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Nota sobre Afinação da arte de chutar tampinhas

Cláudia Dias Sampaio

O conto Afinação da arte de chutar tampinhas foi publicado pela primeira vez em 1963, junto com sete contos e uma novela com os quais João Antônio estreou na literatura, naquela que talvez seja hoje sua obra mais conhecida: Malagueta, Perus e Bacanaço.

Após mais de 40 anos, o convite de Ieda Magri para que eu participasse do Terceiro Encontro João Antônio, organizado por ela e pelo Arquivo João Antônio (Unesp), fez com que o conto me chegasse às mãos pelo livro 10 Contos escolhidos (1983), que integra a Coleção 10, publicada pela Editora Horizonte em conjunto com o Instituto Nacional do Livro e a Fundação Nacional Pró-Memória. Os volumes apresentam trabalhos de diferentes contistas, numa iniciativa de divulgar o conto brasileiro e fornecer acervo para bibliotecas públicas. No texto de introdução à edição dedicada a João Antônio, Cassiano Nunes fala sobre o artigo que publicou na ocasião do lançamento de Malagueta, Perus e Bacanaço, quando, inconformado pela fraca repercussão do livro, resolveu escrever Nota sobre João Antônio.

O lamento de Cassiano pela falta de reconhecimento da qualidade dessa obra estendia-se para o destino que tivera sua própria produção, quando afirma ter tido o artigo “a mesma obscuridade que o articulista”, apontando para a dificuldade de pensar a produção literária e, por consequência, de enfrentar a rigidez do cânone.

A dificuldade de empreender transformações nesse sentido foi ressaltada por Vera Lins, autora de trabalhos sobre Ribeiro Couto e Gonzaga Duque, que escreveram nos primeiros anos do século XX e ainda continuam pouco conhecidos do público. Para a ensaísta, de modo geral, “exerce-se na crítica uma razão que não é capaz de apreender o paradoxo, a pluralidade de experiências, o que excede seu quadro de realidade” (Lins, 1986, p. 7).

Ampliação implica necessariamente transformação. E de que outro lugar, se não de dentro da própria crítica, poderíamos desfechar contra a imobilidade que nos é apresentada como intrínseca ao cânone?

A iniciativa de trazer à tona autores que, apesar de terem investido na construção de uma linguagem espessa, ainda permanecem como “tampinhas de água mineral Prata” (as favoritas do protagonista) abandonadas na calçada, onde estalam pés apressados, é um alento para aqueles que procuram manter a esperança em transformações possíveis, num ambiente ainda hostil às mudanças. São trabalhos afinados pela teoria benjaminiana das ruínas da História. Enfim, a vez da versão dos vencidos.

E agora, sem mais delongas, apresento minha leitura do conto nesta Nota, tentativa de apreender os resíduos que insistem na construção de João Antônio e recolher os fragmentos desse real feito de memória e linguagem. Parto então do silêncio da leitura neste estudo dos “chutes”, pois, se, como disse a poeta Fiama Hasse, “todos os diálogos acabam no silêncio” (Silveira, 2008, p. 66), ouso dizer que é também no silêncio que eles começam.

A analogia entre a arte de chutar tampinhas e a arte da escrita é evidente. E a afinação de que fala o protagonista, que não tem um nome, parece apontar para uma afinação do sensível, uma busca por aprofundar-se naquilo que faz pela investida no conhecimento de si expressa pela tessitura das lembranças do passado e pela escolha de uma narrativa em primeira pessoa.

Além disso, o que me veio quando li o conto pela primeira vez foi a atenção a algo que é por princípio descartável. A inutilidade das tampinhas dialoga plenamente com a poesia. Além da inutilidade intrínseca, é própria da poesia essa atenção aos detalhes que escapam à maioria dos que passam pelas calçadas da pressa. E o espaço construído pelo conto remete justamente aos restos que o escritor captura a partir do silêncio das suas leituras.

As duas primeiras frases logo apontam para a simultaneidade que constitui o conto, construído a partir de uma apresentação de fragmentos da memória que dialogam com a circunstância presente do protagonista: “Hoje meio barrigudo. Mas já fui moleque muito bom centromédio”.

O que perpassa as boas e as más lembranças é a vontade de chutar e o contraponto da autoridade que ora se mostra pela figura do pai, ora do irmão, da escola, da namorada delatora ou do quartel – tema recorrente na obra de João Antônio e que rende boas linhas no conto, principalmente a história da cerveja preta. O contraponto é interessante pois é justamente o título da obra de Aldous Huxley, livro de cabeceira do protagonista. E aí está justamente a simultaneidade construída pelo sujeito na tentativa de se afirmar ante essas autoridades e dar conta de sua “vontade de chutar”:

Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar.
(...) Eu, Huxley e tampinhas somos coincidências.

Dos chutes à bola no campo da União de Moços de Presidente Altino (U.M.P.A), ele passa aos chutes em tampinhas que encontra pelas ruas da cidade ou, mais precisamente, à entrega da criação:

Mas quem se entrega a criar vive descobrindo. Descobri o muito gostoso “plac-plac” dos meus sapatos de saltos de couro, nas tardes e nas madrugadas que varo, zanzando, devagar. Esta minha cidade a que minha vila pertence guarda homens e mulheres que, à pressa, correm para viver, pra baixo e pra cima, semanas bravas.

É a flanêurie de Baudelaire e a consciência da errância dos que apostam no sensível. Segundo Vera Lins, “viver a rua como Baudelaire pressupõe a capacidade de viver o trágico. Esse eu que erra pela noite não é mais o eu cartesiano”; para a autora, “o vagabundo que se perde na multidão afirma o avesso desse sistema, procura o imprevisto como Baudelaire” (Lins, 1997, p. 9).

Depois de pensar na analogia entre as tampinhas e a escrita e ainda na dimensão poética que podemos ler a partir do caráter descartável delas, passei duas dezenas de dias preparando meu chute. Merecia carinho, cuidado especial, não só por este trabalho se inserir num encontro onde tantos chutadores também estão a “atilar-se naquilo que fazem”, mas sobretudo pela possibilidade de ter na literatura esse lugar de encontro, onde leitor e autor estão em constante processo produtivo. E talvez tenha sido isso o que mais me chamou a atenção no conto: João Antônio soube recolher com afinco suas tampinhas e apresentar uma realidade que reverbera esse movimento de produção. Em cada detalhe de sua escrita é possível notar a investida na afinação de sua arte na busca pela espessura da linguagem.

Podemos ler na insistência da reflexão sobre a própria linguagem e nos diálogos com a música-poesia de Noel Rosa e com o romance Contraponto, de Aldous Huxley, a modernidade desse texto. Ler e escrever por uma linguagem que se volta para si são gestos modernos, e “apanhar as delicadezas do ritmo” no qual estamos envolvidos, construindo mundo outro é o que dá ao conto o estatuto da arte literária.

Há algum tempo venho afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar (...). Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, beleza que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando.

Contudo, o fato de investir na afinação de sua arte não exclui o risco do erro. E esse parece ser um ponto de extrema aproximação entre literatura e vida: chutar tampinha “que se demore no ar” implica, necessariamente, colocar-se em risco, ainda que este se justifique pelo entusiasmo da criação:

não quero chute vagabundo . Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a ideia de que, para acertar, necessário pequenas erradas. Mas é muito desagradável, o entusiasmo desaparecer antes do chute. Sem graça.

A disponibilidade para o risco e o apreço pelo sutil, somados à investida nessa afinação do sensível, são instrumentos na construção da visibilidade e tessitura desses resíduos, de que as tampinhas são metáforas. Por eles, Noel Rosa deixa de ser um Papai Noel – coisa.

Por esse tempo, comecei a prestar atenção nas letras dos sambas, e vi, mesmo sem entender, que o tamanho de Noel era outro, diferente, maior, tocante, não sei. (...) O gosto aumentou, eu fui entendendo as letras, apanhando as delicadezas do ritmo que me envolvia. Hoje, quando a melodia me chega na voz mulata do disco, volta a tristeza de menino e os pêlos pretos do braço se arrepiam. Sobraram restos de memória dos jogos suados na U.M.P.A.

É, portanto, no texto que encontramos as pistas de que precisamos para a apreensão da organização construída a partir dos “restos da memória”. E a literatura é o lugar mesmo da coincidência, da simultaneidade que possibilita “fazer ver” essas tampinhas e talvez seja ainda a doce presença que acompanha o protagonista nas solitárias noites da U.M.P.A:

naquelas noites me surgia uma tristeza leve, uma ternura, um não sei quê, como talvez dissesse Noel... Eu estava ali em grupo, mas por dentro estava era sozinho, me isolava de tudo. (...) Mas eu moleque gostava, era como se uma pessoa muito boa estivesse comigo, me acarinhando.

Referências

ANTÔNIO, João. 10 contos escolhidos. Brasília: Horizonte/PróMemória e Instituto Nacional do Livro, 1983.

CÂNDIDO, Antônio. Dialética da malandragem. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993.

LINS, Vera. Gonzaga Duque: crítica e utopia na virada do século. Papéis avulsos nº 25. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa/Ministério da Cultura, 1996.

_________. Ribeiro Couto, uma questão de olhar. Papéis avulsos nº 30. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa/Ministério da Cultura, 1997.

MAGRI, Ieda. João Antônio: escritor, jornalista e... malandro. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/.... Acesso em 20 de outubro de 2008.

MELLO, Carlos Antônio Andrade. Psicanálise e literatura: destino dos restos. Disponível em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.... Acesso em 16 de outubro de 2008.

PEREIRA, Jane Christina. Resenha de Malagueta, Perus e Bacanaço. Disponível em: www.passeiweb.com/.... Acesso em 21 de outubro de 2008.

SILVEIRA, Jorge Fernandes da. Levando a bordo 15 poetas portugueses do século XX. Ao longe os barcos de flores. Uma antologia de Gastão Cruz. Revista Letra. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da UFRJ, 2008.

Publicado em 28 de outubro de 2008

Publicado em 28 de outubro de 2008