis Borges, O Aleph, que também fala de um monte de coisas. Na época em que li – há pelo menos quinze anos –, causou-me um verdadeiro arrebatamento, o que não é surpresa em se tratando de um texto de Borges.

Aleph é o nome de um ponto de onde é possível enxergar tudo que existe no mundo:

o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos

A visão que se tem a partir do Aleph deve ser algo próximo à sensação que um homem medieval teria ao se deparar com um computador e ver todas as imagens que ele pode mostrar. É um portal ínfimo que dá acesso ao infinito:

O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminui­ção de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um quebra­do labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me reflectiu, vi num pátio da Rua Soler os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão de uma casa de Fray Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, listas de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um dos seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um cancro no peito, vi um círculo de terra seca numa vereda onde antes existira uma árvore, vi numa quinta de Adrogué um exemplar da primeira versão in­glesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada página (em pequeno, eu costumava maravilhar-me com o facto das letras de um livro fechado não se misturarem e se perderem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um poente em Querétaro que parecia reflectir a cor de uma rosa em Bengala, vi o meu quarto sem ninguém, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas numa praia do mar Cáspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando bi­lhetes-postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de alguns fetos no chão de uma estufa, vi tigres, êmbo­los, bisontes, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta da escrivaninha (e a letra fez-me tremer) cartas obscenas, claras, incríveis (...)  vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.

Após essa breve reflexão, lá continuei dirigindo entre faróis, sinais, buzinas, ruas, pessoas, mas O Aleph não me saía da cabeça. E quanto mais pensava nele, mais me lembrava de algo que, apesar de não conter todas as coisas do mundo, pelo menos uma boa parte delas está lá, uma espécie de versão pós-moderna capenga do Aleph: a internet; para ser mais específica, o Google. Para quem acha que é delírio ou “forçação de barra”, aviso que não sou a única a dar esse crédito todo ao tal site de busca. Uma amiga aqui do trabalho, na maior naturalidade, tem o hábito de se referir ao Google como “deus”. Explico-me: quando surge uma dúvida na sala, ela logo sugere: “procura no deus”.

Heresias à parte. Outro dia pedi uma pesquisa aos meus alunos e os aconselhei a dar uma olhada em alguma enciclopédia... enciclopédia? Acho que alguns deles nunca abriram uma que estivesse fora da tela do computador. Delta Larousse, Mirador, Barsa, Conhecer, auxiliares permanentes na minha época de escola, são coisas do passado; foram substituídas pelo Google. Tal fenômeno não ocorre apenas com os adolescentes. Minha mãe pretende pintar a casa e quer aproveitar para se desfazer de várias coisas que estão apenas tomando espaço, dentre as quais os livros de medicina de meu pai, porque, segundo ela, “está tudo lá, no Google”. São livros da época de faculdade dos quais ele não consegue se desfazer (ele insiste, porém, que não é pelo valor afetivo e sim pela consulta constante). Menos estantes, livros e poeiras, tudo trocado pelo módico espaço de uma tela – e se for um monitor LCD é mais fino que uma brochura de medicina.

Apesar da invenção desse “Aleph virtual”, nada tira o valor da criação de Borges, que, aliás, como todo escritor genial, tem um quê de visionário. Enquanto o Aleph original encontra-se em apenas um lugar (“Está no porão da sala de jantar” de uma velha casa situada na rua Garay), o “Aleph pós-moderno” está em todos os lugares: nos lares, nas escolas, nos escritórios, nas lojas, nas lan-houses, nas pastas, nas bolsas...

Entrar no Google é simples; basta ligar o computador e dar um ou dois cliques para que todo o mundo se abra. Para ver o Aleph de Borges, o navegante passa por um verdadeiro ritual:

mergulharás no porão. Já sabes, é indispensável o decúbito dorsal. Também o são a escuri­dão, a imobilidade, certa acomodação ocular. Tu encostas no chão de tijolos e fixas o olhar no décimo nono degrau da tal escada. Saio, baixo o alçapão e ficas sozinho. Se algum rato te meter medo, não tem importân­cia! Em poucos minutos vês o Aleph. O microcosmo dos alquimistas e cabalistas (...)

Inegáveis a magia, a beleza e a superioridade da visão do Aleph, se comparados às imagens internéticas. Guardemos as devidas proporções e brinquemos de fundir ficção e realidade ao viajar pelo mundo virtual através do qual, assim como no Aleph, é possível ver as mais belas pinturas, animais da Pré-história, livros hebraicos, o último imperador chinês, povos com fome, capítulos da novela recém-acabada, a dança dos cossacos, os baralhos de tarô, oceanos em fúria, o canto dos cisnes, os conselhos do sábio hindu, o nascimento de uma criança...

Peço desculpas aos puristas, que devem considerar bastante imprópria esta comparação entre O Aleph e o Google, mas, para aquele que descobre as inúmeras possibilidades do mundo virtual, cai como uma luva o comentário que o personagem do conto, Carlos Argentino, faz ao notar o estado hipnótico de Borges diante do Aleph:

- Ficarás tonto por bisbilhotar assim onde não és chamado (...). Que observatório formidável, hein, Borges!

Aliás, para quem quiser ler O Aleph na íntegra, é só buscar no Google.

Publicado em 13/11/2007

Publicado em 13 de novembro de 2007