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O prazer de ler

Dôra Monnerat

Escritora e membro da Academia de Letras de Viçosa

Este artigo pretende apresentar a importância da leitura para o desenvolvimento do indivíduo e a importância de promover o gosto pela leitura. Fala da magia, da paixão pela leitura, pelas histórias e pelos livros. Leitura... Palavra mágica que proporciona informação, formação, crescimento, atualização do individuo e, sobretudo, prazer.

Sou totalmente a favor da leitura em sala de aula, em biblioteca, sentada na calçada, no pátio, em qualquer lugar! O momento da leitura é um momento especial, acalma, relaxa... É um momento da afetividade, de aproximação, de magia! Uma oportunidade que o professor pode criar não só para ensinar seus alunos a ouvir como também para escutá-los. Mas para alcançar o objetivo de transformar alunos em indivíduos leitores é preciso descobrir o interesse da turma.

É importante começar com um tema de interesse comum. Textos pequenos, para não provocar inquietação naqueles que não estão acostumados a ouvir histórias bem como nos mais falantes, que ainda não estão treinados ao silencio. Isso fará com que fiquem mais atentos.

Se a criança não teve a sorte de nascer e crescer em uma família ou vizinhança que tenha tido ao menos um contador de histórias, cabe ao professor fazê-la despertar para essa prática, ou seja, querer ouvir ou ler e, por fim, gostar de histórias. A sala de aula pode ser o início de um belo trabalho de promoção da leitura.

Não há nada melhor do que começar uma aula com uma boa história bem contada ou lida com atenção pelo professor, com entonação e dicção perfeitas, como se ele fosse parte da própria história..

Um professor leitor apaixonado pela leitura transmite essa paixão. Quando conta ou lê uma história para seus alunos transmite esse sentimento, proporcionando prazer àqueles que o escutam, porque lê com mais emoção. Esse professor educa com mais afetividade, pois a leitura promove esse momento afetivo, de proximidade, faz aflorar a emoção.

Uma pequena discussão entre os alunos sobre o assunto, sobre o autor, ou coisas relacionadas ao texto, caracterizando a leitura social, provocando interação, reflexão e troca de ideias, dará a esses alunos a oportunidade de desenvolver a oralidade e a comunicação. Esse tipo trabalho, como um círculo ou roda de leitura, descontraída, sem cobranças, como uma conversa animada, mas com regras, para que cada um tenha seu momento de falar e todos tenham oportunidade de se expressar, pode tornar-se bastante produtiva.

Precisamos de alunos leitores, para promoção do desenvolvimento intelectual, psicológico e social deles. Queremos formar indivíduos capazes de entender o mundo e de se fazer entender dentro e fora da escola. A leitura possibilitará isso, uma vez transformada a escola em um veículo para a descoberta do prazer de ler. Mas a escola pode ir além, convidando os pais ou outros membros da família para participar do projeto.

Estudos de sociólogos, psicólogos e de outros especialistas no assunto têm mostrado as mudanças que vêm acontecendo na sociedade, principalmente nos papéis exercidos pelas pessoas no que diz respeito ao mercado de trabalho, às famílias, à educação...

A preocupação com o fortalecimento da família passa pela educação dos filhos. Se a escola conseguir atrair a família a dedicar, por exemplo, uma hora por mês para uma leitura social e a partilhar com seus filhos e amigos desse momento agradável e de muito prazer, com certeza estaremos próximos do êxito de nosso objetivo: o aluno leitor e, porque não, família leitora!

Esse trabalho de leitura na escola deve ser atrativo e os textos devem ser adequados. Como ferramentas para atrair o aluno à leitura, podem ser usadas atividades, como o teatro. Para tal, a turma teria que fazer “diversas leituras” de variados livros, sem cobrança, sem o “único” objetivo de fazer o teatro.

A busca de textos em livros da biblioteca da escola ou em livros trazidos pelos próprios alunos poderá levá-los a ler sem perceber que estão praticando a leitura.

Importante também é ter um lugar diferente, porém adequado, fora da sala de aula, onde possam ser propostos alguns encontros mensais ou bimestrais, além das leituras diárias em sala de aula. Se a escola tem biblioteca, ela seria o local ideal para essa saída para o momento da leitura, da afetividade, da aproximação, do ouvir e ser ouvido. Será mais marcante na vida do aluno se for aberto à sua família. Mas a biblioteca escolar tem que ser adequada, aconchegante, um lugar gostoso de ir. Não um lugar frio, com cheiro de poeira ou mofo, cheio de prateleiras apinhadas de livros desordenados e inadequados.

Outro trabalho de promoção da leitura que pode ser proposto é o seminário de leitura, mas este deve se iniciar somente entre os pares, ou seja, na própria turma. Depois pode se propor um intercâmbio entre turmas da mesma escola, de escolas do bairro, de escolas de outros bairros e tudo mais que surgir e for válido, desde que combinado cautelosamente com todos os alunos.

O seminário pode ser organizado de forma simples. Cada aluno faz o empréstimo de um livro por determinado tempo e, combinada uma data, cada um apresentará oralmente o livro que leu. Alguns poderão sentir muita dificuldade no início, mas dificilmente ficarão de fora. Todos irão apresentar, se as regras não forem muito rígidas.

A apresentação deve ser simples, constando do titulo, do autor, do formato do livro, das ilustrações, do tema etc. Como conclusão, detalhes que chamaram a atenção do aluno e a informação e se gostou ou não do livro e o motivo.

Criações e produções de textos maravilhosos certamente surgirão por parte dos alunos, depois de trabalhos como esses. O professor deve ler todos os livros que os alunos estiverem lendo. Está claro que a educação se dá pelo exemplo; não adianta querer que nossos alunos sejam leitores se não o somos. Portanto, temos que dar exemplo, falar dos livros que lemos e comentar trechos com paixão, entusiasmo, levantar curiosidade...

Em hipótese alguma o aluno deve ver a leitura como um artigo de cobrança. A prática da leitura diária não deve ter de preferência, implicação com o conteúdo que se vai trabalhar em sala de aula. Se tiver, pode ser mencionado de forma sutil, como se tivesse sido uma descoberta do momento na leitura, para não caracterizar que se deu aquele texto só para ensinar o que estava previsto para a aula.

Ler é descoberta. Ler é prazer, ler é pura gostosura, como diz nossa querida escritora Fanny Abramovich. Ler é brincar com palavras e situações, como faziam a nossa querida Sylvia Orthof e muitos outros escritores como Ruth Rocha, Neusa Sorrent... São tantos... E, nas poesias, quantas brincadeiras se podem fazer com as rimas, como fazem escritores como Leo Cunha, Pedro Bandeira, Elias José... A magia, o mistério, a emoção, tão bem apresentados através de histórias como as de Monteiro Lobato, Marina Colasanti. Álvaro Ottoni, Pedro Bloch... São tantos não dá para citar todos. O Brasil é riquíssimo quando se trata de autores de excelentes histórias, bem escritas, com temas variados... É só sentar, se aconchegar e ler. E as histórias do Andersen... Quem nunca ouviu O Patinho Feio?, A pequena vendedora de fósforo e tantas outras maravilhas criadas por ele, o grande inspirador?

Um professor pode e deve ser um propagador desse hábito do gosto pela leitura. Mas antes é preciso que ele descubra esse prazer e acredite na importância do gostar de ler. É preciso que ele tenha consciência do que a leitura representa em sua vida, assim como na vida de seus alunos ou de qualquer cidadão.

É através das leituras que o aluno cresce, descobre, conhece um mundo muito mais amplo e cheio de coisas diferentes – ou iguais, porém sobre uma ótica diferente. A leitura abre a mente, trabalha a emoção e promove a sabedoria e o raciocínio e... muito mais. Vale a pena essa descoberta! A recompensa maior é levar outras pessoas a descobrir que ler faz muito bem à alma, ao coração e ao ser como um todo, pois melhora a qualidade de nosso viver.

Publicado em 09 de setembro de 2008

Publicado em 09 de setembro de 2008