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Nos tempos da agonia: do cartesianismo e seus fatos pontuais à felicidade do novo (holism) em direção ao século XXI

Prof. Dr. Eduardo Marques da Silva

Uma das percepções mais intensas e perturbadoras que se pode experimentar é a do passeio na montanha-russa. É preciso ter coragem, pois a adrenalina é alta, podendo acarretar consequências imprevisíveis. Qualquer pessoa pode dar uma volta por livre e espontânea vontade ou influenciada por terceiros, com receio de demonstrar seu medo; depois que ingressa em tal "brinquedo", o corpo experimenta as mais diversas sensações. O primeiro movimento não demonstra o que realmente está por vir: uma subida lenta, como se fosse um passeio agradável de fim de semana no bondinho do Pão de Açúcar contemplando a cidade; de repente... o "brinquedinho" despenca, arrancando gritos de desespero e pavor, como se todos os nossos órgãos fossem saltar pela boca; um novo tranco...

Uma nova subida, sensação de tranquilidade; o que nos espera é outra descida parecida com a primeira, só que acrescida de oscilações para a direita e a esquerda, como se estivessem aparafusando-nos. Subimos e descemos outra vez, fazendo curvas que antes achávamos impossíveis de serem feitas. Por incrível que pareça, o pior ainda está por vir: o loop. Uma volta completa no vazio, em que a única coisa que temos como certa é despencar de cabeça para baixo. Depois dessa voltinha, será que ainda sentimos medo de alguma coisa?

Não; nada mais nos assusta, e ainda conseguimos compreender a lição da montanha-russa: estar exposto às forças naturais e históricas agenciadas pelas tecnologias modernas. Aprendemos os riscos implicados tanto em se arrogar o controle de dessas forças quanto em deixar-se levar de modo apatetado e conformista por elas, o que não nos impede de suspeitar das intenções de quem inventou essa traquitana diabólica.
A imagem da montanha russa presta-se bem para indicar algumas das tendências marcantes de nosso tempo. Podemos observar como se deu, no veloz século XX, o século do não, a formação do famoso e propalado império globalizado e vislumbrar seus reflexos no Brasil afro-descendente, incluindo a corrida para o século XXI, que chamamos o século da esperança.

Usando a metáfora da montanha-russa, podemos dividir a tendência da recente história econômico-social do planeta em três partes:

  • Primeiro, a da ascensão contínua, metódica e persistente, representada pelo período do século XVI até o XIX, quando as elites da Europa Ocidental entraram numa fase de desenvolvimento tecnológico, assegurando domínio de forças naturais (fontes de energia, novos meios de transporte e comunicação, armamentos e conhecimentos especializados);
  • A segunda fase é aquela em que nos precipitamos numa queda vertiginosa, perdendo as referências do espaço, das circunstâncias que nos cercam e até o controle das faculdades conscientes; a incorporação e a aplicação de novas teorias científicas propiciaram o domínio e a exploração de novos potenciais energéticos em escala prodigiosa. É a fase da chamada revolução científico-tecnológica, em que se desenvolveram as aplicações da eletricidade, foram implantados novos meios de transporte: transatlânticos, carros, caminhões, trens expressos e aviões, novos meios de comunicação (telégrafo, rádio, fotografia e cinema). A queda está na passagem para o século XX, um mergulho no vácuo: a irrupção da 1ª Guerra Mundial descortinou um cenário jamais previsto; graças aos novos recursos tecnológicos, produziu-se destruição em massa. Tal fato só seria superado pela 2ª Guerra Mundial, com seus bombardeios aéreos, varredura e a bomba atômica. Só depois dela o desenvolvimento científico-tecnológico retornou.
  • A terceira fase foi a da síncope final e definitiva: um período assinalado por um surto dramático de transformações: a revolução da microeletrônica; a aceleração das inovações tecnológicas se dá agora em escala multiplicativa, com a ampliação, a condensação e a miniaturização de seus potenciais, que configuram completamente o universo de possibilidades e expectativas.

Por esse efeito perverso, a precipitação das transformações tecnológicas tende a nos submeter a uma anuência passiva, de síndrome do loop. Não podemos prever o curso e o ritmo das inovações tecnológicas, mas é possível fazer muitas coisas com a técnica, ainda que não se possa abolir a crítica, pois precisamos dela para descortinar novos horizontes. A estratégia a ser adotada deve basear-se em três movimentos distintos:

  • Desprendermo-nos do ritmo acelerado das mudanças atuais, para que possamos articular um discernimento crítico;
  • Recuperar o tempo da própria sociedade, que fornece o contexto no interior do qual podemos avaliar a escala, a natureza, a dinâmica e os efeitos das mudanças em curso; e
  • Sondar o futuro a partir da crítica em perspectiva histórica.

Concluímos que essa reflexão não deve se limitar aos interesses da sociedade; se, nas gerações atuais, a síndrome do loop abole a percepção no tempo, para enfrentá-la é preciso desdobrar esse tempo em seus três âmbitos: presente, passado e futuro. Há ainda a questão do surto vertiginoso das transformações tecnológicas, que obscurece as referências do espaço. Foi esse efeito que levou os técnicos a formular o conceito de globalização.
O século XX se distinguiu dos períodos anteriores pela tendência contínua e acelerada de mudança tecnológica com efeitos multiplicativos e revolucionários sobre todos os campos da experiência humana.

É possível dividir esse período em dois. No primeiro, prevalece um padrão industrial que era fruto do desdobramento das características introduzidas pela revolução científico-tecnológica de fins do século XIX. A segunda fase, iniciada após a 2ª Guerra Mundial, foi marcada pela intensificação das mudanças, imprimindo à base tecnológica um impacto revelado pelo crescimento dos setores de serviços, comunicações e informações; esse segundo período pode ser caracterizado como pós-industrial.

Com o fim da guerra, os Estados Unidos se viram numa situação privilegiada, como a mais forte, coesa e próspera economia mundial. Seu governo coordenou um vasto plano de apoio para recuperar as economias capitalistas da Europa Ocidental, dentro do contexto da Guerra Fria, concorrendo com o recém-ampliado bloco dos países socialistas. O dólar se tornou moeda padrão para as relações no mercado internacional, atribuindo-se a ele a consistência e a estabilidade que evitariam crises. O resultado foi o crescimento das economias industriais. Em todo o período, a riqueza cresceu cerca de 4% per capita ao ano. Após os 1990, a evolução ficou sujeita às oscilações causadas pela introdução da tecnologia microeletrônica. A economia internacional cresceu mais, desde 1945, do que em qualquer outro período histórico anterior.

A era da globalização

Nos anos 1970, várias medidas foram tomadas para dar maior dinamismo ao mercado internacional. Os EUA decidiram abandonar o padrão-ouro como base do mecanismo de sustentação cambial, gerando novos fluxos de capital que, agora livres dos controles e restrições antes exercidas pelos bancos centrais, voltaram-se para novas oportunidades de investimento no mercado mundial. Os capitais financeiros e as empresas transnacionais que atuavam em diferentes áreas do mundo foram os principais beneficiados com essa nova situação.

Tais medidas de liberalização contribuíram também para a concretização de um fenômeno denominado "era da globalização", que acabou provocando a separação entre as práticas financeiras e os empreendimentos econômicos. A especulação com moedas e títulos de diferentes naturezas, na esfera ampla do mercado globalizado, tornou-se um atrativo irresistível para os agentes financeiros.

A multiplicação de redes de computadores, de comunicações por satélites e de cabos de fibras ópticas desencadeou uma revolução das comunicações que permitiu uma atividade especulativa sem precedentes. A rapidez dos fluxos nessa rede mundial tornou o papel-moeda praticamente obsoleto, estimulando fluxos contínuos de transações eletrônicas. O montante das transações diárias do mercado financeiro mundial ultrapassa US$ 1 trilhão. Cerca de 90% desse total nada têm a ver com investimentos reais em produção, comércio ou serviços, concentrando-se no puro jogo especulativo.

A desmontagem do Estado do Bem-Estar Social

Essa mudança dramática na base tecnológica e na organização dos negócios se esquivou de quaisquer controles, fiscalizações, debates ou avaliações. Suas fases, suas operações, seus rumos ou consequências não foram discutidos em quaisquer foros internacionais, nem pelos governos e sociedades diretamente afetados por eles. Esse processo revela que as grandes corporações ganharam um poder de ação que tende a prevalecer sobre os sistemas políticos, os parlamentos, os tribunais e a opinião pública.

Desde a revolução científico-tecnológica até os anos 1970, a tendência histórica era de que os Estados nacionais controlassem a economia e as grandes corporações, impondo-lhes um sistema de taxação pelo qual transfeririam parte de seus lucros para setores carentes da sociedade, o que caracterizou a fórmula mais equilibrada de prática democrática, chamada "Estado do Bem-Estar Social". Com a globalização, essa situação mudou por completo. As grandes empresas adquiriram tal poder de produção, emprego de mão-de-obra e capacidade de negociação que tanto a sociedade como o Estado se tornaram seus reféns.

A capacidade de mobilidade, instalações, recursos, pessoal, informações e transação é tal que uma mesma empresa pode ter sua sede administrativa onde os impostos são menores, as unidades de produção onde os salários são mais baixos, os capitais onde os juros são mais altos e seus executivos vivendo onde a qualidade de vida é mais elevada. A tradução prática dessa receita é aumento da marginalidade, da violência, declínio do espaço público e da convivência democrática.

Capitalismo sem trabalhadores, sem Estado e sem impostos

Segundo o professor Ulrich Beck, a nova situação é a fórmula mágica dos homens de negócio: é o capitalismo sem trabalhadores unido a um capitalismo sem impostos. André Gorz construiu um quadro ainda mais completo e detalhado da nova situação: nos últimos 20 anos, os países da União Europeia se tornaram entre 50 e 70% mais ricos. Ou seja, a economia cresceu mais rápido que a população. Ainda assim, a União Europeia tem 20 milhões de desempregados, 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza e 5 milhões de sem-teto vivendo nas ruas.

Nos Estados Unidos, o crescimento econômico enriqueceu apenas os 10% da população que estão no topo da pirâmide da riqueza; esse grupo se apropriou de 96% de toda a riqueza adicional gerada no período.

Na Alemanha, desde 1979 o lucro das empresas subiu cerca de 90%, mas os salários aumentaram apenas 6%. Além disso, o montante obtido com o imposto de renda individual dobrou nos últimos 10 anos, ao passo que a quantia obtida com o imposto sobre os lucros das empresas caiu pela metade. Esse imposto contribui atualmente com apenas 13% do total das rendas do Estado; tendo caído em cerca de 25% do que representava em 1980 e em 35% do que era sua parcela em 1960. Se tivesse permanecido na base de 25% do total da arrecadação do Estado, ele teria arrecadado um montante adicional de 86 bilhões de marcos por ano nas duas últimas décadas. A maioria das corporações transnacionais, como Siemens e BMW, não paga mais taxa alguma em seus países de origem.

A evolução do quadro econômico ao longo do século XIX, com sucessivos saltos na produção agrícola ocorrendo em paralelo à industrialização das cidades, desmentiu as teorias de Malthus. No entanto, a polaridade que se estabeleceu entre os regimes comunistas e os capitalistas incendiou uma situação de confronto latente e um duelo de propaganda entre os dois blocos em que se dividia o mundo: a Guerra Fria.

A globalização, que anunciava trazer a produção de longo alcance – o que significaria larga escala – e tinha a função policial de combater bárbaros e rebeldes que ameaçavam sua ordem, vem sofrendo vários revezes. O poder do império está subordinado às flutuações da dinâmica do poder local e suas mudanças, bem como aos arranjos jurídicos parciais e mutáveis que buscavam (mas nunca conseguiram plenamente) levar a um Estado normal, por conta da excepcionalidade de métodos administrativos que poderiam tornar o mundo mais humanizado.

Mas os processos têm e continuarão tendo caracteres contraditórios, e a tão almejada união de justiça e paz teria ainda que esperar algum tempo. É um sonho que acalentamos em vão, mas que talvez ainda possa vir a acontecer no futuro. É como se costuma dizer: “Viver é fácil, difícil é conviver”.

Publicado em 10 de junho de 2008

Publicado em 10 de junho de 2008