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Um bicho esquisito

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Crônicas filosóficas

No momento exato em que escrevo essa crônica, estou diante de um imenso mistério. Sinto esse mistério sempre que escuto Take Five, de Paul Desmond. Especialmente quando ela é executada pelo quarteto de Dave Brubeck com o próprio Dave no piano, o Desmond no saxofone alto, Joe Morello nas baquetas e Eugene Wright no baixo. Poucas vezes me senti tão perto do sublime quanto nos momentos em que distraidamente sou pego por uma música como Take Five. Agora ela está tocando no meu PC e me pergunto: que tipo de criatura é capaz de fazer uma música como essa? Esse espanto não é só meu. Na tragédia de Sófocles, Antígona, o coro (espécie de narrador coletivo, porta-voz da cidade e usado no teatro antigo) enuncia: "muitas são as maravilhas, mas nenhuma é maior do que o homem". Mais à frente o coro de Sófocles completa o raciocínio: "dotado de arte e engenho para além do que se imagina, o talento para encontrar recursos ora o encaminha para o mal ora para o bem, confundindo as leis da Terra e a justiça que aos deuses jurou respeitar".

Curtiu? Maneiro, não é? Esse é o mistério e o assombro maior. O homem é capaz de fazer coisas sublimes como Take Five e coisas absolutamente hediondas. Por isso, sempre que eu escuto Take Five eu me espanto com o homem, e sempre que eu me espanto com o homem eu digo para mim mesmo: "pense, um bicho esquisito!".

A esquisitice desse bicho foi motivo de inúmeras discussões na Era Moderna e é possível mesmo admitir que a Idade Média começou definitivamente a acabar quando a filosofia iniciou sutilmente a mudar seu objeto. Se antes o núcleo do problema era Deus e sua revelação, que precisava ser compreendida e explicada, agora o nó da questão era sua criatura mais bizarra: o homem, esse bicho esquisito.

Nessa discussão, um jovem pensador chamado Pico della Mirandola se destacou com um livro definitivo. Pico, junto com Marcilio Ficino e Erasmo de Rotterdam, foi um importante representante do Renascimento cultural greco-romano no começo da Idade Moderna. O movimento, que havia eclodido com os mulçumanos e judeus, leitores de Aristóteles ainda no século IX e X da era comum, agora se espalhava pela Europa e iniciava uma revolução na mentalidade dos povos cristãos. Pico, ao contrário de alguns dos mais importantes pensadores do Ocidente, teve uma vida curta: morreu com 31 anos, o que não lhe permitiu concluir seu projeto ambicioso. Considerado o humanista mais importante do Renascimento, era, segundo as fontes históricas, um sujeito rico, belo e sábio. Um partidão, na linguagem das colunas sociais. Tragicamente, Pico não teve tempo de concluir seu Discurso sobre a Dignidade do Homem, obra de proporções monumentais que pretendia, entre outras coisas, demonstrar a absoluta conformidade filosófica entre as diversas tradições religiosas. Sobrou para o futuro uma pequena introdução ao texto que serviu de esteio na compreensão do neoplatonismo da chamada escola florentina (que floresceu no norte da Itália no século XV) e uma visão radicalmente moderna da condição humana.

Vou explicar com calma para que você possa perceber que o negócio é muito forte. Quando Jean Paul Sartre, o último pensador francês (desculpe, isso é uma provocação) surgiu lotando auditórios no mundo todo, escrevendo em jornais e aparecendo na TV no pós-guerra, divulgando sua pop filosofia existencialista, na verdade o que ele estava fazendo era retomar uma intuição do século XV, divulgada na obra de Pico della Mirandola, o conde boa-pinta do norte da Itália. Pois é. Assim como são as pessoas, são as criaturas. Quando Sartre dizia coisas como: "o homem é um ser condenado à liberdade" ou "a existência precede a essência", ele estava usando a ideia de Pico de que o homem é um ser "ontologicamente indefinido", dizendo que isso era uma ideia de Heidegger. Por isso Sartre ganhou tanta notoriedade. Pouca gente conseguiu embrulhar tantos pensamentos em uma salada teórica e vender um produto filosófico tão bem quanto Sartre, o mestre maior da pop filosofia.

Na verdade, Pico, lá no século XV, retomando uma tradição judaica, dizia que o homem havia sido criado na sexta-feira, no final da tarde. Na hora do acendimento das velas do Shabat. Até aí não há novidade; o problema é que, na interpretação de Pico, Deus já havia encerrado o expediente de trabalho quando o homem apareceu. Ou seja, tudo já estava concluído, pronto, determinado no seu devido lugar. Mas Deus percebeu, antes de fechar a fábrica da criação e sair para o happy hour, que faltava um ser que pudesse contemplar e admirar a Sua obra. Mas como tudo estava pronto e a natureza já estava completa, Ele não tinha onde pôr essa criatura. Não havia mais "espaço ontológico" no mundo para um ser de fim de expediente. Então Deus usou uma estratégia: jogar o homem no mundo. Lançá-lo na criação sem um lugar fixo. Soltá-lo no meio do vazio da vida, entre o chão que ele pisa e o céu sobre sua cabeça. Deixar que ele fosse livre para escolher o que ele quisesse ser. A história que Pico usou para ilustrar seu pensamento era de que o homem não tem uma natureza fixa. Ele é um ser transitório e indefinido. Um marginal biológico. Uma criatura que pode se aproximar do divino e espelhar figuras angelicais enchendo o mundo de beleza, como em um take de Paul Desmond, ou se aproximar das bestas rastejantes e perpetuar miséria, lixo, feiura e sofrimento aonde quer que fosse. Esta é a natureza do grande assombro e da grande dignidade que o bicho homem traz consigo: a potencialidade de ser sublime ou miseravelmente hediondo, a ambiguidade de ser capaz de gerar o mais maravilhoso e o mais terrível em uma mesma obra.

Publicado em 27/11/07

Publicado em 27 de novembro de 2007

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