Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Reflexão: pacto social

Péricles Gomes da Silva

Historiador

De fato há uma crise ambiental mundial. Essa catástrofe obriga-nos a reorganizar a forma em que vivemos e a conhecer melhor os ciclos da natureza e a atual necessidade de questionar os processos produtivos atuais e o próprio modo de consumo que tomou a sociedade. Devemos buscar, dentro de nossa condição vivencial, alternativas essenciais para uma possível minimização dos efeitos ambientais.

Indubitavelmente, a pesquisa genética proporcionou uma das maiores revelações da Biologia do século 20: todas as pessoas vivas são intimamente relacionadas. A partir daí, podemos afirmar que houve uma evolução multirregional dos humanos. Porém, se a genética nos relaciona, a sociedade em que atuamos nos separa em diferenças marcantes, étnicas, culturais e até mesmo em nossos traços de convivência pessoal. Na sociedade atual, nossas relações são marcantes, mais pelo lado negativo do que positivo. Vivemos um extenso momento de não-compreensão, não-aceitação; até nosso egoísmo do pessoalismo maquiado interromperá nosso desenvolvimento social.

A humanidade moderna se originou dentro de extensas tendências individualistas que, de certa forma, passaram a aceitar somente os limites de interesse, sem mesmo saber se são positivos ou negativos, se serão benéficos futuramente. Chamo a atenção para os estilos de vida entrepostos nas cidades, buscando uma adaptação moderna de forma antiga e não coerente com os padrões. Fica claro e evidente que as gerações futuras estão herdando um deserto poluído dentro de uma ecologia social, ambiental e religiosa.

Falo isto porque estamos agindo de forma paritária, coagidos socialmente e rompendo nossa comunhão com o desenvolvimento. A insustentabilidade é subproduto da concentração mundial de riqueza, em que os países ricos ditam as regras do jogo, propondo regras obscuras, deixando claramente marcas para os mais pobres que em um desconforto existencial vêm participando do jogo indiretamente e ficam estagnados num Índice de Desenvolvimento Humano perplexo, humilhante, quase sem alternativas. Abortamos nossas riquezas para 20% da população mais rica do mundo ditar o padrão de consumo e consumir 89% de tudo o que é produzido pela humanidade.

Será que há vida inteligente na Terra ou somos só vírus a infestar seu ar? Em nosso caso, parece que o Brasil insustentável está vencendo a luta, contra uma grande maioria da sociedade paralisada, voltada somente ao consumo e vegetando dentro de seu espaço vivencial, destruindo nossa proposta de futuro.

Em 1972, Indira Gandhi declarou: "o maior inimigo do meio ambiente é a miséria". Só podemos chegar ao desenvolvimento se o próprio homem se desenvolver, pois a sociedade atual está mostrando o resultado desse atraso paralelo ao desenvolvimento.

Na Baixada Fluminense, a infância corre risco. Com índice mais de duas vezes superior à média registrada no país, a desnutrição atinge 14% das crianças de 0 a 5 anos (Fonte: Jornal do Brasil), e outros 15% correm risco de desnutrição. Nossas taxas são equivalentes às do Zimbábue; entretanto, é importante relatar que um programa coordenado pela Secretaria da Baixada juntamente com órgãos públicos e representação comunitária vem acompanhando já há alguns anos essas crianças com ações contra a desnutrição infantil. Além da avaliação nutricional, o Crescer ampliou a distribuição de vales de leite e óleo de soja para menores em risco ou já desnutridos. O trabalho inclui acompanhamento por profissionais de saúde. As informações colhidas estão sendo armazenadas num programa que permite consulta e atualização de dados nos postos de atendimento em cada bairro.

A questão da desigualdade social alarmante faz com que a mortalidade infantil aumente no mundo; os próprios Estados Unidos enfrentam este problema, principalmente entre os negros, em que a mortalidade infantil chega a 15 por mil. O IDH do Brasil continua abaixo do índice médio de 0,797 da América Latina e do Caribe. O Brasil cresceu bastante no século XX, mas seus indicadores sociais avançaram pouco; o desenvolvimento econômico não levou à redistribuição de renda. As políticas de desenvolvimento necessitam ser repensadas, atreladas a uma reflexão sobre a desigualdade social no país.

Existe uma discussão na América Latina que tende a colocar a moral acima do direito à vida. Precisamos de um pacto social para lidar com isso, propondo alternativas saudáveis. O principal remédio para essa exclusão teria que partir da sociedade, uma espécie de mudança civilizadora; para tanto, há muito que fazer; a viagem é longa.

Publicado em 22 de janeiro de 2008

Publicado em 22 de janeiro de 2008