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Mudar para ficar igual

Pablo Capistrano

Alguém me disse uma vez que a pior coisa que pode ocorrer com um sonho é virar realidade. Isso é claro, porque a realidade, na maioria absoluta das vezes, é bem pior do que o sonho.

Aprendi a cultivar meu sonho de conhecer a Grécia quando ainda era criança, por culpa do Monteiro Lobato e do Roberto Marinho. Foi a Globo que criou em mim esse desejo, através da velha adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Foi absolutamente espantoso para minha mente de criança o contato com as histórias do Minotauro, de Ícaro, Teseu, Ariadne e com a presença de Péricles, em uma miscelânea clássica que misturava em um mesmo plano diversas idades gregas. Depois de adulto, quando surgiu a primeira oportunidade para atravessar o Atlântico e ver o mundo velho, não titubeei e tive que dar um pulo em Atenas. Lá, além de ter conseguido um busto de Sócrates em cerâmica, de ter batido perna o dia todo no bairro turístico de Placa e ter comido um mussaki (não me pergunte o que é isso que até hoje eu não sei) acompanhado com uma aguardente de uva, eu fui à Acrópole ver o que havia sobrado do templo da deusa Palas Atena. Quando estávamos voltando, o motorista do ônibus que fez o percurso do hotel até o centro velho me perguntou (em um inglês com sotaque) o que eu tinha achado.

“Impressionante isso ter durando tanto tempo”, eu disse, pensando nos séculos VI e V antes de Cristo. O motorista riu e respondeu: “Não durou. Os turcos explodiram tudo em 1820. O que havia sobrado da acrópole caiu, e só ficaram pedras e uma parte do templo. É por isso que estamos reconstruindo”. Não sabia desse detalhe. Imaginei os turcos dinamitando a acrópole enquanto se afastavam para os barcos que os levariam de volta à Anatólia e arrastando consigo parte do Sítio do Pica-Pau Amarelo da minha própria infância. “Quer dizer que essas pedras são outras? Quer dizer que vocês estão refazendo os prédios?”. “Exato” – ele respondeu – “a gente tem que mudar para ficar igual”.

Essa foi uma das grandes lições metafísicas que eu aprendi em Atenas. Talvez seja algo da atmosfera grega, cercada pelos apelos turísticos à mitologia dos antigos e a filosofia de Sócrates e Platão (Aristóteles era macedônio). O fato é que essa é uma percepção importante. As coisas só se conservam quando mudam. Não dá para manter uma casa em pé por toda a eternidade com as mesmas ripas de madeira. É preciso uma reforma aqui e outra acolá para reforçar a estrutura e evitar que o teto desabe.

Foi desse modo que a religião hindu sobreviveu tantos séculos e chegou aos nossos dias. Quem vê as imagens da Índia de hoje na TV, com todas aquelas pessoas tomando banho no Ganges, aqueles ascetas pendurados em árvores e aqueles deuses coloridos, não imagina que, no século XVIII, quase nada que fazia referência à antiga religião dos vedas estava presente naquelas ruas. O bramanismo sobrevivia nessa época como uma sombra, uma mancha do que havia sido, restrito a algumas seitas populares de caráter devocional. O estudo das escrituras sagradas (os vedas) havia perdido espaço para o islamismo e para a influência ocidental, marcada pela presença inglesa na região. Depois de 800 anos de descaracterização e abandono das antigas práticas e tradições, a religião dos 3 mil deuses estava em vias de desaparecer, até que algo aconteceu e a maré virou para o lado do hinduísmo.

No século XIX surgiram tendências sincréticas, como a de um sujeito chamado Ram Mohun Roy, que havia fundado uma espécie de igreja hindu unitária (que defendia a tese de ser Brahma a versão indiana do Deus de Israel, que por sua vez seria também o Pai de Jesus e o Alá que mandou o anjo Gabriel inspirar Maomé a cantar o Corão dentro de uma caverna no meio do deserto). Misturar nunca foi difícil para os hindus, porque o politeísmo tem dessas coisas, sempre há espaço para mais um deus, sempre há um lugarzinho para mais uma prática ritual e ocidentalizar-se não parecia tão ruim, ainda mais quando um inglês chamado Willian Jones começou a se divertir traduzindo textos das escrituras sagradas hindus do sânscrito para o inglês e percebeu que aqueles dois idiomas eram muito parecidos.

Daí surgiu a hipótese de que hindus e europeus faziam parte de um mesmo povo (indo-europeu), que teria seguido caminhos diferentes a partir de um cisma ocorrido bem no meio da Rússia, nove mil anos atrás. A ocidentalização acabou revigorando as práticas védicas e reinjetando vigor na velha religião. Surgiu então um homem, chamado de Ramakrishna, que teria devolvido às práticas populares um caráter fortemente místico, implantando novos significados àquele conjunto de rituais diários e mecanizados das seitas devocionais.

Os indianos aprenderam, nos séculos XIX e XX, que a melhor maneira de resistir a uma dominação cultural é revigorar sua própria tradição a partir de novos modelos, criando novos significados para as velhas formas. Homens como Vivekananda (1862-1902), Ramana Maharishi (1879-1950) e Sri Aurobindo Ghose (1872-1950) aprenderam a lição do deus Vishnu (o preservador), que era representado flutuando sobre as ondas, mantendo-se o mesmo, enquanto tudo passava sob seus pés. A lição de Vishnu e a lição do motorista metafísico na minha viagem à Grécia são idênticas: é preciso mudar para permanecer o mesmo.

Publicado em 04/11/08

Publicado em 04 de novembro de 2008