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A Escola da Ponte: é "desensinando" que se aprende

Mariana Cruz

Ao visitar a Escola da Ponte, em Portugal, o educador Rubem Alves deparou-se com a realização daquilo que sempre havia pensado como ideal de educação. Tal foi o deslumbramento decorrente dessa feliz descoberta que da visita nasceu um livro cujo título deixa claro o que o autor sentiu ao conhecer tal instituição: A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir.

O professor Ademar Ferreira dos Santos é o responsável pelo prefácio do livro. Ele aponta as principais divergências entre o ensino tradicional e a Escola da Ponte, como o fato de, na escola portuguesa, a educação não ser voltada para a competição e de palavras como indisciplina, rivalidade e ciúme tornarem-se vazias naquele contexto. O objetivo principal daquela escola é ser um local que consiga tornar as crianças felizes, solidárias e com ideias próprias, características essas bastante desvalorizadas no pensamento utilitarista predominante dos dias atuais, em que quem não é um "vencedor" é descartado. Para Ademar, a Escola da Ponte é uma comunidade educativa, democrática e autorregulada, na qual as crianças são educadas com base na cidadania.

Em seu relato sobre tão marcante experiência, Rubem Alves fala primeiramente dos mestres zen e os chama de "estranhos educadores", porque desejavam "desensinar" seus discípulos, a fim de que eles pudessem ver o que nunca tinham visto, libertar os olhos dos "saberes", tornar infantis os olhares, como os de quem vê algo pela primeira vez. O educador encontrou na Escola da Ponte grande similaridade com tal pensamento.

Essa escola está aberta a quem quiser conhecê-la, tanto àqueles que querem aprender com ela quando a seus detratores. Qualquer um que chegue lá para visitar pode, em um primeiro momento, ficar surpreendido com a maneira atípica como a escola funciona: não há aulas, não há turmas separadas, não há testes elaborados por professores, não há sinais sonoros para avisar da troca de aulas. Estranho, não? Mais estranho ainda é que o aprendizado se dá de maneira profunda.

As crianças elaboram quinzenalmente seus planos de trabalho, através da formação de pequenos grupos heterogêneos com interesses comuns por um assunto, e ficam durante essas duas semanas mergulhadas no estudo. Um professor dá a orientação necessária sobre o que deve ser pesquisado e onde pesquisar (a internet é bastante utilizada) e estabelece um programa de trabalho e formas de avaliação. Após esse tempo, os alunos avaliam se atingiram ou não os objetivos de aprendizagem impostos por eles mesmos. Se o aprendizado foi adequado, o grupo se dissolve e outro grupo se forma para estudar um novo tema; se não foi atingido o objetivo, o grupo continua debruçado sobre o mesmo assunto. Em relação ao processo de alfabetização, as crianças aprendem a ler "frases inteiras", elaboradas por elas próprias.

Há dois quadros de avisos. Em um deles está afixada a frase "Tenho necessidade de ajuda em..."; No outro, está a frase "Posso ajudar em...". Dessa forma, as crianças pedem e oferecem ajuda sobre determinado tema e criam uma rede de solidariedade. Elas pesquisam e aprendem em grupo, as que sabem ensinam às que não sabem.

Os alunos da Escola da Ponte ficam juntos em uma enorme sala de aula, cheia de mesas baixas, próprias para crianças, cada uma trabalhando em seus projetos; ninguém corre ou grita. Os professores orientam aqueles que os solicitam. Pelo fato de cada criança ser um indivíduo singular, original, que não pode ser colocado em uma forma, o ritmo de desenvolvimento de cada um se dá de forma diferente.

Quando acontece algum problema de disciplina, é montado o tribunal; quem desrespeita as regras de convivência estabelecidas pelos próprios alunos deve comparecer diante do tribunal e tem como pena pensar durante três dias sobre seus atos. Depois retorna para dizer o que pensou. As crianças reclamam seus direitos, como ter bons professores, usar os computadores e escutar música em sala de aula, mas também não deixam de fora seus deveres, como poupar água e manter a sala de aula limpa.

Para Rubem Alves, as escolas tradicionais são uma espécie de linha de montagem, em que os operários não sabem construir um objeto completo, apenas pequenas partes que vão se acoplando no decorrer do processo até compor o objeto final. No caso das escolas, os "alunos-objeto" são unidades biopsicológicas móveis, portadoras de conhecimentos e habilidades. Aquelas unidades que, ao final do processo, não estiverem com uma quantidade de conhecimento determinada são prontamente descartadas. Como as linhas de montagem, as escolas tradicionais se dividem em coordenadas espaciais - as salas de aula - e temporais - as séries -; cabe aos professores realizar o processo técnico-científico de incutir nos alunos os saberes-habilidades que irão compor o objeto final. Ou seja, a criança é o objeto original que, após ser carregada com vários saberes-habilidades, será testada, a fim de saber se o seu produto final está apto ao mercado de trabalho.

No ensino tradicional, muitas vezes a criança é obrigada a aprender aquilo que não quer. Isso a torna desestimulada, com preguiça de fazer o dever de casa, pois a vida a está chamando para uma direção mais alegre. Isso ocorre muito comumente nas escolas que são obrigadas a cumprir um programa, que passam por cima daquilo que a criança está vivendo. O processo de aprendizagem não deve ser uma coisa imposta, maçante, pode ser algo natural.

Rubem Alves usa a linguagem como exemplo de algo bastante difícil de ser ensinado e aprendido. No entanto, todos a aprendem espontaneamente, sem precisar ter aulas sobre o assunto. O corpo tem naturalmente uma filosofia de aprendizagem; muitas coisas aprendemos de olhar, de nos interessar ou devido a alguma necessidade.

Ao afirmar que deseja uma escola retrógrada, Rubem Alves indica que quer uma escola que vá para trás dos "programas" científicos elaborados e impostos, uma escola que ensine como os saberes nasceram. Ele faz uma brilhante comparação entre a memória e um escorredor de macarrão, uma vez que ambos deixam passar o que não tem serventia e retém o que vai ser usado. Segundo o autor, é isso que ocorre na Escola da Ponte: a aprendizagem se dá em cima do que vai ser utilizado, isto é, dos pratos que serão saboreados; aquilo que não pode ser apreendido é escorrido como a água do macarrão. Nas escolas tradicionais, os testes, provas e avaliações são aplicados enquanto a água ainda não escorreu; depois, grande parte desses conteúdos vai pelo ralo. Só não é esquecido aquilo que se aprende a partir da vida.

Apesar de ser professor universitário, Rubem Alves fala do desejo de voltar seu olhar para as crianças, pois nelas está a expressão de assombro, perplexidade, arrebatamento frente ao novo. Os adolescentes estão inseridos na triste lição de que aprender é chato, mas que é necessário para que possam passar no vestibular. As crianças são como os primeiros filósofos: assombram-se diante do banal e é tal olhar que temos que ter diante do mundo, pois só assim o mundo se abrirá para nós.

Ficha técnica do livro:

  • Título: A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir
  • Autor: Rubem Alves
  • Gênero: Paradidático
  • Produção: Ed. Papirus

Publicado em 12/2/2008

Publicado em 12 de fevereiro de 2008