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Cultura visual e análise de imagens

Salmo Dansa

Apresentação

A iniciação à pesquisa pode acontecer de diversas formas. No caso das artes visuais, a experimentação se confunde com a própria práxis e com o percurso de desenvolvimento do artista; por isso, a pesquisa visual é predominantemente empírica, ou seja, um constante processo de aprendizado através da ação e observação.

O empirismo tende a propiciar a geração de ideias pela prática e observação, mas não a fundamentação teórica delas. O ilustrador parte da pesquisa empírica porque seu interesse é a informação visual, é alimentar uma determinada produção, mas o embate teórico é uma forma de elaborar e re-significar esses registros.

A partir 1997, iniciei meus estudos de pintura e intensifiquei minha atividade de autor e ilustrador. Essa foi minha iniciação na pesquisa, e desde então tenho dedicado boa parte desse tempo à análise de imagens, seja como pesquisa acadêmica ou direcionada à minha produção.

O objetivo deste trabalho é apresentar uma visão panorâmica, um modo de analisar imagens da Literatura Infantil e Juvenil pela ótica historicista da Cultura Visual, mas com o olhar contaminado pela vivência diária da atividade de ilustrador; portanto, inevitavelmente empirista.

Cultura visual

A análise de imagens da Literatura Infantil e Juvenil pelo conceito da Cultura Visual subentende duas possibilidades: a História das imagens ou a História pelas imagens. A primeira enquadra a imagem como objeto e desenvolve uma cronologia de um tipo ou grupo de imagens que se identifiquem entre si pela origem, forma ou função; é o caso da História da Arte. A segunda seria o uso das imagens como fonte historiográfica; nesse caso, os parâmetros de identidade seriam a relação entre objetos de diferentes formas, funções e origens, de acordo com o tempo e o espaço a que pertenceram. Nesse sentido, a pesquisa de cunho historiográfico sobre a ilustração de livros para crianças e jovens passa necessariamente pelo âmbito da Cultura Visual, seja pelo uso da ilustração como fonte historiográfica, seja pela designação de uma determinada História da ilustração.

O termo Cultura Visual surgiu na década de 1980, pela convergência de abordagens de diversas disciplinas e da percepção da crescente dimensão da visualidade e da consequente necessidade de aprofundar o entendimento, os parâmetros e instrumentos de análise de imagens. Em seu artigo O desafio de fazer História com imagens: arte e cultura visual, Paulo Knauss define o termo como “o estudo das construções culturais e da experiência visual na vida cotidiana, assim como nas mídias, representações e artes visuais”.

            Historicamente, a convivência entre palavra e imagem sempre foi muito próxima; na contemporaneidade, essa característica se acentuou pela valorização da imagem nos meios de comunicação eletrônicos. No livro infantil e juvenil, essa relação se beneficia, ao mesmo tempo, do aparato técnico e da tradição da linguagem direcionada às crianças, mas para esse entendimento torna-se fundamental olharmos para o desenho como atividade independente que representa a origem ontológica dessas imagens.

Identidades do desenho

O que primeiramente distingue desenho de outras categorias de arte é o material e a função. A mecânica do desenho se traduz em trabalhar com as ferramentas gráficas sobre a superfície do papel, desempenhando uma função preparatória para outros gêneros artísticos. Entretanto, não poderíamos subestimar o processo como a característica essencial do desenho que mantém seu vigor e independência em relação a esses gêneros.

No século XVI, a principal característica do desenho era disegno, referindo-se aos processos de pensamento e reconhecimento (do signo) através do qual o desenho é pensado e configurado. Na teoria renascentista, portanto, o desenho é visto como a origem do pensamento criativo, precedendo a pintura e a escultura. Essa recente noção sobre o significado da expressão diretamente relacionada às ideias determinou o entendimento e a valorização do desenho também em períodos de primazia de outros gêneros.

A despeito de todas as mudanças de estilo e abordagem, a forma de comunicação do desenho permanece idêntica, preservando uma singularidade que é associada ao campo da escrita. Essa singularidade caligráfica no desenho, como na escrita, contém um elemento de refletividade, como o desenvolvimento de uma ideia que ganha vida ao ser externalizada no ato de desenhar. O reconhecimento do artista na identidade da sua obra também é também uma característica da pintura, mas aparece de forma ainda mais direta no desenho.

            A simplicidade da significação, a liberdade dos elementos representativos e a semelhança com a escrita fazem do desenho uma forma pictórica de afirmação e negação imediatas; a estética do desenho carrega sempre esse sentimento de urgência. Desenhos podem ainda assumir combinações de elementos aparentemente disparatados em relação à História e preservar a identificação visual e intelectual entre artista e observador.

            De tempos em tempos ocorre uma quebra na continuidade de um gênero (os movimentos) que abala a autonomia da linguagem, mas que reafirma seu poder de significação. Essa relação assume a dimensão temporal do objeto enquanto o curso abstrato do tempo se materializa nas produções desse tempo.

Como resultado dessas quebras, podemos construir um paradigma esclarecedor: de um lado, desenhos criados como uma invenção subjetiva; de outro, os que podem ser definidos como determinados pelo material. Essa distinção não deriva de uma oposição filosófica entre abordagens subjetivas ou objetivas; ela faz sentido apenas se tomada como consequência das quebras que têm modelado a arte moderna: o automatismo psíquico (pelo lado da invenção) e o ready-made e a colagem (pelo lado das obras determinadas pelo material). A princípio, esses dois conceitos são contrários um ao outro; se um desenho é baseado em uma criação subjetiva, ele não será determinado pelo material, e vice-versa.

Análise da ilustração: uma relação entre opostos

Em termos de ilustração para livros infantis e juvenis, é possível fazer uma distinção análoga às formas de desenho moderno. Para bem se referir à ilustração, torna-se necessário levar em conta sua relação com o texto; para entender essas ilustrações como imagem, será preciso descrevê-las. Temos a função narrativa da ilustração, sua identificação com o conteúdo, a história e a sequência de páginas do livro; por outro lado, a função descritiva, mais morfológica, espacial e relacionada ao material.

Cabe também fazer uma análise abordando a imagem por diversos ângulos, mas com dois focos principais, distintos e também antagonicamente complementares: analise objetiva e análise subjetiva, que podemos traduzir simplesmente como o que se analisa na obra e o quem (se) analisa (n)a obra. De fato, essas duas formas se complementam, e abordagens específicas resultam em descrições específicas, mas mesmo uma abordagem estética ou historicista da arte vai levar em conta tanto o autor quanto a obra, dentro da relação de interdependência e colaboração entre o texto e a imagem.

Em uma abordagem objetiva, o grafismo, a composição, a cor, linhas, ritmos devem se referir a uma linguagem estabelecida ao longo do tempo e identificada esteticamente pela inserção histórica dentro da cultura por qualidades de um estilo, por exemplo. A qualidade de uma ilustração é relativa à sua pertinência ao campo da ilustração.

A citação é uma forma recorrente de inserção que suscita os problemas da noção de artista como criador e da arte como atividade autorreferente. Essa ideia de pertencimento a um campo de conhecimento não é uma particularidade da arte, mas uma condição para o estabelecimento e compreensão de qualquer linguagem.

A citação é o vinculo do artista com sua ancestralidade e a possibilidade de transformação dos meios e formas em função da preservação dos conteúdos, ou seja, o principal assunto da arte é a própria arte. Nesse sentido, o artista estará mais inserido no seu campo de conhecimento quanto mais seu discurso se fundamentar em determinadas matrizes históricas que, por sobreviverem ao tempo, se transformaram em ícones de uma ideologia, fazendo parte da cultura de um tempo e lugar e, portanto, base desse conhecimento. Uma frase antológica de Pablo Picasso traduz a essência dessa questão: "A arte nunca é casta, deveria ser mantida longe de todos os cândidos ignorantes. Nunca se deveria deixar que gente impreparada se lhe aproximasse. Sim, a Arte é perigosa. Se é casta, não é Arte." Sobretudo a partir da Modernidade, quando a arte diversifica seus meios e suportes e a pintura deixa de ser o mainstream da arte visual, a principal ferramenta conceitual de validação de uma obra é sua capacidade de inserção dentro da cultura. A citação, a paráfrase, a paródia e a apropriação funcionam como formas dessa inserção.

A abordagem subjetiva diz respeito à possibilidade de entendimento e diálogo entre observador, autor e obra. Cada sujeito fará sua leitura de acordo com suas vivências em face da obra analisada e do autor dessa obra.

O autor, por sua vez, terá características que o diferenciam de acordo com suas pesquisas e as consequentes produções em dois tipos: a pesquisa horizontal e a vertical. A primeira busca semelhanças ou diferenças para uma catalogação ou inventário pela recorrência de temas, peças, técnicas, ideias coexistentes entre diferentes objetos e vice-versa. A segunda busca, em um mesmo objeto, a diversidade de temas, peças, técnicas, ideias como características a serem dissecadas, enumeradas. 

Essa ideia de que cada coisa no mundo tem seu oposto complementar, existente no senso comum, tem raízes na filosofia oriental. No livro do i ching, por exemplo, é possível identificar nos hexagramas Ch’ien / O criativo e K’um / O receptivo duas designações complementares, uma simbolizando o céu (pai) e o segundo a terra (mãe), dentro do amplo e complexo espectro de representações.

Assim como a oposição e a complementaridade dos hexagramas citados, a relação entre o texto e a imagem na produção literária para crianças e jovens também pode ser vista como um reflexo, uma relação de atração por oposição. Essa analogia, usada para ressaltar o referido espelhamento, pode ser entendida dentro da cultura visual e sua gama variada de características e sentidos ou, ainda, “como uma teia de significados onde o homem está preso”.

A cultura entendida como essa teia de Clifford Geertz (1978) se reproduz e avança , ocupando o tempo e o espaço pela relação do tempo com o texto (teoria) e da imagem com o espaço (práxis). Essas oposições se realizam em complementaridade ou afinidade entre imagens e texto.

Ao falar dos sentidos, Roland Barthes descreve a visão como um sentido relacionado ao espaço e vincula a audição ao tempo. Um aspecto relevante da musica instrumental, sobretudo das sinfonias clássicas, é como a composição da obra pode suscitar uma noção espacial. É como se algumas sinfonias de Mozart, por exemplo, nos levassem a um passeio por espaços subdivididos como cômodos de uma casa.

Esse sentimento é o fio condutor de uma sequência de interesses que seguem e se completam a cada período pelas repetições, sobreposições do som dos instrumentos e pelo modo com que as entradas e saídas dos instrumentos preenchem o tempo da música, como áreas de cor que preenchem e determinam o ritmo de um quadro.

Essa noção é algo muito particular, mas muito presente na pratica da ilustração de livros, arte de representar espaços através da temporalidade da narrativa, tendo em conta a capacidade descritiva da ilustração e a capacidade narrativa do texto literário e as infinitas e bem-vindas possibilidades de subversão dessa ordem. As linguagens parecem ter esse interesse comum em contar histórias e fazer valer essa relação, de modo que o leitor viaje pelo tempo e espaço da obra.

Conclusão

A analise das imagens da literatura infanto-juvenil pode ter um objetivo historiográfico quando se propõe a usar a ilustração como fonte historiográfica ou formular uma história da ilustração. Seja qual for o objetivo da análise, ela passará inevitavelmente pelo conceito da Cultura Visual, uma forma interdisciplinar de entendimento das imagens como fonte historiográfica ou como objeto de estudo.

Por outro lado, esse conceito não exime o observador de analisar essas imagens a partir de sua identidade de desenho em relação ao tempo presente, características materiais, processuais e funções como linguagem. A relação com o texto originário e as relações dialógicas que se apresentam a partir daí: texto/imagem, objetividade/subjetividade, teoria/prática, tempo/espaço etc. têm origem na própria identidade do desenho como atividade independente e a distinção entre desenhos criados como uma invenção subjetiva e desenhos determinados pelos materiais.

A ilustração tem origem na linguagem do desenho, e desde suas origens renascentistas é vista como superfície e símbolo, desempenhando as duas funções e propiciando uma gama infinita de interpretações. Cabe ao observador escolher o modo de análise, tendo em conta que seu interesse é que propiciará, em função da obra e do autor, o próprio acontecimento estético.

Bibliografia

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DANSA, S. O começo é o fim pelo avesso, Dissertação de mestrado em Design. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2004.

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GEERTZ, C. A Interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

MANGUEL, A. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

MENEZES, U. T. B. Fontes visuais, cultura visual, História visual. Balanço provisório, propostas cautelares. Disponível em:http://biblioteca.universia.net/ficha.do?id=520963.

KNAUSS, P. O desafio de fazer História com imagens: arte e cultura visual.

Publicado em 02 de setembro de 2008

Publicado em 02 de setembro de 2008