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Cartas, poemas e rosas

Cláudia Dias Sampaio

Por mais que um dos correspondentes tenha o zelo de um arquivista, como Drummond, ou a paixão pelas cartas, como Mário de Andrade, certezas passam ao largo do universo das correspondências. Cartas se perdem, outras são escritas sem que nunca venham a público – o que confirma o abismo entre esse discurso e as verdades absolutas e, também, sua vocação para a imprecisão e o fragmento.

O exercício da correspondência era uma constante entre os modernistas, e Mário de Andrade era figura central: “tratar de correspondência literária no Modernismo brasileiro implica inevitavelmente tratar da correspondência de Mário de Andrade, que se pode tomar como significativa, se não de todas, pelo menos de muitas das questões envolvidas no assunto” (Castañon, 2004, p. 24). Em estudos sobre a correspondência no Modernismo brasileiro publicados na coleção Papéis avulsos, da Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, Flora Süssekind e Julio Castañon pensam a carta como espaço crítico (Süssekind, 1996, p. 31). Castañon fala sobre o caráter lacunar, precário e instável das correspondências e de sua condição de gênero de fronteira (p. 11 e 21); o que resulta do aspecto maleável desse discurso são os inúmeros caminhos de “leituras e conexões para cartas” (p. 11).

Cecília e Mário, publicado em 1996, traz, além das cartas, um estudo e uma antologia preparados por Cecília Meireles. No prefácio à antologia, temos o “História de um encontro”, por Alfredo Bosi. Nele, o autor aconselha a lermos o livro “com os vagares da mais delicada atenção, pois aqui se conta a história de um encontro raro. É Cecília Meireles lendo Mário de Andrade. E é Mário lendo Cecília” (Meireles, 1996, II).

O estudo e a antologia que Cecília fez da obra de Mário foram encomendados em 1960 pela Prefeitura do então Distrito Federal (Rio de Janeiro), para lembrá-lo nos 15 anos de sua morte. No entanto, o prazo de um mês foi curto para a tarefa de escrever sobre a obra do amigo; Cecília se envolveu com tal paixão que acabou não entregando o material a tempo. Parte da antologia foi lida por ela em um programa da Rádio MEC que fora ao ar na mesma ocasião da homenagem.

Outro material que mostra a amizade entre os dois poetas e a leitura recíproca que eles mantinham é uma edição de Viagem em que Mário faz diversas considerações sobre os poemas, numa espécie de leitura comentada. A análise completa desse material, também publicado em O empalhador de passarinhos, de Mário de Andrade, rende de certo um estudo que não caberia aqui.

É nítida a forma distinta com a qual cada um tece suas observações sobre a poesia do outro. Mário se atém a comentários pontuais sobre cada um dos poemas, como costumava fazer em suas correspondências (cf.: Castañon, 2004, p. 29), as referências refletem a erudição do escritor. Já o estudo de Cecília obedece a um padrão esquemático. O rastreamento e divisão por substantivos, adjetivos, advérbios e o levantamento da sistematização das rimas é um indício tanto da preocupação pedagógica da educadora que Cecília era quanto de uma possível sintonia com o Estruturalismo, que nos anos 60 tornava-se o caminho escolhido por muitos dos estudiosos da literatura no Brasil. Entretanto, esse estudo aparentemente esquemático e a distinção tão óbvia entre o moderno Mário e a conservadora Cecília são colocados em xeque por comentários pontuais que Cecília também tece, em articulação direta com os poemas de Mário. Como no item XVII, sobre Losango cáqui:

Mário de Andrade, intransigente, pacifista, internacionalista amador, comunica aos camaradas que bem contravontade, apesar da simpatia dele por todos os homens da terra, dos seus ideais de confraternização universal, atualmente soldado da República, defensor interino do Brasil.

E marcho tempestuoso noturno.
Minha alma cidade das greves sangrentas,
Inferno fogo INFERNO em meu peito,
Insolências blasfêmias bocagens na língua

(Meireles, 1996, p. 231).

Cecília cultivava com esmero o exercício da correspondência. Entre as que refletiam o processo da escrita, além das de Mário, estão aquelas com os poetas Alfonso Reyes, Armando Cortês-Rodrigues e Maria Valupi. No âmbito do que Bandeira chamou de “cartas de minha gente”, temos a recente publicação da Editora Moderna, Três Marias de Cecília, que traz ao leitor as cartas e cartões-postais que Cecília escreveu às filhas entre os anos 1940 e 1948, durante as diversas atividades de difusão cultural em que esteve envolvida pelo Brasil e exterior.

As 22 cartas que compõem o capítulo “O encontro”, de Cecília e Mário, datam do período entre 1935 e 1945. É Cecília quem começa a correspondência, e também é dela a maior parte das cartas: 15; estamos tratando apenas das cartas que foram publicadas nessa edição.

A primeira carta, de Cecília, data de 30 de setembro de 1935. Ela escreve do Hotel Terminus, em São Paulo:

Mário de Andrade: eu não sei si V. me conhece – como se diz no carnaval – mas isso não tem importância nenhuma. Andei há pouco por Portugal e fiz uma propagandazinha da poesia brasileira que deu certos resultados. Um deles foi uma grande simpatia por V. e pelos seus livros; e, em consequência, o pedido que acabo de receber, da parte de Luís de Montalvor (poeta português) que é sobretudo um esteta e um espírito encantador de amigo, para obter alguns inéditos seus – a carta diz “dois, ao menos” – a serem publicados numa revista que por lá vai aparecer com o nome Poesia

(Meireles, 1996, p. 289).

Pela leitura de apenas este trecho, percebemos o comprometimento e a intenção de Cecília em criar diálogos entre Portugal e Brasil, e o esboço de como ela vivia sua profissão de escritora, como uma intelectual comprometida com o humano em toda sua profundidade cultural, social e existencial. Nas outras cartas, acompanhamos a continuidade da relação profissional que se estabelece entre Mário e Cecília, com o convite dela para que ele escreva sobre a cultura brasileira na revista Travel in Brazil.As afinidades que os enlaçava, o interesse pelo folclore, pela música e sobretudo pela poesia contribuíram para que rapidamente eles se tornassem amigos.

Além do carinho que se instaura com o desenvolvimento dessa correspondência, nítido em trechos como “Cecília Meireles, minha querida amiga” (SP, 1º de março de 1943); “Mário: só não digo que V. é um anjo para não o estragar” (RJ, 23 de janeiro de 1942); “Ao menos, sou sua amiga!” (24 de abril de 1943), notamos o modo afetuoso com que Cecília cultivava suas relações e ainda como nestas se misturavam trabalho e vida pessoal. Ao contrário da divisão criada por Bandeira ao falar de suas correspondências, “cartas de amigos” e “cartas de minha gente” (cf.: Castañon, 2004, p. 5-6), que marcavam a distinção entre assuntos pessoais e familiares e a correspondência que tinha em foco a produção textual, no caso de Cecília o que parece acontecer é o esboroar dessa fronteira entre trabalho e vida. O que em parte pode ser explicado por dados biográficos, a viuvez do primeiro marido, que fez com que ela precisasse de fato trabalhar para manter suas despesas e as das três filhas, mas sobretudo pela estratégia de vida que a autora criou para si. A responsabilidade que se impingiu de manter-se ativa no cenário social com intensa produção textual em jornais, de pensar a educação e a cultura e ainda aprofundar os estudos sobre a linguagem poética não a afastou da produção de poemas, tampouco das pessoas. O que nos leva à hipótese de que talvez fosse justamente o modo como ela construía esses laços e o apego à sua produção poética, sua “rosa”, que alimentavam a incansável mobilização que tinha pela vida. Como mostra o seguinte trecho da carta que escreve em 8 de outubro de 1935, do Rio de Janeiro, em agradecimento ao poema enviado por Mário em atenção ao pedido da poeta, “Rito do irmão pequeno”, de Livro azul, parte do volume Poesias, publicado por Mário em 1941, edição Martins. Escreve Cecília:

Em Lisboa vão gostar muito, tenho certeza. E eu fico bem contente, porque prometi mundos e fundos do Brasil, disse que tudo aqui era uma maravilha, e quando comecei a tentar provar, com os nossos poetas, as invenções que por lá andei espalhando, não consegui quasi nada, porque todos estão perdidos na burocracia, bocejando de fadiga, sem força para mandarem levar ao correio aquilo por que, no entanto, se salva ainda a sua própria vida – o seu pensamento e a sua emoção

(Meireles, 1996, p. 290).

A crítica de Cecília, além de valorizar o amálgama entre vida e trabalho, dá a ideia do quanto a linguagem poética, expressão do pensamento e da emoção, é eleita a “salvação da vida”. Assim como para Baudelaire eram suas flores do mal,  a “rosa” de Cecília eram seus poemas. Em carta de 15 de março de 1943, lemos o trecho em que Cecília oferece um de seus poemas a Mário de Andrade:

Rosa de cá, rosa de lá – você tem a “Rosa” eu me beneficio da xará – lembrei-me de lhe mandar “Três motivos da Rosa”, que devem sair no meu próximo livro. Justamente, eu queria dedicar a você um poeminha: lembrança da contemporaneidade lírica. E as rosas vêm a propósito, embora seja um caso bem único o de uma mulher oferecer uma rosa a um homem. Acho que é o único, mas minha instrução no assunto tem lacunas consideráveis. Entretanto, é rosa e não é rosa: pois que é apenas poema da rosa. Ora como são três, voilà, Mr., l’embarras du choix. Então, pensei: copio todos, e mando. Você vê qual é o menos pior, e me diz: este fica sendo meu. Eu lhe digo à moda de hoje: O. K. E pronto. Tão simples, a vida!

(Meireles, 1996, p. 306).

Dos poemas, posteriormente publicados em Mar absoluto, Mário escolhe o segundo, o único soneto.

Na carta em que responde à oferta de Cecília, Mário justifica sua escolha:

Rosa Cecília Meireles Rosa

É preciso ser cruel. É preciso trair, tomar uma decisão, me empobrecer deste vai-vem sonoro em que vivo desde ontem de manhã. Prefiro o soneto. A decisão é tomada por “outro motivo” – este meu mal secreto por essa forma sublime e tão tênue que tantos males secretos andaram desencaminhando por aí

(idem, p. 308).

Mais adiante, Mário fala sobre o ensaio que estava produzindo, “Natureza do soneto” e de sua gratidão pela oferta da amiga da qual pedia “perdão por merecer os versos” que ela lhe dedicara. Leiamos o poema:

2º Motivo da rosa

A Mário de Andrade

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas,

e a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrêlas brilhas, prêsa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...

(Meireles, 1967, p. 280).

Constituído por duas estrofes de quatro versos e duas de três, obedecendo aos 14 versos da forma clássica do soneto, o poema tem no entanto uma distribuição sofisticada das rimas. A leitura confirma também a analogia entre “rosa” e “poema” e, para Cecília, este se assemelhava “à concha soante, à musical orelha”. Dando-nos a ideia do desnecessário da poesia, o oco, o vazio onde no entanto se está gravado “o mar nas íntimas volutas”, em mais uma aproximação com a dimensão “translúcida, diáfana” que chamara a atenção de Manuel Bandeira.

E se seguirmos a apreciação de Alfredo Bosi do comentário de Mário sobre o poema “Eco”, de Vaga música, “lembro apenas que, no juízo expresso por Mário, “Eco” vale como uma definição da própria poesia” (Meireles, 1996, p. 12), teremos mais uma justificativa da escolha de Mário pelo 2º Motivo da rosa, afinal de que fala Cecília se não desse eco possível de ser ouvido na “concha soante”?

Chama a atenção o elogio que Mário, um vanguardista, faz em relação às métricas e ao formalismo de Cecília. Ele diz sobre o poema “Epigrama nº 2”, de Viagem:

Um prurido, um sopro, um aflar leve e profundo de sensibilidade, que se define apensa. Este o maior encanto das líricas metrificadas de Cecília agora. Especialmente das metrificadas. Porque metrifica. Pra ficar mais livre do pensamento, mais livre da necessidade de organizar o moto lírico num juízo

(p. 315).

A consideração de Mário talvez se explique pelo amadurecimento com o qual passa a analisar o Modernismo, expresso principalmente a partir da conferência O movimento modernista (1942). Contudo, podemos pensar em como ambos puseram em exercício uma subjetividade que expunha contradições e fragilidades, além de, cada um a seu modo, investir na construção de uma subjetividade ativa, que possibilitasse a efetivação de um pensamento crítico e reflexivo. Para concluir com uma mostra de como essa subjetividade aflora no poema, transcrevo dois versos de “Eu sou trezentos”, de Remate de males, de Mário de Andrade, que faz parte da antologia preparada por Cecília Meireles:

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...

(p. 145).

Referências

ADORNO, Theodor. Palestra sobre lírica e sociedade. In.: Notas de Literatura I. Rio de Janeiro: Editora 34, 2006.

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. São Paulo: José Aguilar, 1967.

CASAIS MONTEIRO, Adolfo. Estudo sobre a poesia de Fernando Pessoa. São Paulo: Agir, 1958.

CASTAÑON, Júlio. Contrapontos: notas sobre correspondência no modernismo. Papéis avulsos nº 47. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa/Ministério da Cultura, 2004.

CELAN, Paul. Alocução na entrega do Prêmio Literário da Cidade Livre e Hanseática de Bremen. In: Arte poética. O meridiano e outros textos. Org., posfácio e notas de João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1996.

COSTA LIMA, Luiz  (Org.). A Literatura e o leitor. Textos de estética da recepção. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

CRISTÓVÃO, Fernando. Compreensão portuguesa de Cecília Meireles. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 46, nov. 1978, p. 20-27.

__________________. Cartas inéditas de Cecília Meireles a Maria Valupi / Fernando Cristóvão. In: Revista Colóquio/Letras. Documentos, nº 66, mar. 1982, p. 63-71.

LINS, Vera. Poesia e crítica: uns e outros. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.

MARTINS, Wilson. Herói da nossa gente. Resenha de Cecília e Mário. Rio: Nova Fronteira.

MEIRELES, Cecília. Obra poética. São Paulo: José Aguilar, 1967.

_________________. Cecília e Mário. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

_________________. Três Marias de Cecília. Org. de Marcos Antônio Moraes. São Paulo: Moderna, 2007.

SÜSSEKIND, Flora. Cabral. Bandeira. Drummond. Alguma correspondência. Papéis avulsos nº 26. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa/Ministério da Cultura, 1996.

Publicado em 30 de setembro de 2008

Publicado em 30 de setembro de 2008

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