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A escola dos meus sonhos não existe

Almir Almeida de Oliveira

Frei Betto, militante político de esquerda desde a ditadura militar e grande pensador do Brasil, filósofo dos tempos atuais, divulgou um texto no jornal O Estado de S. Paulo, intitulado "A escola dos meus sonhos", no qual faz sérias críticas à educação escolar tradicional, mas colocava-se cheio de esperanças e profetizando uma educação totalmente voltada para a vida e sem preconceitos.

O texto deixou-me encantado, devido à tamanha sabedoria, humildade e bem dosado, com um pouco de ingenuidade. Fez-me refletir, alimentar esperanças e decepcionar-me, pois 'a escola dos meus sonhos' está distante, talvez impossível de acontecer. Gostaria de possuir essa fé dos religiosos para as mudanças, porém a nossa história não é de fé, é de continuísmo.

A escola dos meus sonhos, com suas aulas de eletricidade, hidráulica, mecânica e de marcenaria está de longe se tornar real e substituir os aulões de Matemática que buscam levar os alunos a um conhecimento mínimo para que passem no vestibular. E substituir as avaliações de História cheias de datas e episódios, com suas autenticidades suspeitas, porém decoráveis e indispensáveis para a nota, por uma aula voltada para o conhecimento e a criticidade da realidade.

A escola dos meus sonhos, na qual todos os temas são tratados com abertura e profundidade, sem preconceitos e preferências, ainda está distante, uma vez que religião só a católica; de morte ninguém quer falar; a sexualidade é profana, transcende a aula e só é tratada quando o professor quer enrolar aula. E quem falar em política quer perder o emprego...

A escola dos meus sonhos, enraizada em ideologias e com professores periodicamente capacitados, só vai existir quando as massas burguesas perderem o poder de manipulação e o povo - principalmente alunos e professores - notarem a importância e o poder que têm na sociedade. E só teremos profissionais bem capacitados no momento em que eles virem a riqueza que uma boa preparação pode trazer-lhes e buscarem-na; e não ficarem à espera de, a cada seis meses, a Secretária de Educação mandar uma equipe de capacitadores graduados (apenas graduados) para ministrar esses estudos.

A escola dos meus sonhos, com professores exclusivos para cada autarquia de ensino, ganhando satisfatoriamente bem e voltados mais para a educação que para a instrução, é impossível, pois os sistemas burocráticos, com seus excessos de registros e ações e metas preestabelecidas, esgotam o tempo de o professor se preparar de verdade e realizar um trabalho voltado para a mudança e a conscientização da sociedade; essa escola só vai existir quando as avaliações deixarem de ser apenas obrigações burocráticas e passarem a ser diagnósticas, não tachando o aluno de bom ou mau; identificando as suas dificuldades para resolver em diálogo com ele, lutando para solucioná-la; aliás, esse é o oficio do professor...

E o salário? Ah, na escola que eu vejo quando estou acordado, o professor só vai receber bem quando não houver mais escolas.

Pubicado em 18/3/2008

Publicado em 18 de março de 2008