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100 anos de espaço literário

Luis Estrela de Matos

Machado 100

Machado de Assis existiu. Claro! Biógrafos o confirmam. Não quero perder-te, meu atento leitor amigo. Preciso de sua atenção. E de sua imaginação. Se era filho de pintor de  paredes, se foi aprendiz de tipógrafo, se sua mãe foi ou não foi lavadeira, se ele casou com Carolina ou Josefa, o que tudo isso poderia nos auxiliar a entender a literatura machadiana? Inaugurou-se um campo literário, no melhor sentido blanchotiano. Acidentes biográficos não explicam o específico do literário. Convido-te a caminharmos em outra pista. Comecemos:

A linguagem debaixo de uma linguagem. Não o sentido que um texto possa encerrar, mas um manancial de sentidos, um campo exploratório onde múltiplas relações se estabelecem entre leitor possível e escritor que lê. Escritor que lê, leitor que escreve: eis uma das questões principais de uma obra como Memórias Póstumas de Brás Cubas. O bruxo do Cosme Velho precisou esperar alguns bons anos (talvez Oswald de Andrade seja o primeiro grande interlocutor...) para começar a ser realmente compreendido. E o que é realmente compreender? Perguntas-me...

Compreender, aqui, como sinônimo de explorador de campos; compreender enquanto forte trabalho de enriquecimento interpretativo. O clássico que se faz sempre vivo, contemporaneamente clássico. Petrarca, Ovídio, Homero, Fernando Pessoa, Shakespeare e tantos outros. Literatura é potência, exercício de criação do homem. Escrever sempre foi um ultrapassar da escrita, um ultrapassar do meramente descritivo, do meramente biográfico. Nossa literatura pode contornar e esquecer O alienista? Obviamente sabemos a resposta, tu e eu. Continuemos.

Machado é moderno. Machado é contemporâneo. Moderno no sentido forte. No sentido de Baudelaire, de Whitman, de Poe. Alta literatura, como nos fala Leyla Perrone Moisés. São escritores leitores que fundam uma nova sensibilidade, uma nova estética, uma nova relação com a literatura, que produziram obras onde o sujeito se fragmenta em vários estilhaços. Talvez o Álvaro de Campos-Pessoa seja um dos ápices dessa fragmentação, dessa despersonalização. Fragmentação de tal envergadura que desenhou novos caminhos para a literatura ocidental. Daí a contemporaneidade.

Um fazer literatura que expressasse o novo. Não o novo pelo novo. Mas o novo enquanto signo da experiência moderna de sentir e pensar o mundo. O que quero dizer com experimentar? Experiência enquanto adensamento do real, um enriquecimento constante de todos os acontecimentos. A vida se tornando obra? Fiquemos na pergunta...

Peço voz ao Conselheiro Aires daquele estranho Memorial:

Sete dias sem uma nota, um fato, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque também hoje não tenho que apontar aqui. Escrevo isto só para não perder longamente o costume. Não é mau costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem pensa nada.

Realmente um trecho curioso. Metalinguagem, sem sombra de dúvida. Machado e o espaço literário. Maurice Blanchot. Machado e a escritura barthesiana. Indicações, foi o que tentei, meu atento leitor. Provocações? Talvez.

Aniversário? Claro que sim. Machado de Assis, 29 de setembro de 1908. Machado de Assis, 20 de novembro de 2008. Biografei? Biografema, se eu pudesse aqui evocar novamente Roland Barthes.

Até.

Publicado em 02 de dezembro de 2008.

Publicado em 02 de dezembro de 2008