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Conscientização: passos lentos a caminho de um mundo melhor

Mariana Cruz

Muitas vezes, sem que se note, pequenas alterações comportamentais vão ocorrendo ao longo dos anos. Até que chega um dia em que alguém olha para trás e se dá conta de tais mudanças.

Diante do atual estado do nosso planeta, muitas dessas novas condutas têm sido impulsionadas – menos pela boa-vontade do que pela necessidade – pelos níveis alarmantes alcançados pela degradação ambiental, proliferação de doenças antes inexistentes e outras pragas da modernidade.

Não importam as causas inspiradoras dessas nobres ações, e sim o fato de que tais mudanças servem como alarme para uma maior conscientização em vários aspectos. É nas pequenas coisas que se pode perceber que essa preocupação com o macro passou a ser uma tarefa de todos.

Consciência ecológica

Antigamente, as feiras de ciências das escolas consistiam em umas trapizongas criadas pelos alunos: um vulcão de mentirinha de onde saía fumaça, a demonstração de certos líquidos que não se misturam, a apresentação da água em seus três estados, um monte de lentes em cima de uma mesa para observar os prismas formados pela incidência de luz e coisas do gênero.

Este ano, no lugar da feira de ciências, a escola onde trabalho realizou uma feira de meio ambiente. Nada contra a conscientização ecológica, muito pelo contrário. O problema é que essa substituição aparentemente inofensiva da tradicional feira de ciências por uma feira do meio ambiente é um indício das grandes proporções que os problemas ambientais vêm alcançando.

O lado bom disso é a conscientização ecológica que esses eventos promovem junto a alunos e professores. Para os jovens de hoje, deve doer a vista ver alguém jogando lixo em ruas, rios e mares. Lembro-me de lá pelos meus 14, 15 anos ter visto uma mulher tomando banho de xampu e sabonete em uma cachoeira; aquela cena me causou certo incômodo, mas, como as pessoas ao redor não estranharam, não me manifestei. Se esse fato tivesse ocorrido atualmente, creio que nem eu nem as pessoas presentes assistiríamos caladas à cena. É provável que nem mesmo a mocinha teria coragem de repetir tal ato.

Consciência antitabagista

Nesse mesmo período de minha vida, tenho a nítida recordação de passageiros fumando dentro dos ônibus, e mesmo os motoristas e trocadores, apesar das plaquinhas de “proibido fumar”.  Hoje isso não acontece; é muito raro alguém acender um cigarro dentro de um transporte coletivo, e se isso ocorre os próprios passageiros começam a reclamar.

Em shoppings, escritórios, restaurantes e até em certos bares, o fumo também foi proibido. Os comerciais de cigarro – que esbanjavam saúde e espírito de aventura – deixaram de ser veiculados na TV. E até mesmo a indústria do cinema, que sempre colocava em suas estrelas uma charmosa cigarrilha entre os dedos, deixou tal associação de lado, substituindo as fumantes pelas anoréxicas – o que parece também não ter sido uma boa escolha.

Consciência sexual

Outra mudança que se pode observar entre os adolescentes – apesar de a contaminação pelo vírus HIV ainda ser grande e de as meninas continuarem engravidando cedo – é a incorporação da camisinha à sua vida sexual. Diferentemente da geração dos anos 1980 e início dos 1990, que demorou a se acostumar, pois achava que a AIDS só acontecia com “os outros, com os gays, drogados e promíscuos”, e que transar com camisinha era como “comer bala com papel”. Nestes tempos, quem não usa preservativo é que é chamado à atenção e rotulado de inconsequente.

Consciência hídrica

Certa vez estava lavando louça em uma festa na casa de um conhecido quando uma francesa passou pela cozinha. Ao observar que eu deixava a torneira aberta ininterruptamente – gesto típico de quem mora em um país-tropical-abençoado-por-Deus-com-água-para-dar-e-vender –, a gringa deu um pulo em cima da torneira, fechando-a imediatamente e ainda me deu uma bronca: “você está gastando muita água, não é assim que se lava louça!” Engoli em seco e vi que ela tinha toda a razão. E, desde então, só abro a torneira para enxaguar. O mesmo ocorre na escovação dos dentes e na hora do banho. E vejo que pessoas ao meu redor andam fazendo o mesmo... outras não. Como os “lavadores de calçada”, que, ao invés de varrerem o chão, ficam horas para remover as folhas caídas com a força do jato. Não satisfeitos, ainda direcionam os resíduos para os bueiros mais próximos – que provavelmente entopem na chuva seguinte.

Nos países europeus, a reciclagem de água vem sendo utilizada há tempos. Portugal e Alemanha são dois exemplos de países que fazem reaproveitamento de água de chuva. No Estádio Olímpico de Berlim, construído para a Copa do Mundo de 2006, a água da chuva é captada através de uma rede de canos e aproveitada para lavagem de banheiros e de pisos e para a irrigação de jardins.

Em residências, por exemplo, a água usada no banho poderia ser reaproveitada para a descarga do vaso sanitário ou para lavagem do quintal.

Atitude consciente de cada um

Foram muitos os danos causados à natureza – alguns irreversíveis –, mas tais exemplos são pequenas demonstrações de que o homem vem tentando reparar os erros cometidos, e com isso se torna mais consciente em relação à sua própria espécie e ao meio ambiente. Se cada um fizer a sua parte...

Publicado em 18 de dezembro de 2007.

Publicado em 18 de dezembro de 2007