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O avesso do avesso

Mariana Cruz

A relação dialética entre o senhor e o servo em Hegel e o patrão e o operário em Vinícius de Moraes

Por vezes filosofia e poesia se misturam. Espaço e tempo também. Assim é que o hermético filósofo alemão Friedrich Hegel e o poetinha admirador das belezas tropicais Vinícius de Moraes se encontram. O pensador expõe sua complexa dialética no texto O senhor e o escravo, e o carioca através de sua poesia Operário em construção. Ambos os trabalhos trazem a mesma inversão de valores entre dominador e dominado. Os cenários e personagens é que são diferentes: um trata da relação senhor x escravo, e o outro da relação patrão x operário. Mas a dialética, nesses dois casos, é a mesma: o dominado, ao tomar consciência de si, de sua força e de sua importância, sai desse papel e percebe que, na realidade, o dominador é que depende dele e não ao contrário.

Vamos analisar primeiramente partes do texto de Hegel presentes em seu livro Fenomenologia do Espírito e vejamos como se dá essa relação dialética para o filósofo. De início ainda não está definido quem é o escravo e quem é o senhor. Há um combate, e aquele que se torna o senhor é o que prefere morrer a perder a liberdade; o que se torna escravo opta por continuar vivo, mesmo que não seja mais livre:

Buscar a morte do outro implica arriscar a própria vida. Por conseguinte, a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. Não podem evitar essa luta, pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si, sua certeza de existir para si; cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. (...) O indivíduo que não arriscou sua vida pode certamente ser reconhecido como pessoa, mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente.

No trecho a seguir é mostrado o momento em que o indivíduo torna-se senhor, isto é, quando toma consciência de si. Isso, porém, só ocorre porque tem uma outra consciência (a do escravo) que o reconhece enquanto tal:

O senhor é a consciência que é por si mesma, mas essa consciência, aqui, está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por uma outra consciência, notadamente por uma consciência cuja natureza implica o fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral. O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal, objeto do apetite, e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa.

O senhor é independente, graças à dependência que o escravo tem dele; sendo assim, não é verdadeiramente livre:

O senhor tem com o escravo uma relação mediata em virtude da existência independente, pois é precisamente a ela que o escravo está preso, ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta, o que o levou a mostrar-se dependente, posto que possuía sua independência numa coisa externa.

O senhor domina o escravo, uma vez que na luta contra ele sai vitorioso. O escravo passa, então, a ser propriedade do senhor e a trabalhar para ele.

Quanto ao senhor, ele é a potência que domina esse ser externo, pois provou na luta que o considera como puramente negativo; uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo, o senhor também o domina. Desse modo, o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo; este último, enquanto consciência de si, relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa; mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente, e o escravo não pode, por meio de sua negação, chegar a suprimi-la; ele só faz trabalhar.

O senhor toma o escravo como sua propriedade e este serve para saciar suas vontades; não consegue enxergar o escravo como um ser que tenha consciência de si. Para ele, o escravo só existe para saciar seus desejos, sendo força de trabalho.

Em compensação, para o senhor, graças a essa mediação, a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo; aquilo que o apetite não conseguiu, ele o consegue; domina a coisa e se satisfaz na fruição. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa; mas o senhor, ao colocar o escravo contra ela e si próprio, só entra em contato com o aspecto dependente da coisa, fruindo-a puramente; deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha.

Em suma, Hegel está investigando duas consciências (para simplificar, por “consciência” entendamos “pessoas”): uma que ganhou o combate e outra que deu sua liberdade em troca de sua vida. Aquele que preferiu se deixar escravizar a morrer e torna-se escravo (também) da vida; aquele que não se deixou aprisionar, arriscando sua própria vida, mostra-se superior a ela. O sujeito escravizado pelo vencedor não é morto por este, torna-se servo (servus = conservado) do senhor que, por sua vez, toma-o como uma espécie de troféu, de retrato de sua superioridade, de sua vitória.

O senhor, porém, não é senhor “em-si”, ele apenas tem essa posição em relação ao escravo. O escravo não trabalha para si; trabalha para o senhor, ele se apropria dos objetos existentes na natureza e os modifica para dá-los ao senhor. Tais objetos são transformados, saem de seu estado bruto e se tornam objetos acabados cuja finalidade é dar prazer ao senhor; este, por outro lado, não tem relação direta com as coisas, pois sua relação é mediada por seu servo.

A relação do escravo com a natureza é imediata: ele cuida do jardim, cozinha os alimentos, acende o fogo... Tudo para proporcionar conforto, prazer e saciedade ao senhor, que, de sua parte, não sabe fazer nada disso; encontra-se cada vez mais distante da natureza. A liberdade do senhor existe devido à dependência total, à submissão total do escravo em relação a ele.

Em um dado momento, tal situação inverte-se: o senhor tem seu contato com a natureza mediado pelo escravo; não tem nenhum domínio sobre ela; torna-se por isso cada vez mais dependente do escravo e, nesse sentido, é um escravo de seu escravo. Não sabe fazer nada com suas próprias mãos. O escravo, apesar de ser socialmente submisso ao senhor, tem o poder, sabe como transformar a natureza; por isso, ele é, nesse sentido, livre, dono de si, não depende de ninguém. Ele domina a natureza, ele é o senhor dela. Assim, pode-se dizer que, na relação escravo x senhor, o escravo passa a ser o senhor do senhor, pois ele tem o domínio da natureza e o senhor, não.

Mas para que ambos cheguem a uma síntese, a uma conciliação, o senhor deve aprender com o escravo como chegar ao domínio de si mesmo.

Após essa breve análise de texto hegeliano, vejamos agora o poema de Vinícius de Moraes, Operário em construção, que fala da relação operário x patrão e da tomada de consciência do primeiro em relação a sua força de trabalho, assim como ocorre com o “escravo” hegeliano:

Operário em construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: — Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: — Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás
(Lucas, cap. IV, versículos 5-8).

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão,
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção,
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
– "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação.
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não. 
Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia.
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão.
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário.
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido,
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

No poema, é possível perceber o momento da tomada de consciência do operário (servo), quando ele se dá conta do poder que tem, da sua capacidade de transformar a natureza. Vê que tudo que existe (“garrafa, prato, facão”) foi feito por ele.

O trecho em que o operário olha sua mão e percebe que não há no mundo coisa mais bela pode, de início, parecer uma contradição, já que de modo geral a mão de um operário tende a ser grossa, rude, cheia de calos; como poderia então ser bela? A beleza que ele vê está além das aparências; ele percebe que em suas mãos está seu poder de modificar o mundo, de transformar a natureza, assim como o servo de Hegel. Quando o operário toma consciência de si entra em outra dimensão (“a dimensão da poesia”). Isso talvez se dê pelo fato de ele agora conseguir perceber a beleza que existe em sua construção e reconhecer a si mesmo nos produtos que cria. Ele vai aos poucos se libertando do jugo do patrão e incentivando os outros operários a fazerem o mesmo, a tomar consciência de sua força, de seu poder de construção; vê que é o verdadeiro dono de tudo que existe, uma vez que tudo é construído por ele.

O patrão, ao se dar conta de tal reviravolta, tenta por todos os meios enfraquecer o operário: através da violência, do suborno... Mas nada consegue, pois o operário vê na sua liberdade o maior dos bens.

Da mesma forma que acontece com o servo hegeliano, o operário passa a ter consciência de que, na realidade, o patrão é seu dependente. Hegel, porém, vai além de Vinícius, ele pretende resolver essa inversão de papéis através do equilíbrio dessas duas forças. Tal teoria vem a ser fonte de inspiração para Marx. Mas aí já é papo para outro artigo...

Publicado em 20 de maio de 2008

Publicado em 20 de maio de 2008