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A Carta da Escola Moderna

Tradução de Cláudia Dias Sampaio

Disponível em francês em www.icem-pedagogie-freinet.org.

Apesar de a Carta ter sido redigida em 1968, em muitos aspectos sua filosofia ainda permanece atual. Ela é o texto-base do Institut Coopératif de l’École Moderne – ICEM, movimento pedagógico criado em 1947 por Célestin Freinet, e da Federação Internacional dos Movimentos de Escola Moderna – FIMEM.

  1. Educação é eclosão e elevação, e não acumulação de conhecimento, adestração ou condicionamento.
    Com esse espírito, procuramos as técnicas e os instrumentos de trabalho, os meios de organização e de vida no panorama escolar e social que permitirão a plenitude dessa eclosão e dessa elevação. Atentos à obra de Célestin Freinet e seguros de nossa experiência, temos certeza de influenciar o comportamento das crianças (que serão os homens de amanhã) e o comportamento dos educadores chamados a lançar na sociedade uma nova contribuição.
  2. Somos contrários a todas as doutrinas.
    Não pretendemos definir o progresso da criança; ela é que irá nos educar para isso; nós não a preparamos para servir e aceitar o mundo de hoje, mas para construir a sociedade que garantirá o melhor de seu desenvolvimento. Recusamo-nos a forçar seu espírito a dogmas infalíveis e preestabelecidos, quaisquer que sejam. Nós nos dedicamos a fazer de nossos alunos adultos conscientes e responsáveis, que construirão um mundo de onde serão banidos a guerra, o racismo e todas as formas de discriminação e exploração do homem.
  3. Rejeitamos a ilusão de uma educação fechada em si mesma, que ignore as grandes correntes sociais e políticas que a condicionam.
    A educação é um elemento, mas não é o único elemento de uma revolução social indispensável. O contexto social e político, as condições de trabalho e de vida dos pais, como dos filhos, influenciam de modo decisivo a formação das novas gerações. Devemos mostrar aos educadores, aos pais e a todos os amigos da escola a necessidade de lutar socialmente e politicamente ao lado dos trabalhadores para que o ensino laico possa cumprir sua eminente função educadora. Nesse espírito, cada um de nossos membros agirá em conformidade com suas preferências ideológicas, filosóficas e políticas para que as exigências da educação se integrem no amplo esforço dos homens em busca da felicidade, da cultura e da paz.
  4. A escola de amanhã será a escola do trabalho.
    O trabalho criativo, livremente escolhido e totalizado pelo grupo, é o grande princípio, o fundamento mesmo da educação popular. Dele decorrerão todas as aquisições e por ele se afirmarão todas as potencialidades da criança. Pelo trabalho e pela responsabilidade, a escola assim reorganizada será perfeitamente integrada ao meio social e cultural de onde hoje ela é arbitrariamente afastada.
  5. A escola será centrada na criança. É a criança que, com nossa ajuda, construirá sua personalidade.
    É difícil conhecer a criança, sua natureza psicológica, suas tendências, seus impulsos, de modo a fundar sobre esse conhecimento nosso comportamento educativo. Contudo, a pedagogia Freinet, orientada para a livre expressão pelos métodos naturais, possibilita um ambiente favorável, material e técnicas que permitem uma educação natural, viva e cultural e opera uma verdadeira correção psicológica e pedagógica.
  6. A investigação experimental é a base, a condição primeira de nosso esforço de modernização escolar pela cooperação.
    Não há, no ICEM, nem catecismo, nem dogma, nem sistema aos quais poderíamos recorrer. Pelo contrário, expomos a todos os escalões ativos do nosso movimento a confrontação permanente das ideias, as investigações e as experiências. Animamos nosso movimento pedagógico de acordo com os princípios que se revelaram eficazes pela experiência nas nossas classes: trabalho construtivo é inimigo do falatório, atividade livre no âmbito da comunidade, liberdade para o indivíduo de escolher seu trabalho na equipe, consciente de sua disciplina.
  7. Os educadores do ICEM são responsáveis pela orientação e pela exploração de seus esforços cooperativos.
    São as necessidades do trabalho que levam nossos camaradas aos postos de responsabilidade, excluindo qualquer outra consideração. Nós nos interessamos profundamente pela vida da nossa cooperativa, porque ela é a nossa casa, nosso local de construção, que devemos alimentar com todas as nossas forças, o nosso pensamento e que estamos prontos a defender contra todo aquele que prejudicar nosso interesse comum.
  8. O movimento da Escola Moderna preocupa-se em manter relações de simpatia e de colaboração com todas as organizações laicas que trabalham nesse mesmo sentido.
    É com o desejo de servir o melhor possível à escola pública e acelerar a modernização do ensino que seguimos em nosso objetivo e propomos, independentemente de qualquer coisa, uma colaboração leal e efetiva com todas as organizações laicas comprometidas no combate que é o nosso.
  9. Nossas relações com a administração.
    Nas classes de trabalho que são nossos laboratórios, nos centros de formação de professores, nos estágios departamentais ou nacionais, nós estamos prontos a levar nossa experiência a nossos colegas pela modernização pedagógica. Mas nos propomos a preservar, nas condições de simplicidade de um especialista que conhece seu trabalho, nossa liberdade de ajudar, de servir e de criticar, segundo as exigências da ação cooperativa de nosso movimento.
  10. A pedagogia Freinet é internacional por essência.
    É pelo princípio de equipes cooperativas de trabalho que buscamos ampliar nossa atuação em escala internacional. Nosso internacionalismo é, para nós, mais que uma profissão de fé; é uma necessidade de trabalho. Constituímos, com nossos esforços entusiastas, sem qualquer outra propaganda, uma Federação Internacional dos Movimentos de Escola Moderna (FIMEM) que não substitui os outros movimentos internacionais, mas que age no plano internacional como o ICEM na França, de modo que se desenvolvam as fraternidades de trabalho e de destino que possam ajudar com eficiência a todas as obras de paz.

Carta adotada no Congresso de Pau de 1968.

Leia no Portal da Educação Pública o especial sobre Célestin Freinet, por Alberto Tornaghi.

Publicado em 8 de abril de 2008.

Publicado em 08 de abril de 2008