Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

O último leitor

Ieda Magri

...este mundo hay que verlo desde fuera de la lógica, que las palabras funcionan mejor si no parten de la razón, sino de la belleza.
David Toscana

Uma cidade seca, abastecida somente por uma carroça de pipas dirigida por um velho de nome Melquisedec que, com suas mulas cansadas, dia após dia enche os pequenos baldes dos moradores de Icamole que se contentam em ter água apenas para beber;

Um homem de rosto lavado, Remigio. Ao contrário dos outros, no seu poço ainda tem água e dá pra beber, lavar o rosto e ainda molhar o abacateiro. Quase uma afronta esse cuidado no meio da seca;

Um bibliotecário, Lucio, que passa seus dias selecionando os livros que vão para as estantes entre os preferidos, ou para o inferno – um cômodo onde alimenta baratas e outros bichos ávidos de papel, cola e costura.

Essas as três personagens principais do romance O último leitor, de David Toscana, mexicano nascido em Monterrey em 1961. Para fazer contraste com o realismo mágico que marcou para o bem e para o mal a ideia do que é a literatura dos escritores latino-americanos, David Toscana se diz dono de um estilo próprio denominado “realismo desvairado”. Não devendo nada aos mestres antigos, desmitificando a história e mostrando, ainda, numa época marcada pela narrativa urbana, o mundo rural mexicano, David Toscana vem sendo apontado como um dos grandes nomes da nova literatura. Apesar de ter sete livros publicados, no Brasil temos apenas as traduções de dois romances: O último leitor (2005) e Santa Maria do Circo (2006), ambos pela Casa da Palavra. O último, aliás, devidamente mandado para o inferno por Lucio, por se tratar de um “melodrama sobre anões e mulheres barbadas”. Quem já leu alguma vez Dom Quixote lembrará de ter visto esse gesto sarcástico do autor que cita, critica e condena seu livro: Cervantes o faz com Galatea.

Mas há ainda uma outra personagem que, embora morta, anima todo o enredo. E sabemos da menina morta logo no primeiro capítulo, quando Remigio vai ao poço e não ouve o chapinhar do balde na água. O que fazer com a menina morta? É aí que a biblioteca de Lucio adquire um poder indispensável. A trama, então, se costura com os acontecimentos do passado e do presente de Icamole e com o que vai escrito nos livros.

A biblioteca de Lucio, aparelhada pelo governo num tempo anterior à narrativa e já fechada por ordem do mesmo governo, é a fonte de direção das ações das personagens. E, claro, ela só pode servir a alguém porque os livros foram lidos e memorizados por Lucio, o leitor a quem só interessam os melhores livros, sempre de acordo com um juízo muito próprio que não obedece às leis de mercado nem mesmo de prestígio autoral. Os livros são bons quando lidos e inseridos num sistema de valores elaborado única e exclusivamente pelo seu leitor. É nisso que Lucio insiste em suas análises e não titubeia em bater seu carimbo de censurado mandando livro e autor passarem imediatamente pela boca do inferno: para ali vão os que fazem suas personagens pigarrearem antes de iniciar um diálogo, os que fazem diálogos que não interessam aos protagonistas mas são colocados ali só para informar o leitor do que está se passando no romance, os que insistem em finais felizes e redentores, os que fazem modelos de heróis sem nenhuma fragilidade, os que descrevem demais, os que descrevem pouco, os que fazem muitas analogias do tipo “ficou mudo como uma pedra”, “branca como a neve” etc. e, principalmente, os autores da cidade que escrevem para a gente da cidade abordando assuntos rurais que nunca vivenciaram. Estes são desprezíveis porque “quem senta em porcelana não sabe nada de latrinas”.

A narrativa que está no topo da preferência de Lucio se chama A morte de Babette, de Pierre Laffitte. Juntamente com A macieira, de Alberto Santín, servirá de mapa para o futuro dos protagonistas e da própria Icamole, porque tudo – vida e realidade – está escrito nos livros. O tema da identificação do leitor com a leitura lembra um outro livro, que, por sinal, tem o mesmo nome: O último leitor, de Ricardo Piglia. Nele, o escritor argentino busca respostas para questões como: o que é um leitor? O que busca ao ler, ao escolher um livro?, e é justamente nos livros já escritos, sobretudo nos clássicos, que vai investigar os vestígios de respostas – e não em pesquisas sociológicas.

Mas fiquemos com David Toscana. Você vai, a exemplo de Lucio, mandar esse livro para o inferno ou colocá-lo entre os seus preferidos?

Publicado em 09 de dezembro de 2008

Publicado em 09 de dezembro de 2008