Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Tinha uma coisa aqui, de Ieda Magri

Cláudia Dias Sampaio

O Tinha uma coisa aqui chegou em hora de dor, solidão pesada. Mas o negrume da primeira página, seguido da dedicatória “aos que sangram”, era convite irrefutável àquilo que restava: olhar profundamente para meu buraco.

Decerto a leitura não seria um bálsamo, talvez fizesse sangrar ainda mais (e fez); contudo, optei por esse algo crocante de que a personagem Pema está sempre em busca. Desisti de segurar a onda, preferi me aproveitar dela para chegar até a areia, com a percepção mais clara de que, apesar das inúmeras tentativas que empregamos para nos distrair da vida e esquecer a morte, “somos essencialmente tristes”, como diz o narrador do segundo conto, o “menino demasiado frágil”, sobrinho de Pema.

E nesse long way em busca de apaziguar o bicho que de vez em quando manda na gente: “não engole, não respira, não se mexe”, o livro da Ieda é mais um aprendizado, uma prece ao Deus da Pema, que cada vez mais me encanta: o da criação.

O livro é constituído por três contos cuja interseção é a dor da perda. A narrativa em prosa, que se aproxima da poesia, lembra o que o italiano Alfonso Berardinelli, em Da prosa à poesia (2007), apresenta como caráter típico da lírica moderna: a ‘fusão de gêneros’. Essa prosa musical – construída por uma porosidade que permite as múltiplas leituras e onde as palavras estão “prenhes de gravidade” (a laranjeira mais antiga é um “Aleph”) – pode muito bem ser lida como uma rapsódia, como propôs Heloisa Buarque de Holanda no texto de apresentação que compõe a orelha do livro.  

No primeiro conto, “Abraão e eu”, narrado por Pema, personagem vértice nesse caleidoscópio narrativo, podemos ler uma metáfora da ascensão, o decolar em busca da construção da linguagem. À medida que Pema sobe o pé de laranjeira e descasca suas frutas, o leitor vai sendo convidado a visitar esse lugar a que somente a literatura dá visibilidade, onde dialogam Hilda Hilst, Bukowski, Borges, Flaubert, Tolstoi, Kafka e Drummond:

o alto é o lugar onde se pode ver tudo. E se me fosse, estando eu aqui, ofertada a máquina do mundo?

O trecho soa quase como um pedido de licença às musas, como o Camões dos últimos versos da segunda estrofe de Os Lusíadas: “Cantando espalharei por toda parte,/Se a tanto me ajudar o engenho e a arte”.

O que lemos são como microepopeias da separação que, narradas de um ponto de vista individual, em primeira pessoa, tratam, contudo, de algo que se amplia à coletividade. Afinal, a dor da perda é algo que, se ainda não sentimos, seguramente um dia iremos experimentar.

Essa falta, que parece ser realmente a protagonista em Tinha uma coisa aqui, surge não somente como tema – a falta do pai, da tia querida, do filho, do grande amor – ou como o lugar mesmo de onde fala a autora (a falta intrínseca constitutiva do feminino).

O universo feminino é revelado por lente macro, voltada para a minúcia íntima, como num diário, expresso principalmente nas linhas sobre “a espera”, como a história do pudim feito para o homem amado e ausente: “não consigo comer porque se você chegar e eu estiver comendo não vai acreditar na minha espera. Vai achar que nem doí”.

Mas dizer que a falta de que trata o livro limita-se a esse lugar seria reduzi-lo a mera literatura de dor de cotovelo, do tipo “os homens estão em Júpiter e é pra lá que eu vou”. E seguramente não se trata disso. A ausência que importa está na linguagem que a apresenta. A palavra aqui é outra, faz sangrar, como adverti no início, e o recado já está dado na epígrafe do livro, com Hilda Hilst:

Penso que tu mesmo cresces
Quando te penso. E digo sem cerimônias
Que vives porque te penso

O atrito acontece porque a falta é matéria da escrita, do pensamento, é o que sustenta a tensão necessária para que o livro não se torne diário de “mulherzinha”. Quando nos confortamos com essa conhecida mulher que espera, o que vemos é o estilhaçar em outras cujos espinhos impedem nossa acomodação. Como mostram os trechos: “amor é ilusão boa quando você sabe como acender a luz, colocar a roupa e ir embora”, ou “saiba que nada faz mais bem a uma mulher do que, no caso de tédio, virar puta”.

E, para os que insistirem em considerar uma escrita menor a que fala desse lugar, trago o que Hilda Hilst escreveu em Estar sendo ter sido:

O que você pensa que são as mulheres? buracos, isso o que elas são. buracos macios. às vezes não, ásperos, quase espinhudos.
(Hilst, 14)

Há espinhos em Tinha uma coisa aqui, seja nas provocações diretas ao leitor, como: “por que você está aqui fingindo interesse se não me conhece? Se não tem nada comigo? Se sou só um nome escrito?”, ou mesmo nas indiretas, como a dúvida que desperta a narrativa final: as cartas de Tina e o diário da filha de Pema (em itálico).

Se forem pedaços da mesma mulher? Ou relato de alguém na montanha-russa de uma separação? As emoções a galopes, os vários discursos a se entrelaçarem no caminho que fazemos de volta a nós mesmos, na hora em que a dor de existir esbarra tantas vezes no insuportável.

No terceiro e último conto, “Tinha uma coisa aqui. 8x Tina”, encontramos a saga da separação de um grande amor narrada pelo ponto de vista feminino. Nele, a tensão se acentua; é onde há os espinhos mais renitentes. Justamente por isso a narrativa interessa, é nessas “áreas brancas” que se processa a interação com o leitor, através da “dialética movida e regulada pelo que se mostra e se cala” (Iser, 1979, 90).

O discurso epistolar é por excelência fragmentário, propício à apresentação de uma subjetividade múltipla, inconstante. O conhecimento de si é realizado pelo próprio movimento da escrita, e nisso as oito cartas de Tina se inserem como elemento a mais na construção de uma linguagem prismática desse sujeito múltiplo que escreve e lê em busca do aprendizado: “saio da casa de Tina sabendo mais da mulher que sou”.

Nesse conto surge mais intenso o fluxo da metalinguagem e da interação com o leitor. É a consciência do escritor moderno, de que o mundo é matéria de escrita. Os dois trechos que encerram o livro mostram a epopeia em busca de si, em O encontro, e o caminho em direção à própria literatura e ao outro que a lê, em A fuga: “quando se anda por essas estradas de terra não há urgência em chegar. O que fica pra trás é só pó”.

Por fim, chamo a atenção para a citação-epílogo e a referência ao diálogo seminal com Manoel Ricardo de Lima, autor do poema Esperando Léo.

Ao trazer a espera e a falta para dentro do discurso, escrever investindo na leitura e conjugar memória e imaginação à cultura audiovisual, tão cara aos da geração da autora, como lemos no segundo conto, “Pema” – onde as personagens Emma Bovary, Ana Karenina, Olga e a barata de Kafka invadem a parede que serve de tela de projeção para os filmes imaginários e de memória de Pema e seu sobrinho –, a autora apresenta seu território: o da literatura.

São esses motivos que imprimem distinção ao Tinha uma coisa aqui, em que a falta, porque pensada, lida e escrita, é constitutiva da própria linguagem. E, à medida que nos permitimos o movimento nesse caleidoscópio, nos é ofertado o adensamento da narrativa, “personifiquei-me na ausência. Sou o que me falta”.

E a dor? Certamente não há remédio, mas há sobretudo as veredas proporcionadas pela leitura de um bom livro:

Se sofro? Já resolvi: não. Por quê? As dores a gente esquece, ficam perdidas enquanto a gente se acha, se ocupa no tempo. (...) Não sofro. Experimento.

Referências bibliográficas

BERARDINELLI, Alfonso. Da poesia à prosa. Org. Maria Betânia Amoroso. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosacnaify, 2007.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963.

ISER, Wolfgang. A interação do texto com o leitor. In: COSTA LIMA, L. (org.). A literatura e o leitor. Textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

HILST, Hilda. Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997.

MAGRI, Ieda. Tinha uma coisa aqui. Coleção Rocinante. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007.

Leia mais

Hilda Hilst
http://www.hildahilst.com.br/

Charles Bukowski
http://www.conradeditora.com.br/hotsite/buk/index.htm

Manoel Ricardo de Lima
http://www.germinaliteratura.com.br/manoel_ricardo_de_lima.htm

Ficha técnica do livro:

  • Título: Tinha uma coisa aqui
  • Autor: Ieda Magri
  • Gênero: Conto
  • Produção: 7 Letras

Publicado em 04/11/08

Publicado em 04 de novembro de 2008