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A floresta e a cidade

Leonardo Soares Quirino da Silva

Evento discutiu a importância dos serviços ambientais prestados

O Parque Nacional da Tijuca forma um patrimônio extraordinário da cidade", declarou o ecologista Adelmar Coimbra-Filho durante primeiro encontro O Parque e a Cidade. O encontro foi realizado pela Associação dos Amigos do Parque Nacional da Tijuca nos dias 24 e 25 de outubro, tanto para discutir a contribuição desse acervo quanto sua relação com a cidade.

Ameaçada pelo crescimento de favelas e pela especulação imobiliária, a Floresta da Tijuca tem sua história ligada à gestão dos recursos hídricos da cidade. O professor Adelmar, da Academia Brasileira de Ciências, lembrou que o imperador D. Pedro II foi o primeiro a correlacionar a floresta com a manutenção dos mananciais, sendo essa a motivação inicial para a criação das reservas que viriam a formar o parque.

Os estudos realizados pela professora Ana Luiza Coelho Netto no Laboratório de Geo-Hidroecologia (Geoheco) do Instituto de Geografia da UFRJ revelaram a importância da floresta na prevenção de deslizamentos e na promoção de um melhor regime de chuvas. Desde 1975 a professora faz pesquisas no parque.

Segundo ela, a floresta intercepta em média 20% das chuvas, filtra elementos tóxicos presentes no ar, além de fixar carbono. A serapilheira - folhas e ramos que cobrem o chão da floresta - por sua vez, serve para reduzir o impacto da água da chuva no solo, bem como permite sua maior infiltração no solo, o que é favorecido pelas raízes das árvores.

Pesquisas realizadas no Geoheco revelaram que a água que adentra o solo fica armazenada na base das raízes, quase em estado líquido. Para levantar a quantidade e a profundidade onde a água se encontra, os pesquisadores enfiam perpendicularmente ao solo tubos de PVC de diferentes comprimentos.

Com base nisso, a professora destacou a importância de plantas com sistemas radiculares profundos para a fixação do solo. Ana notou que os bambus, geralmente empregados na contenção de encostas, favorecem a retenção da camada superficial do solo, mas têm raízes pouco profundas. O mesmo ocorre com as diferentes variedades de capim e as palmeiras.

A professora notou que árvores com raízes mais profundas, por sua vez, tanto fixam quantidades maiores de água quanto de terra. Assim, segundo ela, mesmo as poucas árvores grandes presentes em terrenos escarpados "são suficientes para dar maior resistência e inserir água".

Outro aspecto da floresta revelado pela professora é a dinâmica das águas que descem pelas escarpas. Ana observou que os estudos mostraram que a chuva que escoa por essas paredes rochosas é depositada em maiores quantidades e profundidades dentro do solo.

Ação humana

Nas chuvas de 1996, o parque foi atingido por duas trombas d'água. Na primeira, foram atingidas as estradas e as áreas ocupadas. Na segunda, a floresta parecia ter atingido seu ponto máximo, pois "quando se pergunta aos moradores quando foi (que ocorreram os deslizamentos), todos eram unânimes em dizer que foi perto do fim da novela das oito", declarou Ana Coelho Netto.

Apesar de 18% dos deslizamentos terem ocorridos em áreas de floresta preservada, as partes mais afetadas foram aquelas onde a floresta encontrava-se degradada (42%) ou que eram ocupadas por capinzais (43%). Esses resultados, para a professora, apontam para a prioridade na recuperação das áreas de floresta degradada.

Ela chamou a atenção também para o fato de que se deve pensar a cidade de forma integrada e não se dividindo o planejamento em áreas edificantes e não, pois os efeitos de umas se fazem sentir sobre outras.

No evento ficou claro que tanto as favelas quanto os bairros podem produzir efeitos nocivos sobre a floresta. Segundo a professora do Geoheco, pesquisas feitas por estudantes de pós-graduação revelam que o efeito das primeiras seria mais nocivo, entre outros motivos, pelas trilhas que saem dessas localidades.

As pesquisas da professora Rita Montezuma, do Departamento de Geografia da PUC-Rio, em uma pequena área da Reserva de Frei Veloso revelaram que o somatório dos pequenos impactos pode ameaçar a existência da floresta a longo prazo.

Segundo Rita, as condições existentes no trecho estudado indicavam que as espécies raras que foram identificadas não seriam capazes de se reproduzir. Naquela parte da floresta, o ambiente encontrava-se transformado pela presença de espécies vegetais exóticas, de cães e atividade humana. Ela também observou que hoje já é difícil encontrar ratos silvestres na floresta; os ratos urbanos são a ocorrência mais frequente.

Ao falar sobre as possibilidades de reintrodução de espécies animais e vegetais nativas, o professor Adelmar Coimbra-Filho comentou o problema causado por saguis e macacos-pregos trazidos de outras regiões do Brasil.

Especialista em primatas, Coimbra-Filho observou que o sagui do nordeste é um agente transmissor de herpes vírus capazes de dizimar populações de micos-leões dourados. Segundo o professor, até a metade do século XIX os micos-leão eram encontrados na mata até a altitude de 300m. Acima desse ponto, as florestas deveriam ser habitadas por guaribas (também chamados de bugios) e muriquis.

4/12/2007

Publicado em 04 de dezembro de 2007