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Um Lugar que Conheço

Pablo Capistrano

A senhora May McKewon, de 68 anos, mora sozinha numa fazenda no noroeste do estado australiano de Nova Gales do Sul. Sua família vive nesse lugar desde 1800. São 2400 hectares nos quais a família cria gado. Há sete anos, o filho da Senhora McKewon deixou a propriedade para tentar a vida em outro lugar. Desde então ela vive sozinha, tentando alimentar seu gado para manter ativa a propriedade da família. Para espantar a solidão e passar o tempo, a Senhora McKewon escreve poesias. Numa delas, intitulada "Seca", ela escreve, "O sol queima a planície poeirenta. O vento quente arrasa e rasga. Não chove há anos, e os pastos estão secos". A fazenda da senhora McKewon mudou nos últimos anos. Não é mais o lugar que ela conheceu na infância. O clima foi alterado. Está mais quente, mais seco, e agora a Austrália enfrenta a pior seca dos últimos cem anos. A situação é desesperadora.

Cenários como esse são comuns para o povo do sertão. Minha avó contava que havia ouvido de seu pai, Manoel Marques, notícias sobre a seca de 1877 e de como João de Lima (avô do meu bisavô), que habitava a Serra que leva o nome da sua família (Serra do Lima), viu a família toda morrer junto com a fome que assolou o oeste potiguar naquela época. O grande problema é que esses cenários de morte e sequidão podem ser estendidos para outras partes do globo, produzindo um desequilíbrio econômico e sóciopolítico jamais presenciado na história da humanidade.

 A questão não é apenas a mudança do clima, que modifica a vegetação, destrói as espécies animais e produz fome. Essas mudanças já ocorreram em outras eras e foram responsáveis pela extinção de muitos grupos humanos e diversas espécies animais. O problema central é a velocidade com que isso vai acontecer. Caso essas mudanças ocorram com rapidez, não será possível nem prever os seus desdobramentos, nem desenvolver políticas públicas que permitam às sociedades humanas se adaptarem às mudanças.

O que isso implica? Que a segurança de seu "mundinho" está em risco. O conforto de ir a um supermercado encher seu carro de carboidratos e proteínas para alimentar seus filhos está em risco. Seu confortável way of life, com certeza, será a primeira vítima de um cenário no qual mudanças ambientais se processam com velocidade acima do previsto. Chegamos num ponto sem retorno. Se em dez ou vinte anos a Amazônia secar, por exemplo, como secou há dois anos atrás, o clima do Brasil será alterado de modo tão violento que a agroindústria poderá sofrer sérios abalos e a economia do país irá para o ralo. O que é possível ser feito agora para que isso não ocorra e você não tenha o desprazer de ver seus filhos morrerem de fome, como João de Lima viu em 1877, lá no alto da Serra do Lima, no Rio Grande do Norte?

Primeiro: pressionar politicamente seus governos (aliás, você votou em quem mesmo para deputado federal na eleição passada?) para que sejam feitas mudanças na matriz energética, a fim de diminuir a velocidade do aquecimento. Queimar petróleo é acelerar o processo. É preciso retardá-lo para que os governos dos países afetados tenham tempo de prever corretamente os cenários futuros e possam se adaptar às mudanças. Segundo: pressionar seus governos (aliás, você votou em quem mesmo para deputado estadual nas eleições passadas?) para que medidas básicas possam ser implementadas agora, para que possamos nos adaptar às transformações que já começaram. Sem essas duas atitudes seu futuro tornar-se-á sombrio e seco, como sombrio e seco é o presente da Senhora McKewon, que viu o lugar no qual ela vivia (um lugar que ela conhecia bem) mudar num prazo muito curto de tempo.

Publicado em 6 de março de 2007.

Publicado em 06 de março de 2007