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Um cara chamado Arístocles

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Crônicas filosóficas

No meu entender as três maiores invenções da humanidade são: a tecnologia de produção do fogo; o corretor automático do Microsoft Word e a rede de dormir (obviamente não nessa ordem porque, afinal, todo mundo sabe que a maior invenção da humanidade é mesmo a rede e só depois, com muita distância, é que aparece o corretor automático do Microsoft Word). Depois de tantos e tantos milênios, a humanidade precisa fazer um apanhado de seus feitos e de suas contribuições; afinal, ela nunca esteve tão perto de um colapso como na atualidade, e as listas das maiores invenções são urgentes, podendo abarcar áreas diversas, como música, monumentos arquitetônicos e conjunto de obras literárias.

Com certeza, se alguém resolver fazer um apanhado dos mais importantes conjuntos de textos legados pela civilização, quem não pode faltar é um sujeito chamado Arístocles, filho de seu Ariston e de dona Perictione. Mais conhecido como Arístocles de Atenas. Ao lado da Bíblia e dos textos de Shakespeare, com certeza haverá de figurar nessa lista a obra completa do nosso amigo Arístocles. Mas, convenhamos, os “aristocleses” que me perdoem, esse não é um nome muito comercial. Seria difícil para qualquer agente literário viabilizar um espaço na mídia especializada para um escritor chamado Arístocles de Ariston; ou Arístocles da Silva. Talvez  por isso o filho de seu Ariston e de dona Perictione ficou mais conhecido pelo apelido.

Nascido provavelmente em 427 antes da era cristã, Arístocles ganhou o apelido de “Platão” devido a algum traço físico característico. Em grego, esse termo deriva de um adjetivo que indicava algo plano, chato. É provável que o apelido tenha sido dado ao Arístocles por causa do formato da sua cabeça ou do seu corpo, que, segundo alguns, era um pouco achatado. Platão descendia de uma família de aristocratas de Atenas e foi um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Depois de conhecer Sócrates, Platão abandonou seu intento de se tornar autor de peças de teatro e acabou enveredando pelo ramo da filosofia. Essa experiência inicial como escritor de tragédias acabou influenciando o estilo de texto de Platão, que escrevia em forma de diálogos filosóficos. Sócrates, seu velho mestre, era um personagem constante desses diálogos, que misturavam pensamento e ação e que chegaram a ser encenados na Idade Média nos monastérios cristãos. Recheados de sutilezas de argumentação e de ironia, esses textos traziam também alegorias, histórias, narrativas, mitos que ajudavam a fixar os conceitos de seu autor. Esse aspecto didático dos textos pode ter contribuído para a grande fama do filósofo de Atenas, que até hoje é disparado o filósofo mais lido no Ocidente. Personagem tão indispensável para um curso de filosofia como Marx é para um de ciência política, Freud para um de psicologia e Machado de Assis para um de literatura brasileira.

Mas a influência de Platão não se cristalizou apenas pela didática de seus textos. Friedrich Nietzsche, o filósofo alemão que Irvin D. Yalom botou para chorar no seu best-seller (Quando Nietzsche chorou), chamou o cristianismo de “platonismo para o povo”. Muitos dos dogmas fundamentais do catolicismo foram introjetados na religião cristã através dos seguidores de Platão (entre eles Agostinho, um dos mais importantes bispos do catolicismo). A ideia de trindade, que após o concílio de Nicéa foi incorporado como dogma para os católicos, tem a mão de Platão. A ideia de uma separação entre corpo e alma, extraída de uma antiga religião dos mistérios chamada “orfismo”, foi trazida para dentro da doutrina católica pelos continuadores de Platão. A imagem do arquiteto do universo, com régua e compasso traçando linhas no vazio para construir o mundo, presente na simbologia maçônica, também tem seu débito com os textos de Platão. Não que ele tivesse inventado isso; muito de suas ideias derivam de teses de outros pensadores, como Parmênides ou Heráclito, ou dos pitágoricos (lembra do teorema de Pitágoras e daquela reprovação na quinta série?), que, supostamente, teriam retirado boa parte desse conhecimento dos antigos egípcios.

O fato é que Platão deixou sua marca em toda a história do pensamento ocidental, e não é exagero afirmarmos que metade de tudo que veio depois dele, até o final do século XVIII, nada mais foi do que comentários de pé de página da sua obra. Mas existem “platões” para todos os gostos. Tem Platão político, Platão matemático, Platão místico, Platão poeta. Muitas faces para um mesmo pensador, cuja vida corresponde ao apogeu da cultura da Atenas clássica, cujo legado nem seu Ariston nem dona Perictione imaginaram um dia que poderia ser tão amplo. E é justamente sobre esse legado que pretendo em outras crônicas.

Publicado em 11/12/07

Publicado em 11 de dezembro de 2007