Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Recife ferve nos 100 Anos do Frevo

Léo Silva

Voltei Recife

Voltei, Recife
Foi a saudade
Que me trouxe pelo braço
Quero ver novamente "Vassoura"
Na rua abafando
Tomar umas e outras
E cair no passo
...

Luiz Bandeira

Este ano está se comemorando os 100 anos do "nascimento" do ritmo que embala os carnavais pernambucanos. O que marca essa data foi a publicação, pela primeira vez, da palavra em um jornal.

O ritmo e a dança, de fato, nasceram juntos e bem antes disso. Apesar de, no início, "frevo" se referir ao ritmo e "passo" a dança, os estudiosos do tema dizem ser impossível determinar quem veio primeiro.

Todos os que pesquisam o tema estão de acordo, ainda, que ambos - música e dança - surgiram na segunda metade do século XIX, quando os capoeiras seguiam as bandas militares que se apresentavam pelas ruas de Recife.

Nesse período, as duas principais bandas eram o "Espanhol" e o "Quarto". O nome da primeira devia-se ao fato de o regente da banda da Companhia da Guarda Nacional ser espanhol. O da segunda fazia referência à unidade a qual pertencia, o 4o Batalhão de Artilharia.

A identificação de capoeiristas com uma ou outra banda fez que, sempre que os dois desfiles se encontrassem, houvesse brigas.

Em entrevista para o portal 100 anos de Frevo, o historiador Leonardo Dantas Silva observa que, como a capoeira estava proibida, a solução que os lutadores encontraram foi usar sombrinhas ao invés de paus e facas nas brigas. Dessa forma, nasceu uma das marcas da coreografia do frevo, naturalmente influenciada pela capoeira. Hoje existem mais de 120 passos de frevo.

Segundo a antropóloga Rita de Cássia Barbosa de Araújo, do Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco, em entrevista para a Revista do Iphan, o frevo também deve ser visto como uma forma de resistência popular ao carnaval que então era praticado pela elite pernambucana, "centrado nas máscaras, alegorias e na crítica social dos costumes". Outra forma, ainda praticada, são os maracatus.

Quem já esteve em Recife pulando atrás do Galo da Madruga ou subiu e desceu as ladeiras de Olinda seguindo o Bloco da Saudade não tem dúvidas de qual foi o estilo que predominou. Mas cabe sempre a ressalva: o carnaval pernambucano não é só frevo.

Ao longo de sua história, o frevo assumiu uma de três formas: o frevo-de-rua, só instrumental; o frevo-canção, que incorpora letra, e o frevo-de-bloco, que nasce das serenatas no início do século XX.

Apesar de pernambucano, o frevo foi gravado pela primeira vez no Rio, na década de 1920. A maior contribuição para a divulgação e preservação da memória do gênero foi dada pela gravadora Rozenblit, fundada em Recife, em 1953.

Foi criando para o estilo que apareceram compositores como Luiz Bandeira, autor da música que aparece na abertura dessa matéria e regravada por Alceu Valença, que também tem cantado sucessos de outro importante compositor de frevos, José Michiles, autor de Me Segura senão eu caio.

Mas dos músicos que se dedicaram ao estilo, com certeza o mais importante é, sem dúvida, Lourenço da Fonseca Barbosa. Paraibano de nascença, Capiba, como é mais conhecido, é autor dos frevos De chapéu de Sol aberto e Amanhã eu chego lá. Além de frevos, ele musicou versos de Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e Ariano Suassuna.

O frevo também influenciou e inspirou compositores baianos como Gilberto Gil, Caetano Veloso - Samba, suor e cerveja e Atrás do Trio Elétrico - e Moraes Moreira, autor, entre outras de Festa do Interior.

Essa vertente baiana do frevo deve muito, ou melhor tudo, a Dodô e Osmar, que revolucionaram o ritmo na década de 1950.

Influenciados pela apresentação do bloco "Vassourinhas", no carnaval de 1950, em Salvador, Adolfo Nascimento e Osmar Álvares Macêdo resolveram incorporar ao som marcial de Pernambuco a "guitarra baiana" ou "pau-elétrico", mas conhecidos como guitarra elétrica. Dodô construiu o primeiro instrumento desse tipo no Brasil em 1943, um ano depois do americano Les Paul ter iniciado seus testes.

Durante as "folias momescas", como se dizia muito antigamente, eles começaram a se apresentar em um Ford 1929, inspirados nos antigos desfiles de corso. Esse carro é o patriarca de todos os trios elétricos do Brasil. Com Dodô e Osmar começa uma outra história, de outros carnavais.

Outros links

Publicado em 06/01/2007

Publicado em 06 de fevereiro de 2007