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Difícil não é a poesia

Luis Estrela de Matos

Poesia não é difícil ... pois bem. Poesia não é difícil é o título de uma obra do escritor, crítico e tradutor, Carlos Felipe Moisés. O título, mais do que sugestivo, produz um desafio no leitor que enfrentar aquelas páginas. Mas antes que vocês, meus prezados leitores (porque ouvir também é ler...) imaginem que se trata de uma obra pesada e chata, afirmo, sem medo de errar, que são páginas mais doces e afetivas do que se possa imaginar.

E por que, pensa o ouvinte pensante, a palavra desafio? Porque num mundo tecnologicamente escravizado, porque num mundo onde todos se esforçam para serem iguais (e se alguém tiver dúvida basta pensar na reeleição de Bush ou será bush de canhão?), nesse mundo onde o mesmo alcançou privilégio de conceito, onde a prosa vive das benesses decrépitas de um gênero (romance) do século XIX que açambarcou as formas de se expressar quase que integralmente, nesse mundo, a poesia torna-se uma experiência solitariamente singular. Porque é algo desafiante enfrentar um livro no mundo de hoje. Ler é uma batalha e uma grande alegria. Mas só conseguimos ler de verdade quando aceitamos a batalha e só experimentamos a alegria quando o ler nos faz ver (visão platônica?) o além da própria experiência do instante. E por instante digo: o espaço que me cerca, a roupa que visto, os sons que escuto, as palavras que me dirigem... o tempo do relógio na parede... enfim... o pulo invisível de um gato chamado espanto.

Mas antes que o gato preto de Edgar Allan Poe pule do livro e atravesse os meus olhos, preciso retornar ao fio, que mesmo não sendo o de Ariadne, deverá me levar por esse labirinto textual de uma lógica que se quer coerente e coesa. Opa!!! Eis aqui um sério probleminha... é que procuramos lógica no poema... E aí, saímos estudando métrica, tipos de estrofes, cesura, rimas (ricas e pobres), saímos tentando catalogar (e a doença da taxionomia nos acompanha desde o século XVIII... exemplarmente observado por um tal de Michel Foucault), saímos tentando catalogar e etiquetar uma coisa que pode ou não viver no poema. O verbo poder aqui se divide com a força e o desejo do leitor. Pois um poema só vive nos olhos de quem o sabe ler.

Ler com os olhos? Ler com o coração? Os clássicos talvez ficassem com os olhos e o românticos (acreditavam, eu creio) que ficavam com o coração (essa fábrica que nunca dá férias coletivas para os demais órgãos). E para complicar tudo aparece o poeta mais-que-famoso Fernando de todas as pessoas nos dizendo que o poeta é um fingidor... Resumindo este pequeno trecho e tentando ser o mais claro possível: a partir dos modernistas a cabeça não está mais na cabeça.... e o coração ... bem... o coração anda de namoricos com as demais partes do corpo de uma figura que ousamos chamar de Homem.

Para quem consegue me ouvir (e me ler) sabe que eu comecei esta aventura textual com a palavra poesia e depois entrei pelo poema rio adentro. Porque o poema é rio, é dentro, é margem, é coisa. E quem negaria a materialidade da coisa que se chama poema e que vive no papel, na parede, na tela ou mesmo no espaço? (holopoesia é uma realidade hoje). Ainda que semanticamente poema seja algo por demais instável. De qualquer maneira, é uma composição. Tem uma estrutura. Agora, para nos complicar (e se fosse fácil não teria muita graça ...) temos a poesia ...... que não é coisa... embora seja um fazer... um poéisis que vive no sopro e nas mãos do artesão do verso. Juro que não vou discutir o sexo dos deuses, digo deuses, pois Aristóteles era grego. Deixem essa mímesis pra outro dia, por favor... diria o construtor deste texto que ser quer claro e coeso. Voltemos à poesia ... E se ela é imaterial (no sentido que estou tentando elaborar há alguns minutos) é óbvio que ela existe no texto em prosa... seja um romance...um conto, ou mesmo numa peça de teatro. Arriscaria dizer que a poesia existe nas coisas.... e sendo um poema uma coisa.... ela (a poesia) talvez possa respirar nele... e só respira o que está vivo. O leitor-ouvinte mais-do-que-antento se perguntaria: quer dizer que um poema pode não conter poesia? Um poema pode nascer morto?- indagaria meu bom ouvinte... E eu responderia... leia os nossos parnasianos e tire suas próprias conclusões... E para quem gosta de comprovação maior do que disse agora, cito uma estrofe do grande Cabral de Melo Neto em sua obra certeira chamada psicologia da composição:

Não a forma obtida
Em lance santo ou raro,
Tiro nas lebres de vidro
Do invisível;

Em lance santo ou raro... busca artificial do que é santo e do que é raro. Lance santo, gênio, ôpa... romantismo... e a ideia de poesia do coração... E raro?? Raro talvez tenham sido nossos parnasianos... seres anacrônicos da república velha. Por que um vaso grego??? Não tínhamos o nosso próprio barro colonial? E os vasos marajoaras??? Por que Cabral é tão importante? Perguntaria outro ouvinte curioso e leitor paciente das entrelinhas? Por que se fala tanto dele hoje em dia? Indagaria complementando o avalanche de seu pensamento... E eu tentaria responder: pelo simples fato que grande parte de sua obra é um término na ideia de poesia como algo melodramático, romântico, musical.... Poema sem música? Gritaria ele. Eu abaixaria minha voz e retrucaria: Cabral sempre afirmou que sua poesia era visual e não sonora...Cabral enfrenta o branco ameaçador do papel (ou da tela de um pc nos tempos atuais) e resolve dispor as palavras (suas abelhas domésticas, como ele diz nesse mesmo poema) no trabalho paciente e certeiro de uma ideia que se quer poema. Mas para fazer as pazes com esse meu ouvinte agitado transcrevo a parte VI do poema:

Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelo;
não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;
mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,
aranha, como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

Essa forma atingida, essa ponta de novelo que obstina o poeta artesão... é esse esforço quase sobre-humano (ouso dizer que o poeta dialoga com os deuses... Hoelderlin seria um bom exemplo dos românticos alemães... mas voltemos para os trópicos), esse esforço é que talvez consiga fazer o poema respirar de verdade... ou seja ... ser poesia. Mas, atenção, meu nobre ouvinte..., não o encontrar gratuito como se encontra uma concha, perdida entre o acaso... Pausa: parece-me explícito a intenção da poética cabralina. Nada de acaso, nada de santo... nada de concha...em suma: nada de inspiração. O trabalho do poeta é o trabalho invisível e infinito de uma aranha e se a teia for percebida (tomara que nossas mãos não sejam tão grandes como as do poema) então conseguiremos ver a poesia no poema, vale dizer, o fazer da aranha em sua teia... E aqui se registre (embora eu nada esteja dizendo de novo) se registre que Cabral sempre gostou de nos deixar a sua carpintaria exposta... A oficina e seus instrumentos compõe a estrutura do próprio poema... e para quem gosta de conceitos, aí vai mais um: metalinguagem. Cabral brinca com a ideia de poesia como se fosse uma revelação do espírito santo. Gosto de Cabral porque ele (juntamente com Oswald nos anos 20 e os concretistas dos anos 50) mostra à nossa frágil e intocável tradição litero-intelectual que o poema não é um lugar sacrossanto onde precisa se esconder as ferramentas de trabalho. Não!!!... a aranha deixa o seu fazer na própria teia. A tradição romântica e, depois, o espírito parnasiano, muito nos enfraqueceram poeticamente. Mas como o mundo está sendo sempre revisto (ainda que a releição de BUSH nos prove o contrário) um dia, não muito distante, haveremos de realmente saber quem fez grande poesia e quem foi escritor de encomenda neste grande território da terra brasilis.

E tentando uma sinuca de bico, o meu nobre e venerável (e paciente) ouvinte-leitor, atacaria por último: e o que é poesia?

No dia que os homens souberem o que é isso: acabam-se as esculturas, acabam-se as músicas, acabam-se os poemas... e os quadros. Acredito que o homem faz o que faz (arte) para tentar trazer à tona, tornar visível (ou melhor: minimamente visível) aquilo que é da ordem do inapreensível. Gosto muito de um livro (que o andei relendo para este nosso encontro - O arco e a lira - do poeta e prêmio Nobel de literatura, Octavio Paz) e nele o autor afirma:

Os estilos nascem, crescem e morrem. Os poemas permanecem, e cada um deles constitui uma unidade autossuficiente, um exemplar isolado, que não se repetirá jamais.

Em suma: a experiência do poema é algo único e intransferível. Mas não se preocupem se andaram comprando Drummond. Ou Murilo Mendes, ou mesmo João Cabral e nada entenderam por hora. Saibam que o poema exige convivência... não é uma historiazinha com começo meio e fim... Talvez por isso o romance exija menos do leitor. Poesia é corte abissal no tempo. Se não nos permitirmos ler um poema, experimentá-lo na sua inteireza, nunca conseguiremos extrair a poesia que nele respira...O mesmo vale para uma música e para um quadro... Existe quadro sem poesia? Existe música sem poesia? Que me perdoem os pintores de fim de semana, pintores de barquinhos e coqueiros... e flores para decorar a mesa da sala de jantar. Que me perdoem os músicos das calcinhas pretas, verdes, azuis, amarelas, brancas e de todo o arco-íris que nem o nosso Newton imaginou...Existe poesia aí? Não!!!!! Não e não!!!! O que existe é comércio... e como o mundo é regido pelo comércio (novamente a reeleição do texano confirma o caso), nada mais natural do que acharmos poesia algo difícil... Teríamos que fazer opções. Teríamos que saber usar nossas aptidões ( e todos as têm) e nossas qualidades estéticas para sabermos separar o joio do trigo... Um bom começo? Um pouco menos de "plim-plim" da globo e bem mais o barulho silencioso de uma página sendo virada numa madrugada perdida na imensidão da leitura do mundo. Ler é ler o mundo. E quando aprendemos a ler o mundo... a "poesia das coisas irá transpirar em cada poro da matéria..." Então, perceberemos que a poesia não é tão difícil assim... difícil, pelo menos para este pobre mortal que vos fala, é o mundo em sua atualidade disforme repleto de um caos nada produtivo.

Publicado em 06 de fevereiro de 2007

Publicado em 06 de fevereiro de 2007