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Entrevista com Manoel Ricardo de Lima, que lança seu 55 começos na 10ª Mostra SESC Cariri de Cultura

Ieda Magri

55 começos é uma coleção de artigos originalmente escritos para o Vida e Arte do jornal O Povo. Conta um pouco sobre a sua colaboração no jornal e o contexto de criação desses artigos.

Manoel: Comecei a colaborar no jornal por volta de 1992, por causa de um convite do Lira Neto, então editor do caderno. Era uma página sobre o Leminski, e o Lira resolveu convidar a alguns jovens ‘poetas’ que gostavam de ler o Leminski. Daí, aqui e ali, entre um editor e outro, metia um texto no jornal. Mas foi em 1997, quando a Beatriz Furtado assumiu o caderno, que a coisa ficou mais legal. Ela montou uma equipe bacana de articulistas pra colaborar fixamente com o jornal. E recebíamos uma grana bacaninha mesmo pra isso. Quando a Bia saiu, também entre um editor e outro, continuei por lá, daí com pauta livre, escrevendo sobre o que dava na telha, o que sempre foi e é o mais legal, é o mínimo que peço. Mas a grana acabou, eles queriam os artigos mas não queriam pagar (é uma espécie de hábito ruim, isso de não saber que certas coisas são trabalho e carecem pagamento), e aí em 2007 achei que era hora de mudar de ares, arejar, abrir outro percurso, porque não conseguia mais produzir pra lá. Não sei bem por quê, ou até sei, mas não conseguia, e achei melhor parar pra não ter que fazer de qualquer jeito. Veio o convite do DN, e aí mudei de casa. Só isso. Mas a pauta é a mesma, ou até, creio, hoje e agora, um pouco mais sóbria e um tanto mais radical e mais leve.

É Ricardo Piglia quem diz que até mesmo um livro de ensaio pode ser biográfico, porque toda escolha reflete uma porção do escritor. Como escolheu os 55 textos? Eles revelam mais o seu apreço pelos escritores de que tratam, as reflexões que você pretendeu suscitar ou o trabalho de linguagem que sempre resulta melhor em um artigo ou outro? Pretendem ser um posicionamento político? Há um “modo de usar” este livro?

Manoel: Sim, é um pouco de tudo. Escolhi os textos (entre quase 300) entre os de que mais gostava. Não sobre o que eles tratam, mas a partir de como eles estão estruturados, ditos, montados etc. Porque a minha ideia com esses textos é abrir conversa, desde aquilo que escolho pra dizer até aquele que pode ler o que escrevo. Sempre digo que estes meus textos para o jornal são a minha beira de mundo, porque eles têm a ver, o tempo inteiro, com esta ideia e noção de beira, de quase queda. Assim, imagino que há, sim, neles uma postura política, posicionada, da qual não abro mão: conversar o mais livremente possível, construir para mim mesmo uma armadilha da qual eu não saiba como sair, deixar a armadilha pronta pra quem corre o risco junto etc.

Você diz, numa advertência que coloca no início do livro, que acredita na relação que pode estar sempre começando entre o jornal e a crítica e acaba jogando para o leitor a pergunta: o quanto pode uma resenha crítica? Eu queria recuperar aqui essa pergunta pra que você falasse um pouco dela.

Manoel: Eu nunca sei o quanto pode uma resenha crítica, mesmo. Mentiria se dissesse que sei. Mas sei, ou imagino que sei, o quanto esses textos desagradam, agradam, movem ou repetem a si mesmos muitas vezes. A única razão de continuar fazendo esses textos é porque a universidade me sufoca muito; gosto muito de alguns alunos (a quem sempre prefiro) e gosto muito da pesquisa e de dar aulas, mas tudo demais me sufoca. E aí encontro na ventilação de uma página de quase papel-de-embrulho-amanhã uma espécie de arejamento, de solidão encontrada, de encontro possível. E gosto disso. Pode ser egoico, e não deixa de ser, mas é também uma forma de construir uma comunidade, mesmo que sem laços, entre aquele que comento, o comentário e aquele que lê ou supostamente lê, e empurrar tudo isso até uma beira sem fundo. Esse sem fundo é a pergunta: o quanto pode uma resenha crítica?

Você poderia ter publicado o livro por uma editora de maior prestígio ou mais comercial, enfim, uma editora grande; mas me parece que optou por publicá-lo pela Editora da Casa, pequena, nova e que tem procurado inventar novos caminhos para a edição e a distribuição de livros. Acho que sua história de escritor passa também por essas escolhas, por essas tentativas de fazer o que ainda não existe. É assim? Como você pensa o seu livro?

Manoel: Não, eu acho que não poderia. Mesmo que pudesse, eu acho que não poderia. E aí, claro, tem a ver, sim, com minhas escolhas. Gosto do que não é, do que fica invisível, do que não está mesmo estando. Ter um selo meu é um desejo antigo, e a aproximação com esse sujeito mais que bacana e hoje amigo-irmão, o Carlos Henrique Schroeder, possibilitou que pudéssemos juntar as frentes e os desejos com o livro. Ele já tem uma editora; essa editora abriga o nosso selo, e o selo é para fazer livros bons, bonitos, dos amigos etc. O nome Editora da Casa quem deu foi a Júlia. A coleção de poesia vem da casa que ficava e fica dentro do enlace mais violento com as minhas questões, que foi o Alpendre e por aí vai. Ou seja, tudo isso tem a ver com afetividade, com amor. Aliás, todos os meus trabalhos precisam passar por isso. Todos os meus livros, creio, passam por isso também. Se não for assim eu prefiro não fazer. E gosto de fazer, não monto discurso lamuriento que falta isso ou aquilo, não fico reclamando de ninguém nem achando ruim o que os outros fazem. Eu aprendi que o bom da vida é fazer.

Você é professor de Literatura Portuguesa na UFSC, segue ministrando oficinas de criação onde instiga seus alunos a pensar não as formas de um texto, mas um mecanismo mais profundo de seu tecimento, está sempre às voltas com conversas sobre a literatura, escreve poesia, publicou uma novela que também poderia ser chamada de poema em prosa, As mãos... Enfim, em que medida sua criação literária está dialogando com seu trabalho cotidiano? Como você pensa a literatura?

Manoel: Eu penso literatura o tempo todo. No meio de outras coisas que vêm até mim, mas eu acredito que só penso em literatura. O resto é suplemento. E não penso assim teorizando tudo, não, porque a teoria pra mim é uma incorporação pra armar o jogo mais tenso possível com o texto. Por isso, tanto faz se estou diante de um poema, de um romance, de uma novela, de um texto de filosofia etc. Me interessa é o jogo que isso me impõe como abertura e sobra, como erro e como impossibilidade. Quero sempre aquilo que não sei, aquilo que não conheço, aquilo que pode me fazer errar mais ainda. Assim, as aulas abrem esse espaço porque gosto da conversa ao vivo, gosto de gente, de olho que brilha, de riso, de testa franzida. Também por isso, literatura pra mim não é disciplina, é vento enfurecido que sai raspando todas as coisas do mundo. Por isso gosto de literatura com outras coisas, quando o vento se mistura e mistura tudo. Literatura é impureza, acredito, contaminação e erro. E, se pensar bem, escrevo mesmo muito pouco, mas não paro um segundo de pensar sobre escrever.

Em 5 anotações: as únicas e outras, ao falar de De todas as únicas maneiras & outras, livro de Jorge Viveiros de Castro, você fala de um certo impasse da literatura e aponta uma saída – nessa conversa sobre esse livro – a saída para o singelo. Você diz: “dizer que lembra fulano ou beltrano, que a narrativa dos tempos de hoje isso ou aquilo, que o trabalho dele tem referências de Zé ou de Chico e tantas outras ilustrações, a meu ver, hoje, agora, neste momento, limitaria seu gesto possível, justo, sincero, generoso: o de quem escreveu pequenas histórias de amor”. Você poderia dizer um pouco sobre esse seu olhar na direção do singelo?

Manoel: Sinceramente, eu não lembro mais o que pensava quando escrevi sobre esse livro do Jorge, que é um livro que tenho entre meus prediletos. Não lembro muitas coisas, e gosto disso. Hoje, provavelmente, claro, diria outras coisas, de outro jeito, mas diria da potência rasgada que é escrever pequenas histórias de amor. Literatura tem a ver com isso, o tempo inteiro, com amor.

Tenho acompanhado um pouco sua produção poética em sites e revistas de literatura na Internet. Há um projeto para livro? O que você poderia dizer da sua busca pelo poema, da construção mesma do poema que assina?

Manoel: Sim, há um livro. Ele se chama Quando todos os acidentes acontecem. Acho que é meu livro de que mais vou gostar. Ele está muito estranho, estranho pra mim mesmo. E gosto disso. Gosto quando não sei o que dizer de meus livros por um tempo. Consegui reler coisas nos meus poemas que me eram problemáticas, como desfazer a imagem do sertão, apontar pra um outro lugar com a linha, modular a fala até o ponto de fazer a fala sumir etc. Deve sair no começo do ano pela 7 Letras. E há um outro livro, de pequenas narrativas, que se chama Jogo de varetas. São pequenas histórias que tratam da duração de um tempo mínimo, o tempo que dura o erro do jogo de varetas, quando uma vareta ao roçar a outra faz tremer a si e à outra. São histórias de amor, escavadas histórias de amor. E se pudesse resumir gostaria de dizer que tudo é beira e erro, erro e beira.

Leia o poema inédito Piauí, de Manoel Ricardo de Lima

11/11/2008

Publicado em 11 de novembro de 2008