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Sena e Camões, um diálogo de contemporâneos

Raquel Menezes

Não é de bronze, louros na cabeça,
Nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
Soltando às ninfas que lambiam rochas
("Camões na Ilha de Moçambique", Jorge de Sena)

Tudo foi roubado: “As ideias, as palavras, as imagens/e também as metáforas, os temas os motivos/os símbolos”. E a pergunta fica: o roubo deu-se no século XVI ou no XX (por volta dos anos 60)? Ou ainda: terá sido nos dois tempos? Ou estaria Jorge de Sena a reclamar “motivos” seus, sob o nome do vate Luis de Camões? As perguntas ficarão sem resposta (?). Direciono-me ao poema "Camões dirige-se aos seus contemporâneos":

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado por meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Assis, 11/6/1961
(Sena: 1984, p. 95)

Aqui observamos, além da incontornável genialidade de Sena, a preocupação que o sujeito lírico tem com o tempo. Ou melhor, a atenção ao que o tempo pode fazer com a autoria, uma função – como nos ensinou Foucault – nodal aos discursos, já que se relaciona à noção de criador original que perpassa a modernidade artística. Se para Foucault o conceito de autoria, tal como concebe a cultura moderna (Foucault, 1992), estabelece-se no final do século XVIII e início do século XIX, quando se instaura a noção de texto como propriedade e o autor passa a ter direitos, por que estaria Camões a reclamar a não-citação de seu nome (“E podereis depois não me citar”)? Ou não seria a autoria a questão nodal camoniana, mas sim o reconhecimento de seu trabalho. Mesmo motivo pelo qual o autor de Os Lusíadas mata o poema, na célebre estrofe 145 do canto X:

No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com quem mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dua austera, apagada e vil tristeza
(Lus, X, 145)

De volta ao texto de Sena, e ressaltando que, apesar de o sujeito lírico ser Camões, o poema de 1961 não foi escrito pelo autor do épico lusitano, vemos uma “língua nova” de “dores”. A julgar que esse poema é irônico, não só pelo resgate da figura de Camões como também pela escolha vocabular, posso pensar que essa “língua nova” na verdade são várias línguas: a língua menor que nos remete à literatura menor de Kafka; a língua que aproxima Vênus dos lusitanos e a nova língua poética, aquela que é originada da transformação de uma outra língua, de uma experiência, de um testemunho. Vale ressaltar que Jorge de Sena sempre entendeu a sua poesia (o seu teatro, a sua ficção) como uma forma de dar testemunho de si mesmo e das suas circunstâncias, partindo de experiências; nas palavras do autor

sempre entendi a poesia, cuja melhor arte consistirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas, principalmente, de outros que a nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o sejam de facto (Sena, 1961, p. 12).

Neste momento, ao falar de experiência, fica deveras difícil não pensar no “saber de experiências feito” do Velho de Restelo, o personagem que, em certa medida, funciona nOs Lusíadas do mesmo modo metonímico que Camões é resgatado em "Camões dirige-se aos seus contemporâneos". De volta (mais uma vez) a Sena, observamos que a experiência deste poeta faz parte, de certo modo, de um mundo concreto tanto no plano individual como no coletivo, inserido nas visões de mundo que as obras de arte (literária, visual, musical) vão cristalizando, codificando, no decurso da história humana. Isso nos permite pensar que, na poesia de Jorge de Sena, a ética e a estética se confundem e o lirismo é atravessado por uma forte vocação especulativa e narrativa, como vemos no primeiro poema apresentado neste texto.

Referências bibliográficas

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo: Editora Cultrix, 1995.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Tradução de Antonio F. Cascais e Edmundo Cordeiro. Lisboa: Passagens, 1992.

SENA, Jorge de. Poesia I. Lisboa: Círculo de Poesia / Morais, 1961.
____________. Trinta Anos de Poesia. Lisboa: Edições 70, 1984.

Publicado em 09 de dezembro de 2008

Publicado em 09 de dezembro de 2008