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Quem disse que sonhos não começam em frente à TV?

Vinicius Dias

Produtor do Canal Futura, no Rio de Janeiro

Sempre que me lançam o clássico desafio de descrever o que a participação na oficina de vídeo Geração Futura representou para mim, sou muito convicto em afirmar que foi um divisor de águas. Indo um pouco adiante, a próxima questão é sempre o que mudou após ter vivido essa experiência. A resposta? Ela é objetiva e paradoxalmente dúbia: tudo mudou e, ao mesmo tempo, nada mudou. Como isso é possível? A velocidade dos acontecimentos me proporcionou um profundo amadurecimento, algumas rupturas, refinamento no olhar uma série de paradigmas nos quais eu acreditava. Por outro lado, posso afirmar que – na essência – continuo o mesmo: um jovem sonhador que acredita nos seus valores e que é insaciável na busca pelo que deseja alcançar.

Em 2002, morava no município de Duque de Caxias com meus pais; havíamos assinado recentemente um serviço de TV por assinatura. Assistindo à programação do Futura me interessei por um programa apresentado pelo músico Tony Bellotto, chamado Afinando a Língua; navegando pela Internet, fui até o site do canal. Ao abrir a home page, li o release do Geração Futura: uma iniciativa do canal, que reúne semestralmente jovens vindos de diferentes lugares do Brasil a fim de experimentar a linguagem audiovisual por meio de workshops com profissionais da área e com a produção de um vídeo. Nessa ocasião, eu me dedicava ao teatro; estava terminando o Ensino Médio e me interessei pela oficina como uma forma de contribuir para meu trabalho de ator. Dito e feito! Tinha a ideia de um projeto e conversei sobre ela com meu professor de teatro, Charle Myara, que a incrementou com algumas ponderações.

A partir daí, escrevi meu projeto e enviei ao canal sem muita esperança de ser selecionado. Não porque a considerasse ruim, mas por ter um ranço de desconfiar da seriedade desses processos seletivos. Para minha surpresa, na semana do Ano novo recebi um telefonema da Tatiana Azevedo, coordenadora do Geração Futura, dizendo que meu projeto havia sido escolhido e que eu participaria da oficina. Foi a melhor notícia que eu poderia ter recebido naquele momento.

Chegando ao canal no dia combinado, me integrei a um grupo de outros 13 jovens. Grande parte era do Rio de Janeiro, mas havia também dois rapazes de Rondônia e uma menina de São Paulo. Avaliando hoje, posso dizer que este foi o maior desafio que enfrentamos: o da convivência! Com o perdão da nova contradição, éramos todos muito diferentes, com experiências de vida tão peculiares, mas ao mesmo tempo tão parecidos na busca e na vontade de aprender. A TV era nossa América, um novo mundo de possibilidades para desvendar. E nossas embarcações? Nós mesmos precisávamos construir, inventar e reinventar.

Ao final da oficina, apresentamos nossos vídeos aos profissionais do canal e ouvimos suas considerações a respeito. O grupo de que participei optou por fazer um vídeo de ficção para homenagear o teatro; fomos o único grupo que realizou, ao longo de todas as edições do Geração Futura, um produto desse gênero. Aliás, esse foi um aspecto bastante positivo. Fizemos parte da primeira turma nos moldes em que o projeto acontece hoje e, por isso, tivemos acesso a uma gama de possibilidades que foram adaptadas posteriormente pelo canal a fim de aprimorar as atividades.

Continuei em contato com o Futura através de algumas oficinas realizadas pela área de mobilização comunitária, que às vezes promovia alguns encontros entre jovens do Geração e de outros projetos desenvolvidos pelo canal. Foi quando, em julho de 2004, novamente Tatiana Azevedo ligou me convidando para uma vaga de estágio criada por Lúcia Araújo, gerente geral do canal, como forma de estender a abrangência do projeto para além das oficinas, gerando oportunidade profissional através do ingresso no mercado de trabalho.

Aceitei o desafio e passei a atuar num projeto chamado Escola Digital, que, a partir da mistura de ficção e realidade, mostrava as transformações no cotidiano de uma escola com a chegada de um laboratório de informática e da implantação de novas metodologias de ensino. Foi um momento bastante rico, em que pude conhecer conceitualmente o Futura. Passados oito meses de dedicação, fui remanejado para o Interfade, o núcleo responsável pela produção dos interprogramas (peças geralmente de prestação de serviço e de curta duração exibidas nos intervalos da programação). Nesse núcleo tive a oportunidade de aprender mais sobre o processo de produção e sobre a linguagem televisiva sob a ótica da direção de TV.

Quando chegava o momento de término do meu contrato de estágio, uma produtora do canal recebeu uma proposta de emprego e saiu do canal. Estava aberta a chance para que eu pudesse dar continuidade a um trabalho que vinha desenvolvendo. Fiz entrevista com Vanessa Jardim, produtora executiva e coordenadora do núcleo de produção do Futura e felizmente fui efetivado em julho de 2005. Na produção, meu trabalho consistia na gestão de orçamento dos programas junto aos seus coordenadores, além do relacionamento com os fornecedores e as universidades parceiras em projetos.

Em julho de 2007, recebi um convite para integrar o núcleo de programação do canal, onde atuo no momento. Sou o responsável pela redação e produção de agendas, além da realização de interprogramas e produção de projetos especiais.

Agora, sim, fica compreensível o porquê da afirmação anterior de que o Geração Futura foi um divisor de águas em minha vida. Na medida em que todos esses fatos foram se dando, várias transformações se desencadearam. Mudei de faculdade: era estudante de História e passei a cursar Cinema; tive que deixar de morar com minha família, a fim de conciliar todas as atividades na nova carga horária e, sem dúvida, passei por um positivo crescimento como ser humano.

Hoje, faço parte da família Futura e levo comigo não somente a certeza de tudo que os últimos anos representaram em termos de aprendizado, mas também de que esse movimento dialético da troca de experiências que vivi no projeto foi uma preliminar fundamental para que eu pudesse hoje tentar contribuir da melhor maneira possível para o crescimento do canal e de todos os profissionais que nele atuam e, ao mesmo tempo, receber deles parte de suas próprias historicidades.

Publicado em 28 de outubro de 2008

Publicado em 28 de outubro de 2008