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Preparação de pesquisas gera polêmica nas escolas

Alexandre Alves

Nos últimos anos, a internet tem ocupado um espaço que era das enciclopédias, das obras científicas e dos livros didáticos. Com o fácil acesso às informações disponíveis na grande rede, uma pesquisa que antes fazia os alunos passarem dias procurando em livros agora está ao seu alcance em apenas alguns cliques do mouse. Além dos sites de busca, como o Google, o Yahoo! e outros, os estudantes podem consultar a Wikipédia, uma enciclopédia virtual com centenas de milhares de artigos disponíveis em 42 línguas. Essas facilidades na realização desse tipo de trabalho vêm gerando discussão quanto ao atingimento dos objetivos pedagógicos desejados quando foram pedidos esses trabalhos e quanto ao uso da internet como fonte confiável de informações.

A agência de notícias France Presse (AFP) sugere que seus funcionários não usem a Wikipédia como referência para preparação de suas matérias, alegando imprecisão de fatos, já que a autodenominada "enciclopédia livre" permite que qualquer pessoa adicione ou edite as informações publicadas. Alguns colégios também veem com desconfiança o uso da Wikipédia como fonte de trabalhos e pesquisas.

O professor Anderson Cidade Júnior, do Colégio Nossa Senhora de Sion, do Paraná, acredita que a proposta de pesquisa que permita a consulta a sites na internet necessita que professores e estudantes tomem alguns cuidados. Ele acha que o aluno deve ser alertado quanto aos riscos de uma pesquisa nessas fontes virtuais; para minimizá-los, o melhor é "sempre buscar mais de uma fonte para seus trabalhos”, explica Anderson. O professor de História Marcello Rangel, ouvido por O Globo, concorda: "é preciso estimular os estudantes a cotejar as fontes", o que fomenta seu espírito crítico. "O aluno não pode achar que o primeiro resultado é suficiente". A exigência de mais de uma fonte de informação diminui a chance de ele tomar como base unicamente informações obtidas em sites pouco confiáveis em termos acadêmicos.

Para dar suporte ao aluno, o professor pode indicar formas simples de verificar a qualidade da informação disponível no site. Se o artigo é assinado por um cientista brasileiro, o aluno pode "ir à Plataforma Lattes, do CNPq, para ver seu currículo", sugere Rangel.

Mesmo com todo o esforço e os custos necessários para a publicação de um livro (nos casos dos livros didáticos há inclusive a avaliação do MEC), seu conteúdo e suas opiniões vez por outra são considerados incorretos ou postos em dúvida; as informações disponibilizadas na internet podem ter sua qualidade mais questionada ainda, já que exigem do autor pouco mais do que o conhecimento para usar um editor de texto para colocar a página "no ar". Por essa razão, muitos educadores consideram os livros mais confiáveis; para eles, a internet pode ser usada como auxílio às atividades de pesquisa, mas não como principal base de informação. Aliás, vários estudiosos do assunto afirmam que a tendência é de que a consulta a informações na internet seja cada vez mais frequente – atingindo não só a educação básica, mas também o ensino superior, havendo mesmo vários artigos sobre o assunto publicados na internet.

Alguns colégios vêm se antecipando a essa perspectiva, colocando em seus sites uma seção com a indicação de endereços que divulgam informações "de qualidade", evitando que os alunos façam consultas apenas em páginas sem credibilidade - como blogs pessoais ou voltados exclusivamente para a defesa de um ponto de vista. O objetivo é direcionar os alunos para fontes de informação selecionadas pelos próprios professores, indicadas para cada disciplina. Entretanto, uma decisão como essa, de delimitar as obras que devem ser pesquisadas, pode ser considerada um direcionamento da pesquisa, levando os alunos a obter resultados previsíveis para suas buscas – e frustrantes para eles, que veem seus trabalhos ficarem quase idênticos.

As pesquisas feitas em canais digitais – sejam eles sites na internet ou enciclopédias digitais, como a Koogan-Houaiss, a Britânica,a Microsoft Encarta ou o Almanaque Abril – trazem outro benefício para o aluno: a possibilidade de transferir textos, figuras, gráficos ou mapas diretamente para o arquivo eletrônico do aluno, com o recurso copia-e-cola. Antes, ao consultar as versões impressas de enciclopédias como a Barsa, a Conhecer, a Larousse, a Mirador ou a Britânica (para citar o nome das mais conhecidas), era preciso copiar à mão as informações lidas (e refazer desenhos, gráficos, mapas etc.), o que inevitavelmente levava a uma leitura um pouco mais atenta acerca do que estava sendo colocado no trabalho; com os recursos disponibilizados pelas novas tecnologias e o ctrl+C/ctrl+V, nem é preciso ler muito: o aluno localiza o começo, confere o miolo e chega ao que ele considera o final do texto que lhe interessa. Pronto, estão ali as informações; só falta copiar para seu arquivo. "Eu recebi um trabalho em que o aluno nem lembrou de esconder a página da internet onde ele encontrou as informações. Veio com tudo: www-ponto etc. e tal", comenta Claudia Almeida, professora da rede estadual do Rio de Janeiro.

Mesmo sem uma indicação tão explícita, muitas vezes é fácil reconhecer o texto copiado (seja de livros, seja de meios digitais): a estrutura das frases e o vocabulário ficam diferentes, são utilizadas palavras que não são características daquela idade ou daquele grupo de alunos.

Além da questão da qualidade da informação obtida, a facilidade de acesso traz outro tipo de complicador: os alunos deixam para fazer o trabalho em cima da data de entrega, sem depurar as informações, analisá-las criticamente, contextualizá-las ou compará-las, correndo o risco de reunir posicionamentos contraditórios sem que isso seja mencionado.

Para evitar esse problema, uma solução é organizar o trabalho em etapas, em que os alunos tenham que periodicamente apresentar os resultados obtidos. "Mas, para isso, o professor tem que ser mais do que um corretor do trabalho pronto; ele tem que ser um orientador dos passos do aluno naquela pesquisa", acrescenta Claudia.

É preciso que o educador considere um outro aspecto na hora de avaliar um trabalho escolar baseado em pesquisas: o esforço da busca. Se ela for bem feita em livros, publicações, internet ou CD-ROMs, ela terá seu valor, independente do resultado final, ainda que menos aprofundada do que o professor esperava. Aliás, esse é um ponto importante que o professor tem que considerar em sua avaliação: uma pesquisa bem feita é o primeiro passo para um trabalho de análise de qualidade.

Você tem alguma ideia do que fazer para evitar que os estudantes façam trabalhos que sejam meras cópias de outros textos? A seção Discutindo trata também desse tema. Leia as sugestões de outras pessoas - quem sabe elas não podem contribuir com sua prática ou trazem novas ideias?

Foram usados também como referência: o site Nota 10 (acessado em 12/02/2008) e o caderno Info etc. da edição de O Globo de 28/01/2008.

Veja mais sobre esse assunto em:

Publicado em 19 de fevereiro de 2008.

Publicado em 19 de fevereiro de 2008