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António Franco Alexandre

Cláudia Dias Sampaio

Diálogos Poéticos

Humano e urbano

No início deste novembro de 2008, a crítica e ensaísta Rosa Martelo, da Universidade do Porto, apresentou na UFF a palestra Poesia, cidade e desfocagem, como parte das atividades do grupo de pesquisa “Poesia e Contemporaneidade”, coordenado por Celia Pedrosa e Ida Alves. Na ocasião, Rosa falou sobre duas obras do poeta António Franco Alexandre, Sem palavras nem coisas (1974) e Os objetos principais (1979).

Em ambos está presente o amálgama entre humano e urbano, nas palavras que remetem ao mundo industrializado: celulose, siderúrgicos, terminal elétrico, máquinas agrícolas (Os objetos principais) e no trabalho com a temática amorosa, na qual o corpo, a sexualidade e o amor encontram-se atravessados pelo mundo, pelas “coisas”.

Segundo a ensaísta, toda a poesia de António Franco Alexandre aproxima escrita, amor e sexualidade como experiências afins. Uma escrita em que as coisas parecem sempre “pequenas encenações”, um uso “despragmatizado” da palavra, cujo efeito é uma “espectralização” do objeto, construída a partir de uma aproximação com o que o filósofo Wittgenstein (presente na epígrafe de Os objetos principais) definiu como jogo da linguagem.

Como a melhor e mais segura maneira de conhecer um poeta é lendo-o, segue, sem mais delongas, uma pequena mostra do trabalho de Franco Alexandre, que nasceu em 1944, em Viseu, estudou Matemática, Filosofia, viveu na França, nos EUA e dá aulas de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Um dos poemas, Aracne, é parte do livro homônimo, em que o poeta tece seus versos, como se fosse um inseto.

Sem palavras nem coisas

Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar
as árvores: mas aquilo que amaste perdura
junto da água morna os animais aguardam o ruído
vegetal da noite, e as luzes bocejam
a mansidão das pernas esticadas: o amor
não tem tempo, e dura no que amaste.
Dura de repente nos olhos abertos e
a água que respira no flanco dos animais
bocejando devagar a chegada da noite e das
redes e os passos mornos dos caçadores,
e as luzes escancaradas do silêncio. Dura
esticado nas árvores, dura mansamente sem
palavras nem coisas, sem tempo para
aguardar as mãos do caçador e as redes
mornas respirando sobre a água: aquilo
que amaste perdura.

(In: Sem palavras nem coisas, 1974)

como viver com estas minúsculas

como viver com estas minúsculas
intempéries, a régua sobre a mesa, a chuva
pendurada nos altos telégrafos da paciência?
o passado levanta as lajes, dentro
do ar as sapatilhas vivem a sua luz ausente.
como nos escapa o que não há ainda!, os barcos
verde claro, e o retrato da sua casa iluminada,
e a alegria desta roupa “desfeita em lágrimas”,
e o cão “piloto” enterrado na hortelã, &
as minuciosas tabuletas anunciando o mar: tudo
costumes locais, colhidos ao acaso das
estrebarias públicas. as
comendas multiplicam-se, & o município vê
ameaçadas as mais altas esperanças. um dia
as árvores aparecem com grandes frutos ocos,
e o vidro cobre as ruas, as lajes.
redondas dos passeios.
e estes navios encalhados nos ramos, que arte
os poderia sossegar? é justo que esperemos
transparentes respostas; e que algures
se acabe a transparência, e fique
uma parede lisa; e que nos doa
a memória do enigma. daí, decerto, estas casas
imóveis, com os pássaros a meio;
o rumor dos grandes diques luminosos;
e as mulheres, sentadas nas oliveiras, com
lençóis azuis atados ao cabelo. e ao lado,
a imagem representa um sarau de província, o consumo
inusitado das lareiras, a crise que aguardamos.

somos acaso a silenciosa escravatura das águas? como
obedecer ao requerimento das cortinas, quando
ao erguê-las a brisa avistamos o passado
de unhas redondas junto à balustrada? e outra vez
nos escapa o sítio de vastos planaltos, o tropel
dos búfalos, das esteiras secretas, do assobio
junto das portas levemente azuis.
deixarei:
que me devorem os cachimbos do sal, a madrugada
violeta de antimónio. assim me saberão
a prazer os prazeres, como as nuvens
no ascensor dos fornos siderúrgicos, ou
tardes de poder popular. depois

as palavras, e a sua sombra nos armários
da greve, escaparão ao nosso ardor.
as planícies não cabem neste modesto horóscopo
que lhe anuncia o sofrimento, ambas as mãos
surdas ao princípio do dia, e a sucessiva
descoberta dos seus fins. afastemos enquanto
é tempo os temerosos búfalos, e os cabos
entrançados do terminal eléctrico. mas
como viver com os pequenos
inconvenientes da catástrofe? nunca
aceitarei esse pacto ditado pelas vetustas
máquinas agrícolas. a sua passagem marcou
as ruínas redondas junto à praia, e a
“superior determinação das autoridades responsáveis”
encerrou-os no insensato mercado das províncias.
como viver com este amável búfalo
das mais distantes alagadas pradarias ardendo?

confesso que me espanta o mapa
dos seus inadiáveis sofrimentos. a norte
cai em lentas ladeiras, em barcos
de papelão azul e marinheiros cegos. e as altas
falésias da tarde, a caminho do sul!
a leste, o mar vazio de mar espalha redes
sobre os velozes corvos submarinos: quem.
recordará o estertor das suas presas? sombrias
são as suas sementes, as naus, os realejos
azuis do amanhecer.
as cabeças
do ar estendem. véus sobre o planalto. como
esquecer o seu bafo, a sua cólera
de mastros violentados?

visitarei secreto o seu ardente
esquecimento. as ruas, primeiro inclinadas a poente
depois cinzentas à beira da água,
falam-me obscuramente dos seus seios de anil
do seu perfil de mapa transportado
em secretas mochilas, a sua
árida transparência. e os seus ossos
repousarão na areia, junto à tarde aonde
fumei a seda imóvel, e o amei, e as suas
folhas me cobriram de poeira azul. como
viver com estes dentes, esta estampa
monótona de búfalos pastando,
e as suas casas iluminadas pelo vício?
e de repente deparamos com vastos armazéns
geológicos, como deuses que dormem:
como nos surpreende o seu triunfo! como nos pesa
o áspero rumor dos telefones! não acredito
sequer no que me diz. como
viver ha dúvida insensata dos seus
variados usos? e assim
nos esquecemos pouco a pouco, frequentemente
mais jovens, mas também mais selvagens.
não conheço este campo, este vidro, esta porta. não ouço
sequer o que me diz. apenas o tropel
dos búfalos; ao fundo, nos
elucida: e então

(In: Os objetos principais, 1979)

Aracne

Formoso amigo meu, podes cantar à lua
e amar outros mais lestos do que eu,
roer um osso, admirar as estrelas,
seres sábio e humano, além de belo.
Já vi que escreves um diário, com
as patas firmes, o pêlo luzidio,
e versos, onde porém há sempre
uma sílaba a mais, presa por fios.
Pouco te importa se eu existo ou não,
e ignoras, das aranhas, o tormento
quando a teia se rasga e é urgente
tomar medidas, e tecer, à espreita
de alguma inócua presa imprevidente.
Voas tão solto, lá no firmamento,
que te tomam por pássaro ou cometa;
e meditas em vastos pensamentos... só não sabes
que ao rasgares o meu leito aqui deixaste
uma gota de sangue, a que estás preso.

(In: Aracne, 2004)

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Publicado em 25 de novembro de 2008

Publicado em 25 de novembro de 2008