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Karl Popper e a retirada da ciência do altar intocável

Mariana Cruz

Com a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no século XVIII, outras revoluções aconteceram: revolução dos costumes, do pensamento, da ciência. Toda essa reviravolta ocorreu graças à aplicação em larga escala das novas técnicas provenientes do conhecimento científico, que impulsionou a humanidade de forma nunca antes vista. Tal avanço científico fez com que a ciência passasse a ser supervalorizada. Só tinha validade o que era científico.

Nesse cenário, surgiu um dos nomes mais importantes da filosofia da ciência contemporânea: Karl Popper (1902-1994). Esse filósofo austríaco trouxe uma proposta inovadora para o campo científico, indo contra a mentalidade positivista de sua época, em que filósofos e intelectuais tinham a ciência como uma verdadeira deusa, sem falhas e cheia de certezas.

Segundo Popper, a validade de uma teoria científica dura até que seja provada sua falsidade, através de teorias mais abrangentes que aquela que lhe deu origem. O fato de o sol nascer todos os dias, por exemplo, não garante que daqui em diante ele continuará nascendo. Basta que fique um único dia sem nascer para que toda essa teoria caia por terra. É justamente tal característica de falseabilidade ou refutabilidade que faz com que uma teoria seja considerada científica, pois aquilo que é falseável ou refutável não pode ser considerado científico. Desse modo, Popper cria um limite entre aquilo que pode e o que não pode ser considerado científico; assim, ele separa a ciência da pseudociência (por pseudociência entendamos metafísica). A astrologia, por exemplo, não pode ser considerada uma ciência, pois não há como fazer experiências que a falseiem ou a refutem; sendo assim, não há como provar sua validez ou sua invalidez. Desse modo, a astrologia não pode ser considerada uma disciplina científica, bem como assuntos ligados à religião, como a existência de Deus, dos anjos etc. Embora ele faça essa distinção entre o que é ciência e o que não é, não há aí um ranço positivista decorrente de alguma intenção de colocar a ciência num patamar superior às outras coisas e desvalorizar outros tipos de saberes – como a metafísica, por exemplo. É apenas uma questão de delimitação. Um dos aspectos mais interessantes da teoria popperiana é que ela mesma pode ser falseável ou refutável. Trata-se de uma metateoria.

Popper faz duas substituições no método científico tradicional: ao invés da utilização da indução, ele prefere o método dedutivo; no lugar da verificabilidade, coloca a falseabilidade. É importante notar que tal método pode-se aplicar a todas as áreas de conhecimento, não apenas à ciência. Um dos objetivos principais de Popper é delimitar o campo que separa o que é ciência do que não é, sem hierarquizar. Até porque muitas vezes o que não é científico pode estar mais certo do que aquilo que é.

O ambiente positivista da época definia ciência como aquilo que se utilizava do método empírico e de observação. Popper não concordava com tal teoria, uma vez que, se assim fosse, a astrologia seria considerada ciência, pois ela também utiliza o método da observação e da coleta de dados. Daí Popper acrescentar a falseabilidade como critério de avaliação do método científico das ciências.

A partir da observação da repetição de um fenômeno, elaboram-se hipóteses e, por fim, leis, na tentativa de universalizá-lo. Segundo Popper, esse método indutivo não é científico. Ele não utiliza tal método por acreditar que não há nada que garanta veracidade da passagem do particular ao universal. Por exemplo, se todos os dias da minha vida só avistei urubus pretos, isso não é o suficiente para universalizar tal fato e afirmar que todos os urubus são pretos. A existência de um único exemplar de outra cor é o suficiente para invalidar minha afirmação. O mesmo ocorre no campo das ciências. A fim de avaliar tais proposições científicas, Popper propõe a utilização do método dedutivo.

Para ele, não são as repetições experimentais, empíricas, que garantem solidez a uma teoria; o que lhe garante cientificidade é a capacidade de refutabilidade e falseabilidade que ela carrega. Quanto mais ela for testada por esses dois elementos sem se deixar abater, mais forte ela será, embora nada garanta que um dia ela não possa ser contrariada e, assim, perca a sua validez, pois para Popper o caráter absoluto da verdade não existe. Todas as verdades são provisórias até que se prove o contrário, isto é, até quando ela for refutada por novos fatores.

Esse é um dos riscos que a ciência deve correr. Só assim será possível retirá-la do altar intocável e positivista que os contemporâneos de Popper a colocaram.  

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Publicado em 28 de outubro de 2008.

Publicado em 28 de outubro de 2008