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Instalação

Luís Estrela de Matos

Realmente necessário, quase nada. Necessário é um compromisso inadiável, chegar mais perto das horas, quase respirar minutos, quem sabe, lamber os instantes. O que urge urge porque decidimos que urgisse. Urgir é coisa feia, vocábulo intransigente, coisa de início. E início, a gente agora sabe bem, é coisa que não existe. Começo é falácia. Ur é uma mentira das boas, enganou muita gente. Culturas se montaram assim. E continuam se montando (antes que me esqueça, feliz 2008! Feliz 2009 e o que se seguir...). Ur disso, Ur daquilo... ur-gente e gente foi achando que ia se limpando. Povos vivendo no ur. Uma higiene do pensamento. Arre! Com os diabos, isso de princípio! Melhor seria que nada urgisse mais. Apenas surgisse, se as palavras não fossem tão fáceis. Rimas dão enjoo. Náuseas dataram-se há décadas, quem sabe baudelarianas demais, se assim o quiserem. E quem quer algo? Vê-se gente fazendo, se mexendo, comprando, vendendo, se debatendo, agora querendo é que não vejo. Facilidade se faz de tantas maneiras que o homem quase desiste. Mas, vício de antanho, ele nunca deixa que desista. Segura o instante, mostra-o a si e aos demais enquanto supostamente (necessário) urge a necessidade por ele, atravessando-o de tal forma que ele sente o ímpeto. Mas ímpeto de quê? Empuxo, violência, arrancões, tudo mecânica. Ave Descartes. Ninguém te aguenta mais. Deixa o Bill desempregar-se. A mídia afirma que ele vai filantropizar-se em seguida. Gatetropias à parte, necessário mesmo era o silêncio. Mas silêncio não é decisão. Ninguém decide pelo silêncio. Não é necessário. Faz-se, ou deveria. E sobram as vozes. Vozes? Isto de ruído e barulho e decibéis... é coisa farta. Haja funk. Haja periferia de nós mesmos, nesta exclusão física que se tornaram as urbes. Sem silêncio fica impossível prosseguir. Direção? Pressupõe um priori. Danou-se tudo. Com a morte de Deus, matou-se junto o diabo. Sem telos. Este texto não é mais necessário. Livra-te dele. Mas não jogue fora o silêncio:

INSTALANDO-SE.

Pubicado em 12/2/2008

Publicado em 12 de fevereiro de 2008