Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Pessoa, Florbela, Drummond e Vinicius

Luis Estrela de Matos

Estranhas formas de amar:

Um Fernando e muitas Pessoas. Uma multidão em Lisboa (quem sabe, do mundo?) num corpo só. Sempre só ... mesmo quando "fingiu" amar Ophélia. Sim... Pois todo amor do poeta foi dedicado à escritura, às palavras além das palavras. Um modo de vida que só se realiza na arte... de escrever e de pensar. E o pensar nunca deixou a existência do poeta realizar-se no banal da vida diária. Pobre Bernardo Soares tão carregado de desassossegos. Mesmo quando escrevia cartas à Ophelia, percebe-se um colocar-se na vida carregado de ideias e sofrimento. Mesmo que esse fingir mascarasse outras inquietações além-homem. O poeta é um fingidor. E a dor que deveras sente poucos podem senti-la. E de tanto senti-la sozinho, fora o pequeno círculo dos modernistas lisboetas, sobrecarregou-se de um excesso etílico e cedo partiu. Até porque seus filhos já estavam no mundo. Caeiro, mestre do invisível, Pessoa-por-ele-mesmo, Soares e suas intermináveis inquietações, Ricardo Reis e seu aprumo clássico, e o estonteante engenheiro do verbo, Álvaro de Campos. Quanta terra fértil, quanta natureza, que até hoje nos deleita, nos acaricia... nos redime de nossa mesmice e ... e ... nos faz pensar. Uma poesia para o coração do pensamento justamente onde o pensamento só pode ser o coração.

Florbela é um susto. Uma mulher além-fronteiras estreitas de um Portugal relutante em aceitar o século que chegava. Um soluço, uma espera... eis duas pequenas palavras do mundo de Espanca. Realmente, triste trocadilho, espanta nossos mais íntimos sentidos alguém tão presente no dizer da experiência impossível... amar é mesmo impossível. Pessoa, Sá-Carneiro, Espanca... o amor, às vezes, é cruel com os homens.

No escondido das Gerais a voz do fundo das Minas... uma voz de Carlos, que a vida o fez gauche e que o anjo torto sempre deixou-lhe as boas (e imprescindíveis) pedras pelo caminho. Mas no meio do caminho, além das pedras, havia o amor. Um amor do tamanho da vida (metrificável a vida?), do tamanho do tumulto sereno das cadeias infindáveis das montanhas. Montanhas de um amor seleto. Como diz o poeta: "amiga, amada, amada amiga, assim o amor dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo (...)". Por isso o amor combate... uma arma cheia de surpresas e esquinas. É possível amar sem sofrer? E também o Drummond dos poemas eróticos. Por trás do funcionário público o desejo mais recôndito da alma que se quer carne. Alma mineira em corpo de homem. Com direito a braços, pernas, seios, sêmen e tudo o que a vida nos faz no infinito de um quarto de hotel. Como diria o grande cineasta italiano Fellini: "Nada se sabe... tudo se imagina".

Vinícius é o excesso. Transborda em gozo e doação. Nos deixa seus amores (que sejam) eternos ainda que humanos. E que durem nesse grande universo que é o amor. Amar além por entre. Por dentro. Acima e embaixo. Amar no escondido do exposto. E se expor ao risco Um risco no céu e os anjos tortos nos dizendo que é assim mesmo, que amar é um desenho além da figura. E tantas figuras iluminaram a vida do poetinha. Amor desbragado pela vida. Amor homem de mulher e fêmea que se quer homem... nesse grande resultado que é o um. De dois faz-se o um. Matemática dos diabos. Engenharia de outras conspirações... A lua sorrindo toda faceira enquanto o sol esconde sua porção mulher. Sem sexos, sem nexos. Apenas a ligadura de uma carne que se quer amor. Vinícius se quis assim... uma ponte do grande infindável sentir da vida... que se resume num difícil verbo: amar.

Publicado em 13 de fevereiro de 2007.

Publicado em 13 de fevereiro de 2007