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A Invenção da Ética

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Crônicas filosóficas

A primeira vez que eu ouvi falar de Sócrates foi em 1982. Tinha oito anos e estava começando a formar um discurso mais ou menos articulado sobre o mundo que me cercava. Meu país estava passando por uma grave crise que iria durar mais ou menos quinze anos, com depressão econômica, inflação e conturbações políticas que envolveriam a queda de um regime político, o surgimento de uma nova constituição federal, a morte de um presidente, o impeachment de outro e mais uma sensação aguda de desesperança. Um dia qualquer desses de 1982, antes que eu pudesse corporificar minha ideia de crise. Meu pai ficou muito ansioso. A URSS tinha feito um a zero no jogo de estreia da seleção brasileira na Copa da Espanha.

Aquele foi o primeiro jogo de futebol a que eu lembro de ter assistido. O Brasil virou: 2 a 1; e começou uma campanha maravilhosa que encantou o mundo e que poderia ter mudado o rumo do futebol contemporâneo, se não fosse aquela famigerada “Tragédia do Sarriá”, quando o time perdeu para uma retrancada e traiçoeira Itália de um Paolo Rossi que eu aprendi a odiar com todo meu coração. Foi naquele ano que eu conheci Sócrates. Ele era médico, como meu pai. Jogava bem. Fazia gol de calcanhar. Era alto e elegante e, além de tudo, parecia ser o mentor intelectual da “Democracia Corintiana”. O primeiro Sócrates que conheci era doutor. O segundo, era parteiro.

Sim, havia outro Sócrates ao qual o nome de um dos meus heróis da Copa de 82 fazia referência. Mas eu não tinha muita ideia sobre o que fazia esse “segundo Sócrates”. Anos depois descobri que o outro Sócrates era filósofo. Se o doutor da Copa de 82 era mestre na armação de jogadas e no gol de calcanhar, o Sócrates parteiro era mestre em fazer surgir ideias, como as crianças que sua mãe, parteira de profissão, ajudava a vir ao mundo.

Sócrates se tornou uma espécie de “santo da filosofia” através da descrição que Platão fez de sua condenação injusta e de sua execução. Nesse sentido, comparações entre Sócrates e Cristo são inevitáveis. Os dois são personagens trágicos. Ou seja, tanto os evangelhos canônicos quanto os diálogos de Platão que falam sobre a morte de Sócrates utilizam a estrutura das tragédias gregas. A morte de alguém muito superior a todos nós. A via crucis de Jesus e os momentos finais de Sócrates na prisão à espera da cicuta que o irá matar têm grandes semelhanças e grande impacto psicológico. O happy end da ressurreição e o discurso presente no Fédon (diálogo que descreve os momentos finais de Sócrates) aliviam um pouco o peso trágico dessas duas histórias. Sócrates morre sereno. Ele demonstra que todo seu esforço filosófico foi de se preparar para a morte. De construir um trabalho espiritual e mental que o deixasse firme, pleno e tranquilo diante do derradeiro instante. Sua superação da fragilidade desta vida se encontra na investigação sobre a própria vida. Ora, parece muito razoável. Sócrates pensou sobre o homem. Ele inverteu o curso da pergunta dos primeiros filósofos. Se antes a grande questão da filosofia era “o que é isso que constitui a natureza?”, depois de Sócrates a pergunta passou a ser “o que é isso que constitui o homem?”.

Sócrates inventou a ética e propôs uma investigação sistemática acerca da Justiça, do Bem, da Linguagem, da Virtude. Antes de saber como a natureza funciona, o homem deve pensar sobre o que realmente é importante nesta vida. Antes de mergulhar nos limites do universo e afundar nas partículas subatômicas, atravessar os planos multidimensionais ou retroceder no tempo em busca do Big Bang perdido, o homem deve saber de seus próprios limites. “Conhece a ti mesmo”. A frase que está na parede da cozinha da casa do oráculo, no primeiro filme da trilogia cinematográfica de Matrix, também era a frase que estava grafada na porta do oráculo da Ilha de Delfos, templo do deus Apolo, centro de peregrinação religiosa do povo grego.

A percepção dessa frase induz Sócrates a uma intuição básica. O papel da filosofia é preparar o homem para a morte, e para que o homem possa se preparar bem para a morte é necessário que ele conheça a si mesmo, que reconheça seus limites, sua própria ignorância e que pratique um tipo particular de esporte: a maiêutica. A arte de conseguir, por meio de perguntas e respostas, fazer surgir a verdade que mora dentro de cada um de nós, mas que, por arrogância e presunção, não conseguimos escutar. Nós nos calamos para essa voz interior. Fechamos os olhos para não enxergar nossa própria condição. Esquecemos nosso ser. Trancamos a janela para a luz de nossa casa não iluminar a rua. Mergulhamos na banalidade do mundo e nos surpreendemos quando a morte chega e diz: “Cartão vermelho! Fim de jogo para você”. A virada metafísica de Sócrates começa quando surge a ideia de que não importa quão grandes forem os mistérios do mundo; mais importante é encarar os mistérios de nossa curta e limitada existência.

Publicado em 22/01/07

Publicado em 22 de janeiro de 2008